Pilot

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  Na minha bicicleta cor branco sujo, olho em todas as direções possíveis. Estou no meio das ruas de Amsterdão, são bonitas, cheias de cor. Mas não consigo deixar de reparar nos sorrisos falsos que as preenchem.

  Não no meu. Estar aqui é a melhor coisa que me poderia ter acontecido.

  Reparo, sim, naqueles que me rodeiam. Pessoas tristes e cansadas que, não sei como, conseguem esconder-se por detrás destas máscaras. Já fui uma delas, sei como se sentem.

  A sorte e a felicidade, ou a falta delas, penso muito nisso. Sempre exerceram uma influência profunda nas nossas vidas. Muitos de nós somos vítimas da crueldade do destino, onde a sorte parece estar sempre contra nós. Vivemos a vida nesta posição desvantajosa. Num buraco que cada vez vai ficando mais fundo e fundo, até que deixamos de conseguir ver um raio que seja de luz. Torna-se a nossa única realidade: a escuridão. Sentimo-nos como se estivéssemos presos num ciclo interminável de fracasso e decepção, onde cada tentativa de encontrar a felicidade é frustrada pela mão implacável do destino.

  Já aqueles que são abençoados com a sorte e a felicidade, parecem ter a vida facilitada. As estradas que percorrem são pavimentadas com oportunidades e sucesso, enquanto o resto de nós luta por meras migalhas. Estas pessoas aparentemente vivem num mundo diferente, onde os desafios são mínimos e os sorrisos são abundantes. É difícil não sentir inveja e ressentimento em relação a elas, pois a sorte é algo que está além de nosso controlo, algo que simplesmente não podemos conquistar. Apenas acontece.

  Lembro-me da minha professora de filosofia falar nisso. Costumava dizer que algumas pessoas nasciam com dotes naturais, uma sorte intrínseca. Por exemplo, aqueles que eram simplesmente bons cantores naturalmente, sem qualquer esforço. Questionava-nos se podíamos ou não atribuir mérito a estas pessoas. Toda a turma concordava que não, exceto eu. Nunca entendi muito bem o porquê. Talvez porque eu era uma dessas pessoas, ou talvez porque o queria ser. 

  Desde esse momento que costumo pensar muito na sorte. Principalmente hoje, tendo em conta que, ainda há apenas 13 horas, acabara de receber o e-mail com a proposta de trabalho mais importante de toda a minha vida. Aceitá-la, poderá, no entanto, ser considerada a ideia mais imprudente que eu alguma vez tive. Penso que dependerá a quem perguntar, se ao meu pai, ou a mim. Ou à minha família, que provavelmente não volta a dirigir-me a palavra nos próximos dez anos.

  Façam por me entender, eu tinha duas opções: ou ficava em casa, naquela pequena terra inglesa, onde nunca iria evoluir profissionalmente e todos os meus rendimentos serviriam para sustentar aqueles que já o deveriam saber fazer sozinhos; ou aceitar a proposta, e fugir.

  Obviamente, escolhi fugir. Afinal de contas, por que razão ficaria lá? Não aguentava mais ver os meus pais destruírem as suas próprias vidas uma e outra vez. Será egoísta de mim deixá-los naquela situação precária? Será egoísta de mim tentar ter um futuro, impedindo que eles tenham um?

  A verdade é que, mesmo antes da adorada Anastasia Madlock ter nascido, já o futuro deles tinha morrido. O vício começou muito antes de mim. Se houve algo que eu fiz, definitivamente não foi arruinar o futuro deles. Afinal, não podes arruinar o que já está arruinado.

  Todo o meu esforço para que pudéssemos ser uma família normal, fora em vão. Estava apenas a ser engolida pelo fracasso dos meus pais, e nem me apercebera. No entanto, agora sei que se eu ficasse, só seria arrastada para a mísera vida que levavam ao longo dos últimos vinte anos.

  Por isso, não. Não acho que esteja a ser egoísta ao fazer o que é melhor para mim.

  Desatenta ao mundo à minha volta, e com a mente ocupada com dilemas pessoais, não o vi chegar. Num instante, os nossos caminhos colidiram e, antes que pudesse reagir, ele embateu contra mim, numa bicicleta, abruptamente, quase causando um acidente. Frustração e um pouco de pânico encheram-me quando apercebi-me da situação embaraçosa em que me encontrava.

  "Olha por onde vais!" O ciclista disparou, antes que me pudesse desculpar, virando-se para mim. O seu olhar penetrante refletia uma mistura de irritação e superioridade. Emergia um fato preto acinzentado com aspecto exorbitante.

  "Est-Estou perdida. Não foi minha intenção..." foi tudo o que consegui dizer, gaguejei, acho que estava nervosa, sentia-me um tanto intimidada pela sua presença. Era um homem alto e musculado, definitivamente atraente. Nunca fui boa no que diz respeito a homens, e para ser honesta nunca me senti confortável sob a presença de um. Mas antes de conseguir terminar a frase, o ciclista interrompeu-me.

  "Não é problema meu, resolve sozinha", retorquiu ele com desdém e, com isso, acelerou. Era de esperar que os mais atraentes carecessem de gentileza.

  "Espero nunca mais te ver!" gritei atrás dele, mas não me deu atenção. Então, mostrei-lhe o dedo do meio. É errado? Talvez. É satisfatório? Bastante. 

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