São Paulo nunca dormia de verdade.
Mesmo depois da meia-noite, ainda existiam carros passando lá embaixo, luzes entrando pela janela do apartamento e pessoas vivendo vidas completamente diferentes umas das outras. Daniela costumava gostar disso. Gostava da sensação de que o mundo continuava girando mesmo quando ela sentia que estava parada.
Naquela noite, porém, tudo parecia estranho.
Talvez fosse o vinho barato. Talvez o cansaço acumulado. Talvez o fato de ela estar assistindo Twilight pela milionésima vez como se aquilo ainda conseguisse preencher algum espaço dentro dela.
A televisão iluminava a sala escura com tons azulados. Forks parecia fria até através da tela. Chuvosa. Silenciosa. Quase acolhedora.
Daniela estava jogada no sofá usando um moletom enorme, os cabelos bagunçados e o celular abandonado em algum canto da manta. O filme já estava na cena em que Bella chegava na cidade e Charlie tentava agir como um pai normal sem realmente saber como fazer aquilo.
Ela sorriu sozinha.
Sempre tinha odiado o jeito distante que Bella tratava o Charlie.
Se fosse ela ali, faria diferente.
Muito diferente.
Pegou a taça pela haste e tomou o resto do vinho devagar enquanto observava a caminhonete vermelha aparecer na tela.
Aquilo tinha virado uma espécie de ritual nos últimos anos. Assistir aos filmes quando a vida ficava pesada demais. Entrar naquele universo por algumas horas. Fingir que existia algum lugar no mundo onde tudo fazia sentido.
Mesmo com vampiros.
Mesmo com lobos.
Mesmo com pessoas se apaixonando de forma intensa e impossível.
Ela suspirou e fechou os olhos por alguns segundos.
- Eu queria entrar nessa história.
A frase saiu baixa.
Quase uma piada.
Só que o apartamento ficou silencioso demais depois disso.
Daniela abriu os olhos lentamente.
A televisão tinha travado.
A imagem parada refletia uma Forks cinzenta e imóvel. O som havia sumido completamente. Até os carros lá fora pareciam ter desaparecido.
Ela franziu a testa.
- Ótimo. Acho que bebi demais.
Então as luzes piscaram.
Uma vez.
Duas.
Três.
O coração dela acelerou num susto genuíno.
O ar do apartamento ficou gelado.
Gelado de verdade.
Como se alguém tivesse aberto todas as janelas no meio do inverno.
Daniela se levantou do sofá sentindo a cabeça girar um pouco. O silêncio agora era sufocante. Nem mesmo o som da própria respiração parecia normal.
E então ela viu.
A sala desaparecendo.
Não de uma vez.
Primeiro as paredes começaram a escurecer. Depois o chão pareceu dissolver em sombras líquidas. A televisão apagou. A luz da cozinha sumiu logo depois.
YOU ARE READING
Sob o Céu de Quileute
Fanfiction"Daniela, 25 anos, apaixonada por Crepúsculo, agora vivendo o inesperado. Quando um desejo à meia-noite a transporta para Forks, seu destino se entrelaça com lobos, mistérios e uma nova imortalidade. Acompanhe a jornada de autodescoberta e laços ine...
