CAPÍTULO 15

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A cadeira de Milena continuava vazia.

Alfredo percebeu isso mais de uma vez durante a última aula do dia.

A mesa intacta, a cadeira empurrada para dentro.

Ele desviou o olhar.

Acabou olhando para trás. Jorge.

Jorge estava olhando para Bianca.

Alfredo franziu a testa. Bianca conversava baixo com uma amiga. Virou o rosto por cima do ombro. Os olhos dela encontraram os de Jorge. Virou rápido demais, ajeitando o cabelo atrás da orelha.

Segundos. Alfredo olhou para a cadeira vazia. Olhou de novo para trás. Bianca também olhou. Jorge sorriu. Um sorriso pequeno, de canto de boca.

A caneta escapou da mão dela. Bateu na mesa. Alguns alunos olharam. Não parecia raiva. Parecia flerte.

— Hoje vamos discutir os experimentos feitos em Sobral, em 1919 — cortou o professor. — Medições durante um eclipse confirmaram a Teoria da Relatividade de Einstein. Atenção aos detalhes para o resumo.

Alfredo desviou o olhar da cadeira vazia.

— Como a Milena está? — sussurrou para Melissa.
Ela levantou os olhos do caderno.

— Quando saí do dormitório pra aula, ela tava dormindo.

— Dormindo?

— Apagada.

Alfredo olhou de novo para a cadeira. Depois para trás. Jorge ainda trocava olhares com Bianca. Ela não sabia como reagir. Alfredo cruzou os braços. Não fazia sentido. Mais cedo, Jorge parecia pronto pra explodir de raiva. Agora… flerte no meio da última aula do dia.

•     •     •

A biblioteca da Dário Braga à noite cheirava a madeira e papel antigo. Um foco de luz caía sobre Alfredo e Melissa, isolando livros, cadernos e folhas de anotações sobre Einstein e Sobral.

Melissa esticou as costas, olhou o relógio, depois Alfredo, que apoiava o queixo na mão, concentrado no caderno.

— E aí? Tá animado pro final de semana? — perguntou, puxando um fio solto da capa do caderno.

Alfredo soltou um suspiro curto. Fechou o livro com um baque surdo.

— Não… Sexta-feira começo o trabalho novo.

Melissa arqueou a sobrancelha, inclinou-se pra frente.

— Trabalho? Sério? A gente tá no último ano, Alê… ninguém precisa disso aqui.

Ele deu de ombros, olhando para as mãos, iluminadas pelo abajur.

— Preciso pagar parte do material… algumas coisas que não quero pedir pros meus pais. Autonomia, acho.

Melissa ficou em silêncio, observando. Ela conhecia a pressão que ele carregava, a expectativa constante em casa.

— E o descanso? — perguntou, baixa. — Você não vai querer ir pra casa, respirar, se afastar disso tudo?

Alfredo balançou a cabeça antes que ela terminasse. Um brilho novo passou nos olhos dele, quase rebeldia serena.

— Não. Eu tô gostando de ser só o Alfredo. Aqui, sem eles… não preciso carregar o que esperam que eu seja. Essa liberdade — olhou para as sombras entre as estantes — é a primeira coisa que realmente me pertence. Prefiro trabalhar do que voltar pro teatro todo fim de semana.

Melissa tocou levemente o braço dele, gesto silencioso de cumplicidade.

— Entendo — murmurou. — Às vezes o preço da liberdade é maior do que a gente espera. Só acho que você já é um "young adult". Tá na hora de perder o medo dos seus pais e contar a verdade.

ADOLESCÊNCIA EXPOSTAStories to obsess over. Discover now