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Música: 23
Chase Atlantic 🎸

A noite já tinha dominado a praça, estendendo sombras longas sobre os bancos de madeira e a fonte que parara de jorrar horas atrás. Eu estava ali, como todos os dias, encostado naquela mesma coluna, observando a entrada do prédio azul ao lado. Hoje não era só Jimin lá — ele estava com mais três rapazes que eu reconhecia de longe, daquela galera que ainda gira por aí.

Eles estavam em frente ao portão, conversando animados, gesticulando com garrafas de cerveja na mão e passando cigarros de um para o outro. Jimin ria de alguma coisa que um deles disse, mas seu sorriso não chegava aos olhos — parecia falso, desgastado, igual a todos os outros dias que eu vinha por aqui.

Lembro que nos conhecemos aos dezesseis anos, na aula de história. Ele estava sentado na carteira ao lado do meu, rabiscando rostinhos no caderno e rindo baixinho das piadinhas do garoto da frente. Na época, ele cheirava a sabão de coco e sempre trazia biscoitos de mandioca na mochila para dividir. "É da minha vó", dizia, com aquele sorriso largo que iluminava tudo. Aos dezessete, começamos a sair juntos — fugir da rotina pesada, das brigas que vinham pela janela de casa dele, da pressão dos meus pais com as provas. "Vamos só curtir um pouco", ele dizia, puxando minha manga para seguir o grupo até as festas na periferia.

Agora, com eu com vinte e dois e ele com vinte e três, tudo parece tão diferente.

Ele levanta a garrafa para beber e eu me aperto na jaqueta, sentindo aquele nó na garganta que já conheço bem. Talvez seja luxúria, talvez seja amor — a frase da música que ouvíamos antigamente bate na minha cabeça toda vez que eu o vejo. Não consigo dizer direito se é só preocupação de quem ama um amigo, ou se é algo mais profundo, misturado com todas as noites que passamos juntos, todos os segredos que compartilhamos. Ele me olha de relance e eu me escondo um pouco mais na sombra, mas a gente sabe — mesmo de longe, a conexão ainda tá lá.

"Meu amor, meu amor, você tem apenas vinte e três anos", eu murmo baixo, repetindo as palavras da música. Ele ainda tem tempo, eu penso. Mas vejo como ele se apoia na parede quando os amigos viram as costas, como seus ombros caem, como ele passa a mão pela cabeça como se estivesse com dor. E eu me pergunto: quando foi que o garoto que trazia biscoitos de vó virou esse homem cansado que precisa de bebida para sorrir?

Jimin sempre teve problemas com os pais — desde que nos conhecemos, ele chegava na escola com olhos inchados de chorar, contando sobre as discussões em casa. Seus pais brigavam o tempo todo, e muitas vezes ele era o alvo da frustração deles: "Você é um peso", ouvinha dizer. Ele nunca sentiu que pertencia lá, que era suficiente. "As festas eram o único lugar onde eu me sentia visto", me contou uma vez, enquanto bebíamos refrigerante em um canto vazio da sala de aula. "Ali, ninguém liga para os seus problemas de casa — só importa se você sabe curtir".

No meu caso, foi diferente. Meus pais queriam um filho perfeito: notas boas, cursar medicina, seguir o caminho que eles escolheram para mim. A pressão era tanta que eu começava a sentir falta de ar só de pensar no futuro que eles desenharam. Fui para as festas escondido de noite, sempre deixando a janela do meu quarto aberta para sair sem fazer barulho. Ali, eu não era o "filho que precisa dar certo" — só era Jungkook. Foi assim que começamos a experimentar coisas junto: primeiro bebida, depois o resto. Tudo começou como uma forma de fugir, de esquecer por alguns momentos quem éramos e o que esperavam de nós.

A gente pensava que controlava, que era só uma fase. Mas a fase virou rotina, e a rotina virou vício. Eu me lembro que Jimin começou a usar mais e mais — já não era só nos fins de semana, mas até antes da escola, para conseguir aguentar o dia. Eu tentava segurá-lo, mas acabava seguindo o mesmo caminho, com medo de ficar só ou de perder o único amigo que realmente entendia o que eu passava.

23 • Jikook Histórias para pegar e não largar. Descubra agora