O salão de jantar do navio tremia levemente com o ritmo do mar, mas o ambiente estava carregado de calma. O tilintar dos talheres, o perfume das travessas fumegantes e o som delicado de um piano preenchiam o espaço como se fosse um quadro perfeito de férias. Os risos de crianças misturavam-se com conversas abafadas e um ou outro brinde ao fundo.
No entanto, a serenidade acabou de repente. Tal e qual o mundo.
Uma enfermeira surgiu à entrada do salão. O uniforme branco estava encharcado de vermelho. O sangue escorria-lhe do pescoço como uma cascata macabra, pingando pelo chão em cada passo vacilante. Ela tentava falar, mas da garganta escapava apenas um gorgolejar húmido, como se as cordas vocais estivessem rasgadas. Cambaleou até ao centro da sala, os olhos fixos em nada, e tombou de joelhos. A cabeça bateu contra o chão com um som forte. O corpo ficou inerte.
O silêncio foi absoluto durante um segundo.
Até que um grito atravessou o salão.
Todos se ergueram, instintivamente. O jovem levantou-se também, acompanhado da mãe e do pai, ainda com o guardanapo preso ao colo. O coração batia-lhe forte, mas o instinto de sair dali falava mais alto.
Foi nesse momento que outro homem surgiu pela mesma porta. O rosto estava manchado de sangue, os olhos vidrados, o corpo a tremer como se fossem espasmos involuntários. Era o passageiro que de manhã tinha sido levado para a enfermaria por estar "maldisposto". Agora, regressava transformado.
Cambaleou até à primeira mesa. Uma senhora com jóias brilhantes ergueu a mão, espanhola, e gritou:
— ¡Ew! ¡Apártese, por favor! ¡Apártese!
O homem avançou como se não tivesse ouvido. Cravou os dentes na mão dela sem hesitar. Arrancou-lhe dois dedos de uma só vez. O sangue jorrou pelo ar. O grito dela ecoou pelo convés como uma lâmina.
— Dios! — berrou o marido, erguendo-se de imediato para empurrar o agressor.
O choque foi brutal. Os dois homens caíram sobre a mesa, pratos e copos a voarem pelo chão. O atacante não largou. Abocanhou agora o pescoço do marido, mordendo até o osso. Os berros eram sobrepostos pelo choro, pelo som de cadeiras a cair e de gente a correr em todas as direções.
Pânico.
Vidros partidos. Louça a estilhaçar.
As pessoas fugiam em massa, empurrando-se, tropeçando umas nas outras. O jovem apertou o braço da mãe, ouvindo o pai gritar o nome dela para que o seguisse. Tentavam encontrar uma saída.
E então, mais dois surgiram. Dois corpos baços, de olhos vazios, que invadiram o salão como predadores silenciosos. Avançavam cambaleantes, mas com um instinto certeiro: seguir o cheiro, seguir o som.
Um homem tropeçou à frente deles. Os gritos aumentaram.
O jovem ouviu, pela primeira vez, o berro desesperado da sua mãe. O pai puxava-a, os dois em pânico.
Olhou em volta. Não havia saída. O salão estava cercado. O navio era uma armadilha.
Mas, pela janela alta, conseguiu ver a costa. Ao fundo. A linha irregular de areia. Estavam perto da costa portuguesa.
O coração dele afundou-se com medo. Estava demasiado longe. A água escura parecia interminável. Mas ficar ali era ser mordido por eles.
Agarrou a mão do pai e da mãe e gritou com todas as forças que tinha:
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The Walking Dead: Last Hope II
Mystery / ThrillerEntre ruínas de cidades e vilas e ruas infestadas de ressuscitados, três jovens terão de enfrentar o colapso da civilização e tomar decisões impossíveis para sobreviver.
