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gon se questionava regularmente por quê. seu telefone fixo estava sempre mudo, a caixa de correio permanecia vazia, sua casa ficava sempre num estado tão oco que parecia estar de mãos abanando; killua tinha escorrido por suas mãos. era o mais próximo de alguém que havia tido e para ele sobrara apenas o vão dos dez dedos reverberando sua falta. interrogações não eram suficientes. pontos de exclamação não surtiam efeito. sua linha telefônica nunca mudou, e mesmo com esse eterno estar igual, tudo tinha irremediavelmente se tornado diferente. onde estaria killua àquelas horas? em quais perdições estava caindo? será que ainda pensava nele? era doído e cruel, e gon sentia o afastamento como um corte de papel no meio do tecer de sua vida.
sabia viver sem killua, claro que sabia, ajudando sua tia e estendendo as roupas e fazendo a lição de casa num silêncio mortal, observando os passarinhos na ilha se bicarem por um pedaço de pão, rindo das piadas de pescadores que nunca tinham nada de novo para contar sobre os mistérios do mar. havia passado doze anos de sua vida vivendo por si próprio e, portanto, sabia voltar a ser suficientemente sozinho; porém ser sozinho sempre tinha uma melancolia grudenta, cheia de perguntas inconvenientes, e gon tinha experimentado o bom da vida em conjunto por tempo demais para apenas aceitar o novo velho tão bem assim. em cada cômodo de sua casa rondava o fantasma do zoldyck, e em cada dia azul estava o julgamento afiado dos olhos dele, e em todo doce açucarado demais aparecia o sorriso de killua. ele havia desabrochado para a vida em dois anos, e o moreno sempre pensava se a vida estava tão boa sem ele para que fosse melhor assim.
para todos os fins, gon sabia ser um pouco egoísta. queria continuar com seu melhor amigo, queria rondar o mundo, queria ouvir as novidades da sua voz de tom ácido e meio sarcástico; mas killua tinha seu número e endereço e havia desaparecido do mundo. esporadicamente ele sentia um nó entre ambos sendo arrancado à força e ficava doente, de cama, sentindo enxaqueca pela perda e voltando à vida cotidiana com certezas de que era aquele seu destino final. seus quereres não tinham impedido que killua dissipasse no miolo de suas memórias febris de aventuras passadas, nem que sua vida na ilha continuasse a mesma de sempre, nem que os dias fossem do jeito que categoricamente eram sem exceção, nem que sentisse todo dia que havia alucinado com tudo aquilo. será que killua existia mesmo? eles não tinham nenhuma foto salva para provar aquilo, e gon nunca tinha o abraçado para constatar que não era um boneco animado. ficaram presos na intimidade da zona de conforto, o moreno contando que ele sempre estaria ali e killua seguindo esse roteiro eternamente, e esqueceram da decência do diálogo.
ou melhor, gon esqueceu. cego e surdo, sabendo muito bem não estar mudo por lembrar das atrocidades que disse, deixou que a presença de killua caísse no conto de estar eternamente garantida e sentia o buraco da realidade como tiros em seu peito. não existia mais rastro do brilho de seus cabelos brancos e killua, em toda sua dignidade e vaidade características, tinha colocado um ponto e vírgula naquela dança depois de tanta negligência; poderia ser menos doído nos dois assim. gon queria que doesse menos dessa forma, e enquanto a dor persistisse sem previsão de antibióticos, se contentaria com o solitário antigo normal, estendendo roupas, pescando peixes e pensando em todas as outras variantes que poderiam ter sido se falasse menos e ouvisse mais o que o coração machucado de killua tentara tão frequentemente contar. talvez killua não soubesse ainda, mas gon, em todo seu pouco catolicismo, o achava o mais benevolente dos santos, e sofria com a certeza de que poderia ter sido um melhor fiel.
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killua continua deitado, imóvel, em posição de quem espera algo acontecer e ao mesmo tempo desacredita que milagres existam; ele sempre se pergunta como. como aquele vazio de seu peito havia conseguido consumir o resto de seu corpo inteiro? ele não tem personalidade, não tem eu, não tem norte. killua é nada e ele vive apenas em função de ser para alguém todo tempo & o tempo todo.
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✧ fragmentação do ego, killugon
Fanfictionexiste um killua além daquele moldado em gon? ☆ comissão paga © dollyboned, 2026.
