𝐁𝐨𝐫𝐫𝐚𝐬𝐜𝐚 - capítulo 1

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          Acordo.
          Minha cabeça latejava como uma ferida aberta, pulsando loucamente como se fosse explodir a qualquer momento, meu maxilar doía por não ter colocado a contenção para dormir e minha boca estava seca, tateio minha cama em busca do travesseiro que usava entre as pernas por sempre ter odiado dormir com os joelhos encostando e então lembro. Meu coração se agita e o gosto azedo de bile preenche minha boca a fazendo arder, engulo.

          Me sento na cama e massageio as têmporas usando os polegares, estava tremendo de frio, ainda me lembro do dia de ontem, era impossível esquecer, aquela cena iria me atormentar por muito tempo, ver o corpo da garota mais popular da cidade embalado em plástico na orla oeste de mørkhein em um domingo de manhã não é algo que você planeja, ainda me lembro do rosto pálido azul, a boca entreaberta com os lábios roxos, provavelmente após ter dado seu último suspiro, os olhos abertos cobertos de areia e o cabelo desarrumado.

          O gosto azedo volta, seguro mais uma vez. Lilian havia sido morta, assassinada, e eu havia descoberto o corpo, era estranho, parecia errado, claro, a situação não era certa portanto era errada, mas era estranho. Eu já estava acostumada a lidar com esse tipo de coisa, tanto por ser filha do xerife como por de dois em dois anos algum assassinato acontecer na cidade, uma cidade tão pacata como mørkhein, não era de se esperar, ou talvez fosse, o clima frio assim como as pessoas, os prédios estilo soviéticos e o alto índice de fumantes e alcoólatras por metro quadrado não era assim tão agradável, não era uma cidade agradável, mas claramente não era Gotham city.

          Meu celular toca, olho para a tela e me irrito com o som que a vibração faz sobre a madeira, era cooper, provavelmente queria saber se eu estava bem após tudo o que tinha acontecido.
Estendo a mão e pego o celular, atendo.

          — alô — a voz de cooper era tensa porém controlada.

          — cooper... — digo ainda sonolenta.
Escuto um suspiro aliviado do outro lado da linha. — você está bem?

          — sim. — respondo, de certa forma estava bem, fisicamente bem, embora ainda não conseguisse me livrar daquela imagem queimada no fundo do meu cérebro.

         Ele fica em silêncio por alguns segundos. — eu tô preocupado... — era a primeira vez que eu ouvia ele falar algo assim. — você a viu?

          — sim. — não consigo falar nada além disso.

          — que merda cara.

          — não vi muito. — minto, as palavras saem desconexas tentando fazer sentido.

          — se quiser eu posso te comprar um pedaço de torta... — ele era tão bom em demonstrar carinho e preocupação mas tentava.

          — tá.

          — bom..., só queria checar mesmo, sinto que não quer conversar sobre, mande abraços ao seu pai.

          Desligo o celular, cooper era um bom garoto, por mais que não parecesse, ele se importava, éramos amigos desde que nasci, a mãe dele cuidava de mim como se fosse a minha, suspeito até que ela e meu pai haviam tudo um caso mas nunca me importei em ir atrás de saber, éramos amigos a muito tempo então decidimos não tocar no assunto.

          Levantei da cama, minha visão ficou escura por alguns segundos, segurei no criado mudo até me estabilizar, fecho os olhos com força e então abro, escuto a voz do meu pai me chamando no andar debaixo, caminho até a porta, pego um grande roupão peludo e me cubro, mørkhein sempre foi uma cidade fria, mas o clima parecia mais mórbido que nunca, ou talvez fosse a casa de madeira com alicerces de seixos, totalmente o oposto do resto da cidade, talvez os imigrantes russos que construíram 80% dos prédios da cidade soubessem melhor sobre isolamento térmico do que seja lá quem fosse que construiu essa casa — provavelmente um norte americano.

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⏰ Última atualização: Oct 26, 2025 ⏰

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