Portais
O céu estava negro, mesmo em pleno dia. Raios púrpura rasgavam o ar, pulsando como feridas vivas no tecido do mundo.
Dentro da fortaleza do inimigo — um antigo bastião corrompido pela escuridão — reinava o desespero. Quatro famílias reais estavam aprisionadas, cada uma com seus bebês nos braços: herdeiros recém-nascidos dos quatro reinos elementares — Fogo, Água, Terra e Ar.
Seus reinos estavam em ruínas. A esperança, quase extinta. Mas, então, os próprios bebês começaram a brilhar.
Luz crua, ancestral, incontrolável. Correntes de energia mágica jorraram dos pequenos corpos como uma resposta ao perigo. Cinco portais instáveis se abriram no ar, pulsando em tons vivos. Cada um apontava para um mesmo destino: um refúgio esquecido chamado Terra.
— Eles... estão criando portais? — perguntou Arkan, ofegante, rei de Velharis, o Reino do Fogo, segurando seu filho Kael nos braços.
— É o instinto de sobrevivência — disse Naerya, sua esposa, enquanto as chamas em seus cabelos dançavam com o poder emergente ao redor.
Aysha, rainha de Nymiria, o Reino da Água, apertava Darian contra o peito enquanto Toren, seu marido, invocava um escudo líquido ao redor deles.
— Não há tempo! Se os portais estão abertos, é agora ou nunca! — gritou Maelor, rei de Tharenn, a Terra firme e profunda, já com Noah envolto em camadas de rocha encantada.
Idria, sua companheira, olhava o horizonte com olhos marejados.
Ao lado deles, Selya e Faelan, soberanos de Syl'Vareen, o Reino dos Ventos, estavam divididos: Selya com Liah, Faelan com Zira. As gêmeas choravam... ou talvez estivessem entoando uma canção em uma língua esquecida.
Sem hesitar, os reis e rainhas correram para os portais. Seus olhares se despediram em silêncio — sabiam que talvez não se reencontrassem.
Os portais rasgaram o espaço sobre o pátio da Escola de Magia Eltar, um santuário oculto entre montanhas encobertas por véus ilusórios, no coração da Terra. Protegido por uma barreira ancestral, o lugar era invisível aos olhos comuns.
Orren, o diretor da escola, já os aguardava. Vestia roupas simples, mas seus olhos traziam o peso de eras vividas.
— Vocês conseguiram... — disse ele, a voz baixa. — Mas... ele os seguiu, não é?
— Sentiu o rastro dos bebês — disse Naerya. — Como se a energia deles fosse um farol.
E o céu estremeceu. Fendas negras se abriram acima da escola. Uma figura surgiu entre as sombras: um homem de aparência serena, envolto por um manto que ondulava como fumaça viva.
A entidade havia chegado.
— Entregarão as Auras tão facilmente? — disse ele, com voz doce e cortante como lâmina.
— Orren, leve-os para dentro. Agora! — ordenou Arkan. — Proteja-os como se fossem seus!
O diretor acenou. Professores e guardiões se mobilizaram, recebendo os cinco bebês — Kael, Darian, Noah, Liah e Zira —, cada um envolto em uma aura protetora conjurada pelos pais. Um fragmento do Prisma das Auras foi entregue junto a cada um.
Os oito pais se entreolharam uma última vez. Nenhum hesitou.
Eles atravessaram a barreira mágica... e enfrentaram o inimigo do lado de fora.
A luta foi breve. Brutal. Uma dança de elementos contra trevas. Mas a entidade, astuta, lançou uma onda de sombras que arremessou Selya e Faelan para longe. Num piscar, Arkan, Naerya, Aysha, Toren, Maelor e Idria foram engolidos por uma fenda dimensional... junto com o vilão.
Silêncio.
O Retorno e o Juramento
Feridos, Selya e Faelan retornaram à escola.
— Orren... o que aconteceu?! — gritou Selya, ajoelhando-se ao ver os portais fechados.
O diretor abaixou a cabeça, o rosto endurecido.
— Eles se sacrificaram. Levaram a entidade com eles.
Faelan apertava os punhos com raiva contida.
— Isso não acabou...
— Não. — Orren olhou para os cinco bebês adormecidos nos braços dos professores. — Mas um novo ciclo começou. Quando as Auras despertarem... elas nos guiarão de volta.
Com o desaparecimento de seis soberanos, a escola mergulhou em silêncio. Orren, agora o último elo entre os mundos, tomou decisões rápidas e precisas. Os cinco bebês eram o último vestígio da herança mágica dos reinos.
Na calada da noite, o diretor ocultou os artefatos ligados ao Prisma das Auras. Cada fragmento foi selado com encantamentos antigos e entregue a famílias confiáveis, estabelecidas em bairros protegidos dentro de uma cidade oculta chamada Velhenora, camuflada entre os humanos.
O bebê com aura vermelha — Kael — foi confiado a um casal forte e humilde no bairro de Cindarune, uma zona de colinas altas e vento seco.
O de aura azul — Darian — foi levado a Maerlyn, bairro cercado por lagos ocultos e pontes de bruma.
O de aura verde — Noah — cresceria em Thalinar, região viva com florestas profundas e árvores que sussurram à noite.
Enquanto isso, Selya e Faelan foram auxiliados por Orren a se estabelecerem com suas filhas em Lumora, bairro artístico e mágico onde a energia fluía em manifestações sutis. O casal abriu uma loja de cristais e objetos místicos, servindo de fachada — e ponto de contato secreto com a escola.
As gêmeas, Liah (lilás) e Zira (violeta), cresceram sob o amor dos pais e a vigilância invisível dos mestres de Eltar. Embora distantes do reino natal, a herança corria forte em suas veias.
Havia sonhos, visões e instantes de silêncio nos quais sentiam... que algo estava prestes a mudar.
O Silêncio Antes do Despertar
No coração da escola, Orren descia lentamente pelas escadas que levavam ao subsolo. O altar dos fragmentos ainda pulsava levemente.
Ele estendeu a mão e selou o espaço com o feitiço final. As cápsulas flutuantes desapareceram entre as paredes encantadas da Torre Leste, invisíveis até mesmo aos olhos de outros magos.
Antes de sair, Orren aproximou-se de uma pedra nua e ergueu a palma da mão. Um símbolo brilhou. Uma mensagem surgiu, gravada em uma língua esquecida:
"Quando os Fragmentos clamarem... retornem para casa."
Ele apagou as luzes. E desapareceu pelas sombras da escada.
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Aura-Nexus
FantasyCinco jovens, quatro reinos caídos e um destino selado antes mesmo de seus primeiros passos. Em Velhenora, os cinco jovens levavam vidas comuns, até que suas cores começaram a brilhar. Arrastados para a oculta Escola de Magia Eltar, eles descobrem s...
