Impulso 0: Milagre

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No início, chamaram de milagre.

As primeiras crianças nasceram diferentes. Não deformadas, não doentes, apenas incompatíveis com qualquer padrão conhecido pela ciência. Seus corpos reagiam a estímulos invisíveis, seus sistemas nervosos suportavam cargas energéticas impossíveis para humanos comuns, exames apontavam níveis anormais de reatividade energética, e o sistema nervoso de alguns reagiam de forma intensa, revelando crianças que possuíam força física muito superior à de um adulto comum.

A mídia chamou de evolução.
Grupos religiosos chamaram de bênção divina.

Durante algum tempo, todos fingiram que aquilo significava progresso.

Foi em 2026 que ocorreu a primeira transformação de um Conduit que possibilitou a nomenclatura e a diferenciação entre os tipos de crianças. Aquelas que demonstravam corpos mais resistentes, capazes de suportar grandes quantidades de energia, passaram a ser chamadas de Cores. Outras eram mais sensíveis, porém também mais instáveis, capazes de gerar energia própria e manifestá-la na forma de armas. Essas receberam o nome de Conduits.

Embora na época os estudos já conseguissem diferenciar um tipo de criança da outra, pouco se sabia além disso. A capacidade de se transformar em arma era algo totalmente novo e assustador para a população. A única coisa que a ciência podia afirmar com certeza era que aquelas energias não eram algo completamente novo. Elas já existiam no corpo humano e sempre estiveram presentes no dia a dia das pessoas, apenas em quantidades muito menores.

Sabia-se que os Conduits eram a principal fonte dessa energia.
Sabia-se que ela assumia formas específicas como lâminas, bastões, correntes, armas já existentes em nosso mundo.
E também se suspeitava de algo ainda mais estranho: muitos Conduits só conseguiam usar seus poderes com estabilidade quando estavam próximos de um Core específico, como se existisse um vínculo invisível entre eles. Quando um Core utilizava um Conduit com o qual não possuía esse vínculo invisível, o próprio Core era punido pelo corpo. As consequências variavam de acordo com o quão distante era a afinidade entre os dois.

As punições iam desde convulsões e queimaduras de alto nível, até a perda de sentidos como visão, fala ou audição. Em casos mais graves, ocorria necrose na área do corpo que havia entrado em contato com o Conduit.

Curiosamente, o Conduit quase nunca sofria danos reais. No máximo, um mal-estar passageiro.

Outro padrão começou a ser observado: o vínculo também parecia estar relacionado ao estilo de luta do Core. Aqueles com maior afinidade para combate corpo a corpo, por exemplo, tendiam a se vincular a Conduits que se manifestavam como armas de impacto, como um soco-inglês.

Era tudo o que se sabia até o momento.

E mesmo sem entender completamente o porquê, as Agências passaram a trabalhar em cima desses padrões, tentando transformar incerteza em método, e método em controle.

Um ano depois, no Japão, o mundo presenciou a primeira grande falha desse sistema recém-nascido.

Homura Rikai tinha 19 anos. Era uma Conduit de Ceifaria, capaz de manifestar lâminas curvas de energia semelhantes a foices etéreas. Seus irmãos sempre se destacaram. Ela, não.

Homura se comparava o tempo todo. Treinava mais. Forçava mais. Ignorava o próprio corpo. O cansaço físico se acumulava, mas o esgotamento mental era ainda pior. Ela queria provar que também era forte. Que também era digna.

Até que ultrapassou o limite.

Durante uma sessão de treino, sua energia saiu do controle. A sobrecarga rompeu a estabilidade do corpo. O que antes era humano começou a se distorcer. Ossos se expandiram, a carne se reorganizou de forma grotesca, e uma fenda invisível pareceu se abrir dentro dela.

Homura Rikai deixou de ser humana.

A criatura que surgiu possuía lâminas instáveis que cortavam o ar como se rasgassem a própria realidade. Não havia consciência, apenas instinto. Dor. Reação.

O mundo assistiu, ao vivo, ao nascimento do primeiro Homurikai.

O nome veio dela.

Desde aquele dia, qualquer criatura gerada a partir do colapso de um Conduit passou a ser chamada de Homurikai. Em todos os países, em todos os idiomas.

O que antes era visto como evolução revelou sua verdadeira natureza.

Não era um milagre.

Era um risco.

Se um Conduit podia se transformar em algo assim, então todos os outros também podiam.

O medo se espalhou rapidamente. E com o medo, vieram as decisões extremas.

Agências começaram a ser criadas ao redor do mundo. Não apenas para combater Homurikais, mas para monitorar, treinar e controlar Cores e Conduits desde o nascimento. Crianças passaram a ser identificadas ainda no útero, por meio de testes de reatividade energética.

Seus destinos eram definidos antes mesmo de nascerem.

Com o tempo, surgiu a figura do Vanguard: a união de um Core e um Conduit. Um estabiliza. O outro canaliza. Juntos, enfrentam aquilo que a humanidade despertou.

Mas nem todos eram vistos da mesma forma.

Os Cores passaram a ser tratados como heróis.
Os Conduits, como riscos ambulantes.

Afinal, quando um Conduit perde o controle, o resultado não é apenas uma falha.

É um Homurikai.

Desde então, o mundo não voltou ao normal.

Ele se adaptou.

A sociedade aprendeu a conviver com monstros, armas vivas e crianças treinadas para lutar antes mesmo de entenderem o porquê.

Treze anos depois da primeira aparição, uma coisa ficou clara:

A humanidade não estava evoluindo.

Ela estava apenas tentando sobreviver ao que havia despertado.

HomurikaiStories to obsess over. Discover now