Talvez um dia eu pudesse ser feliz de verdade, no momento, sorrio apenas para esquecer meus problemas.
A melhor parte do meu dia é quando vejo minha namorada, com ela, os sorrisos nunca são falsos, sempre são tão verdadeiros quanto à mim mesma. Eles sempre expressam o verdadeiro sentimento que acende dentro de mim quando eu a vejo. Digamos que Jennie apareceu como uma luz, me guiando para da minha própria escuridão que eu mesma me perdi.
Há dois anos atrás, quando eu tinha 22 anos, me mudei para os Estados Unidos com o objetivo de viver independente e me livrar de um casamento arranjado que meus pais queriam fazer para mim. Apesar de eu ser uma mulher intersexual, eles insistiam que eu me casasse com um homem e removesse meu pênis.
Eu não queria aquilo.
Então, fugi.
Quando cheguei nos Estados Unidos, o mundo pareceu tão sem cor. Digamos que a animação da Tailândia era bem melhor. O país em si tinha mais cores do que aqui. O calor que emanava minha vida no natal foi substituído por um frio intenso com direito à neve; o trânsito bagunçado daquele país acabou assim que pisei aqui. Simplesmente não há mais motoqueiros andando entre os carros sem capacete.
Digamos que minha vida se tornou ainda mais melancólica.
Na época, consegui um emprego numa cafeteria próxima a uma escola, que resultava em vários alunos passando lá sempre antes de ir estudar.
Lembro-me também que, enquanto eu caminhava pelas ruas de Ashland, procurando algum lugar para viver, a tristeza tomava conta de mim, pois tudo era caro para o meu orçamento. Eu não tinha condições. Então, continuei andando, entrando num bairro cheio de casinhas simples e padrões, mas bonitas, rodeado por árvores grandes que deixavam o local ainda mais sombrio.
Quando está nevando, Esse bairro fica aterrorizante!
2024 — Ashland, Oregon
Flashback
Adentrando um pouco mais, acabei chegando no final da rua, onde tinha duas árvores lado a lado, entre elas, uma pequena trilha com marcas de pneus. Sem pensar, segui-a. Um tempo depois caminhando, meus olhos brilharam ao encontrar um lago gigante e, logo atrás, uma grande montanha linda e bem esverdeada, um pouco molhada, já que tinha chovido naquele dia.
Ao olhar para o lado, vi um senhorzinho magro com a pele enrugada e os cabelos grisalhos, sentado numa cadeira de praia, me encarando com um sorriso. Atrás dele, tinha um trailer branco e desgastado, um pouco grande, eu diria. Será que ele morava ali?
— Olá, me desculpe! Não sabia que tinha gente morando aqui — expliquei-me, envergonhada enquanto ajeitava a mochila em minhas costas.
— Não tem problema! — ele sorriu, os olhos se fechando de um jeito fofo. — Está de viagem?
— Ah, não! — falei, rindo suavemente. — Vou morar aqui. Inclusive, o senhor sabe um lugar onde eu possa passar a noite?
— Se quiser, pode ficar aqui comigo no meu trailer. Tem um sofá bem confortável e bem espaçoso lá dentro.
Sua voz passava confiança, mas mesmo assim, não dava para confiar. Afinal, quem era esse senhor? Quem garantiria que era inofensivo? Melhor não aceitar, é perigoso demais.
— Não quero incomodar o senhor! Já vou indo — disse, sem jeito, soltando uma risada que mais parecia um suspiro.
Ele riu, olhando para a paisagem linda que tinha à sua frente. Então, de repente, ele se levantou, pegou outra cadeira igual a dele e colocou ao seu lado. Logo, sentou-se novamente e olhou para mim.
— Venha aqui, sente-se!
Permaneci parada, sem saber se deveria ir ou não. Acho que percebeu minha insegurança, tanto que riu e focou os olhos na linda montanha, continuando com seu sorriso fofo.
— Não tenha medo. Venha aqui, Lalisa!
Arrepiei-me ao escutá-lo. Como ele sabia meu nome? Eu não me lembro de ter dito isso para ele? Que tipo de cara ele era? Vidente? Macumbeiro? Stalker? Que merda está acontecendo aqui? Segurei fortemente a alça da minha mala, pronta para correr caso fosse necessário.
— Como o senhor sabe meu nome? — perguntei, trêmula e curiosa, mas com medo da resposta.
— Não se lembra de mim? — perguntou e eu neguei com a cabeça, engolindo seco. — Espere um pouco! — após seu pedido, entrou dentro do seu trailer.
Fiquei ali refletindo, tentando lembrar de onde ele poderia me conhecer. Eu escrevo poemas, mas não publico eles, já que não tenho condições para investir nessa carreira, então não tem como ele me conhecer por isso. Sem contar que nunca vim aos Estados Unidos. Se bem que ele tinha alguns traços asiáticos. Ele poderia ter se mudado para cá também, quem sabe.
De repente, minha atenção foi tomada pelo barulho da porta do trailer. Logo, o vi caminhar até mim com algo em mãos. Quando chegou perto, dei um passo para trás, sentindo minhas pernas tremerem, mas então, ao invés de se aproximar mais, ele apenas se afastou e esticou a mão, me entregando uma... fotografia?!
Evitei de primeira, mas depois, ao ver que ele não desistiria, estiquei minha mão para pegar o objeto, vendo ela tremer conforme se aproximava. O objeto ficou preso entre meus dedos e sem perder, trouxe eles para perto, observando atentamente a foto.
Arregalei os olhos, sem acreditar que ele tinha aquela foto. Eu estava ali! O meu eu criança estava ali, no pescoço de um homem. Estava no pescoço do meu...
— Lembra de mim agora, patinho? — ele perguntou, interrompendo meus pensamentos.
Olhei para ele, sentindo uma lágrima escorrer, logo vendo as semelhanças dele e o homem da foto. Fazia tantos anos que eu não o via. 17 anos... Nossa! Fazia 17 anos que eu não via o meu avô, o único homem que me amou de verdade desde que nasci, mesmo sabendo que eu era diferente das outras garotas.
— Vovô... — sussurrei, sentindo vontade de voar em seu pescoço e abraçá-lo fortemente. — VOVÔ! — exclamei, fazendo exatamente o que eu queria.
O que recebi em troca? Recebi o abraço mais gostoso da minha vida. Recebi aquele abraço que parecia um lar, um aconchego, um conforto. Recebi sua risada gostosa de ouvir. Recebi sua massagem suave em minhas costas. Eu recebi tudo aquilo que estava precisando receber em todos esses 17 anos longe dele.
Depois de um tempo aproveitando aquele abraço, ele levou minha mala para dentro junto a minha mochila, em seguida, voltou com duas canecas de chocolate-quente. Sentamo-nos em frente ao trailer, nas cadeiras de praia baixas e confortáveis, apesar de tudo, e, por fim, permanecemos olhando a vista em silêncio.
— O que aconteceu com o senhor, vovô? Está tão diferente que quase não te reconheci — perguntei, curiosa, saboreando aquele chocolate quente que só ele sabia fazer.
— O câncer muda as pessoas, patinho! — afirmou, recebendo meu olhar confuso e surpreso. O que me confundiu mais foi o sorriso no rosto dele. Por que ele estava sorrindo?
— O senhor tem câncer?
Ele assentiu, e apesar do sorriso em seu rosto, vi uma lágrima solitária escorrer pelo meu rosto.
— Tenho câncer de mama. Infelizmente ele já está muito avançado, descobri tarde demais e não tem como eu fazer tratamento. E você, o que faz aqui?
— Vovô, não muda de assunto.
— Patinho, eu tenho poucos dias de vida, não quero gastar eles lembrando que a minha morte está próxima. Me deixe saber mais sobre você. O que você fez durante esses anos todos? Por que resolveu vir morar aqui? Me atualize sobre sua vida.
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Dentro da Escuridão- Jenlisa (G!P)
RomanceLalisa Manobal, aos 22 anos, deixou a Tailândia para fugir do casamento arranjado que seus pais queriam para ela. Sem recursos, encontrou um trailer abandonado nos Estados Unidos, onde começou a trabalhar em uma cafeteria. Em meio às dificuldades, c...
