"Ama e faz o que quiseres. Se calas, cala-te por amor; se falas, fala por amor; se corriges, corrige por amor; se perdoas, perdoa por amor." (Santo Agostinho)
Em uma cidade do interior mineiro, efervescente como as águas minerais que borbulhavam em seu solo, vivia o jovem vigário Padre Alisson. Ele desejava ser um grande sacerdote, daqueles que quando falecesse, tivesse, no mínimo, o nome proclamado pelas próximas três gerações dos lugares por onde passou. Queria que os hábitos polidos fossem seu marco, tão quanto era a aparência distinta aos olhos das beatas que o cercavam.
Sua pele alva, somada aos cabelos negros e porte elegante, eram luzes as idosas do Apostolado, mas faróis as moças ou de meia-idade "mariposas", atraídas pelo clarão da presença tão imponente em figura, e ao mesmo tempo, reservada em pessoa do homem.
Ele se lembrava de ser um pouco mais comunicativo em sua infância, apesar das rotinas de oração e presença na Igreja impostas por seus pais.
Entretanto, ao entrar no seminário, se deparou, não por escolha, mas por obrigação, com regras, horários, rotinas. E absorveu tudo como uma esponja, prestes a se encharcar totalmente e a pesar a si própria, mas não importava, pois assim ele seria bom. Principalmente através do silêncio.
No entardecer de um certo dia, comum em sua rotina, bebia chá na sala de jantar da casa paroquial, após longas horas atendendo confissões, que mais eram conversas sobre o que as vizinhas das senhoras fizeram de chocante do que seus próprios pecados. Ria sozinho ao se lembrar da bronca que deu na dona Fátima por tal motivo, enquanto, durante a leitura, grifava o relevante de seu novo livro. Então, recebeu uma ligação que fez seu coração palpitar por um breve instante – a de seu superior, o Bispo Diocesano.
— Alô, Excelência Reverendíssima? O que deseja? — ele atendeu tensamente, imaginando o que estaria por vir enquanto seus dedos tamborilavam na mesa, esquecendo completamente o chá.
— Deus o abençoe, Padre Alisson. Compareça ao Gabinete Episcopal, amanhã às quatorze horas. Temos que conversar.
Dom Paulo era conhecido por ser um Bispo reservado, frígido, autoritário. Apesar de não saber o que esperar de suas solicitações com total precisão, o que gerava certa e natural tensão, Padre Alisson não o temia. Ele o admirava. Imaginava-se como seu superior no futuro – um Bispo temido e respeitado. Com um sutil sorriso que mascarava sua ansiedade, assentiu.
— Entendido. Estarei em seu gabinete amanhã, no horário.
— Espero, Padre. Até.
Desligada a ligação, seus pensamentos se voltaram às hipóteses. Advertência? Não, ele era muito amado por aquele povo. Uma nova incumbência a nível Diocesano? Talvez. Uma transferência? Provável. A fumaça de seu chá começava a se dissipar diante da utópica realidade de quem a consumia, só não tão esquecida quanto o marcador azul e o livro eucarístico que ele tanto almejava ler. De repente, seu devaneio foi desperto pelas mãos que puxavam a xícara para o lado, e se acomodava na cadeira a sua fronte.
— Padre Luiz? Não esperava vê-lo tão cedo. — ele sorriu timidamente, enquanto puxava a xícara novamente para perto de si, contemplando o seu pároco.
— Alisson, também nós Padres precisamos de descanso. E o senhor sabe isso mais do que eu, já que está aqui há mais tempo lendo e tomando chá enquanto ri daqueles a quem atendeu confissão.
— O senhor nunca aceita ficar para trás, não é?
Padre Alisson então abaixou a cabeça, deixando para trás a contemplação do semblante mais envelhecido e marcado de seu pároco, porém sem deixar de ouvi-lo. Era sua forma de mostrar respeito àquele que ainda que tivesse poucos fios brancos, tinha mais história, escrita em cada uma de suas linhas de expressão. Ele sabia o que estaria por vir, pois diferente de Dom Paulo, Padre Luiz era previsível, ademais, extremamente cirúrgico. Sem perceber, torceu os lábios em uma quase careta.
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Cinzas e Incenso
ActionAlisson era o vigário promissor de uma paróquia interiorana. Seu legado importava tanto quanto a identidade sacerdotal. Desejava ser visto, amado e lembrado. Quando Dom Paulo o transfere como administrador paroquial a uma cidade próxima, acredita es...
