Cidade: Derry
Data: 21 de dezembro
Horário: 16:42
A chuva caía forte naquele fim de tarde, grossa e barulhenta, batendo contra os galhos das árvores que ficavam sobre o clube, como se quisesse entrar também.
O lugar cheirava a terra molhada e cigarro. Eles já tinham tentado fazer Beverly parar de fumar ali dentro, mas nunca funcionava.
A chuva tinha impedido o resto dos otários de chegar até o clube naquele dia — mas não foi o suficiente para afastar dois deles.
Bill estava sentado no chão, com as costas apoiadas no sofá e as pernas esticadas à frente. Stanley estava ao seu lado. A camiseta de Bill estava tão molhada quanto a de Stanley, e os cabelos de ambos permaneciam levemente úmidos.
— Parece que faz um século — Stanley comentou, quebrando o silêncio.
— O quê? — Bill perguntou, meio distraído.
— As coisas que a gente fez nesse último mês — Stanley respondeu, agora olhando para ele.
— A pedreira? — Bill perguntou, formando um pequeno sorriso nos lábios.
— A pedreira — Stanley confirmou. — Ainda não acredito que a gente pulou naquela água gelada.
Eles começaram a lembrar de tudo quase sem perceber. Da tarde em que todos foram nadar, das risadas altas, de Richie fazendo piadas impróprias como sempre.
Da noite de cinema improvisada no quarto de Stanley, com filmes de terror ruins e cobertores que fediam a cigarro por culpa da Beverly.
Do jogo de verdade ou desafio, que tinha saído completamente do controle.
— R-Richie comendo todas aquelas pimentas — Bill comentou, rindo baixo.
— Eddie bebendo aquela água misturada com mostarda e ketchup — Stanley completou. — Achei que ele fosse recusar.
— E você… — Bill hesitou, lembrando da cena. — C-Correndo só de cueca naquela chuva.
Stanley suspirou.
— Fiquei doente por uma semana inteira por causa disso.
— V-Você não precisava ter aceitado — Bill murmurou.
— Precisava, sim — Stanley respondeu, dando de ombros. — Todo mundo tinha cumprido os desafios.
O som da chuva aumentou, quase abafando o resto da conversa. Um trovão ecoou à distância.
Stanley se mexeu, aproximando-se mais de Bill, até acabar deitando a cabeça em seu colo, como se fosse a coisa mais natural do mundo.
Bill ficou tenso por um segundo… e depois relaxou. Seus dedos se moveram devagar, quase sem pensar, tocando de leve os cabelos de Stanley.
— Lembra do beijo da Beverly e do Ben?
— Stanley murmurou.
— L-Lembro — Bill respondeu. — O Richie não parou de zoar eles depois disso.
O silêncio voltou, mas era confortável. Diferente. Ali, com a chuva caindo lá fora e o mundo parecendo distante, eles começaram a se lembrar das coisas que só os dois tinham vivido.
Caminhadas rápidas depois da escola. Conversas baixas quando os outros estavam ocupados demais. Momentos pequenos, mas importantes.
Stanley fechou os olhos.
— Às vezes parece que… — ele parou, respirando fundo. — Que esses momentos passam rápido demais.
Bill engoliu em seco, olhando para o teto do clube.
— É — foi tudo o que conseguiu dizer.
Depois de um tempo em silêncio, Stanley finalmente encontrou coragem para dizer algo que guardava para si havia muito tempo.
— Bill… — chamou, enquanto o amigo ainda encarava o teto.
— S-Sim? — Bill respondeu, olhando para baixo e vendo Stanley ainda com a cabeça em seu colo.
Só então Bill percebeu que sua mão ainda estava nos cabelos de Stanley.
— Eu estou guardando uma coisa há muito tempo — Stanley hesitou por alguns segundos. — Mas eu não consigo mais.
— P-Pode me falar, Stan. Eu te ajudo no que for preciso — Bill disse, vendo o amigo se levantar de seu colo e sentar à sua frente.
— Eu estou gostando muito de uma pessoa — Stanley começou. — Sempre que eu me aproximo dela, meu coração bate muito mais forte. Parece que vai sair do meu peito. — Os meus melhores dias são aqueles em que eu fico perto dela.
Bill sentiu algo estranho no peito. Ouvir seu melhor amigo falar tão bem de alguém causou um desconforto que ele não soube explicar.
Talvez fosse ciúmes?
Mas isso não fazia sentido.
Por que ele sentiria ciúmes do próprio melhor amigo?
— Mas eu acho que não tenho chances com essa pessoa — Stanley disse, olhando para o chão.
— C-Claro que tem, Stan. Você é perfeito. Ninguém te recusaria — Bill respondeu, levando a mão ao queixo do amigo e erguendo seu rosto, fazendo-o encarar seus olhos.
— Bill… essa pessoa é você — Stanley falou em um tom mais baixo do que o normal, mas ainda assim alto o suficiente para Bill ouvir.
— O quê? — Bill perguntou, encarando Stanley, completamente em choque.
— Não era pra eu ter falado… eu não devia ter falado — Stanley disse, levantando-se rápido e correndo em direção às escadas.
Bill não conseguiu impedi-lo.
Ficou parado, imóvel, enquanto aquela informação ecoava em sua mente.
Stanley tinha acabado de confessar algo que Bill não estava preparado para ouvir.
_________________________________________
Espero que você gostem dessa nova fanfic, já que a fanfic de Welcome to derry está chegando nos seus últimos capítulos
Se vocês puderem votar iria me ajudar muito, e deixem bastante comentários porque eu iria amar respondê-lo
YOU ARE READING
Coisas Não Ditas (It: a coisa)
FanfictionSete amigos. Um dezembro que mudou tudo. Entre amores escondidos, despedidas forçadas e um ano inteiro de silêncio, eles descobrem que algumas palavras, quando não são ditas a tempo, nunca deixam de doer.
