Capítulo 1

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Quando passei pelos novos portões da vila, puxei o ar fundo. Minhas costas doíam, a panturrilha protestava, e a bandagem nas costelas latejava sob o colete.
— Finalmente... — murmurei para mim mesma.

Kiba esticou os braços, tão exausto quanto eu.
— Missão curta, disseram. — reclamou, chutando pedrinhas. Akamaru latiu, igualmente indignado.
Hinata, apesar do cansaço, sorriu com doçura.
— O importante é que completamos. E estamos de volta.

Devolvi o sorriso, mas meus olhos imediatamente varreram a vila.

Logo nos separamos. Kiba queria comer qualquer coisa que encontrasse pela frente, Hinata precisava procurar a equipe médica... e eu queria... casa? Banho? Cama? Comer? Falar com a Hokage?

Não sabia direito. Só caminhei.

Meus passos me levaram ao campo onde o Time 10 costumava treinar. Talvez fosse só costume. Talvez fosse saudade. Talvez porque, depois de dias longe, eu quisesse ver algo que me fizesse sentir que a vila ainda era lar.

As árvores do bosque pareciam mais ralas depois da batalha contra Pain. Galhos queimados, marcas profundas no chão. Mas ali estava ele, sentado no topo de uma das cercas de madeira, o corpo relaxado, as mãos entrelaçadas atrás da cabeça, encarando o céu como se fosse uma tarefa ridiculamente exaustiva.

Shikamaru.

Ele virou o rosto quando sentiu minha presença, como sempre fazia desde crianças, como se os sentidos dele tivessem aprendido o jeito específico de eu me aproximar.

— Hm. — Ele franziu levemente o cenho. — Você voltou antes do previsto.

Bufei, apoiando a mão no quadril com um sorriso cansado.
— E você continua com essa recepção calorosa.

Ele deu apenas metade de um sorriso. O típico.
— Missões são um saco. Mas você já sabe disso.

Caminhei até ele, devagar, sentindo meu corpo reclamar a cada passo.
— Como está tudo por aqui?

— Chato. — Ele coçou o pescoço. — Reconstrução, patrulhas, reuniões...
Uma pausa. Seus olhos me examinaram com calma.
— Você tá mancando.

— Não tô. — menti imediatamente.

— Tá sim. — Ele pulou da cerca, pousando ao meu lado. — De zero a Chouji tentando esconder que comeu meus chips, você tá em nível "Chouji com farelo na camisa".

Ri, uma gargalhadinha curta, quase culposa.
— Não é nada sério. Só uma torção.

Ele soltou um "tsc" baixo, aquele som típico dele entre irritação e preocupação.
— Você sempre fala isso quando se machuca.

Ergui o queixo, defensiva.
— Você não é médico, Shikamaru.

— Mas eu tenho olhos. — disse ele, dando de ombros. — E te conheço desde quando você chorava porque a Ino pegou seu doce favorito.

Suspirei.
— Eu vou ver a Sakura depois de fazer o relatório da missão para a senhora Tsunade.

— Eu vou com você. — afirmou simplesmente.

Arregalei os olhos.
— Não precisa.

— Precisa sim. — rebateu. — E eu também tenho que falar com a Hokage.

Cruzei os braços.
— Sobre o quê?

— Tenho ganhado muitas responsabilidades ultimamente — disse, vagamente, suspirando.

Ele esfregou a testa com dois dedos, como se a própria existência fosse cansativa.
— Asuma dizia que eu precisava aprender a lidar com pressão... — deu um meio sorriso sem humor. — Acho que o universo levou isso como um desafio pessoal.

Entre Sombras e FloresWhere stories live. Discover now