O silêncio que restou

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A casa era um túmulo de memórias felizes.

Cada objeto cantava uma canção de ausência. O sofá, onde três corpos se entrelaçavam em noites de filme, agora parecia vasto e vazio demais para apenas dois. A mesinha ainda tinha, embaixo de uma perna, um livrinho de colorir espesso usado para nivelar o móvel. Ninguém teve coragem de tirar dali. No ar, um silêncio pesado e opressor havia substituído as risadas altas e os passinhos desajeitados que ecoavam pelos corredores.

Jaemin.

Seu nome era um suspiro, uma prece, uma facada no peito de quem o pronunciava.

Jungkook estava parado na porta do quarto que não era mais um quarto, e sim um santuário proibido. A porta estava entreaberta, e ele podia ver Jimin lá dentro, sentado no chão, imóvel. Segurava um ursinho de pelúcia marrom, surrado e amado, contra seu peito. O urso era pequeno demais para preencher o vazio que Jaemin deixou.

Era assim há quase três meses. Setenta e oito dias desde que a vida deles desmoronou em um segundo, em uma curva molhada, em um motorista bêbado, em uma cadeirinha que não foi o suficiente.

Jungkook se lembrou daquele dia com uma clareza dolorosa. A ligação. A corrida desesperada para o hospital. A sala de espera silenciosa, onde o tempo se esticou em uma eternidade de agonia. O médico saindo da sala de cirurgia, com os ombros curvados e os olhos cheios de um pesar que já dizia tudo antes mesmo de qualquer palavra. Jimin desmoronando, um grito abafado contra o peito de Jungkook, um som que não era humano, saído de um lugar tão profundo e dilacerado que Jungkook jurou que parte dele tinha morrido ali também.

A partir daquele momento, o mundo perdeu todas as suas cores.

Jimin, seu Jimin radiante, que iluminava salas inteiras com seu sorriso, tornou-se uma sombra. Seus olhos, antes cheios de estrelas e travessuras, agora eram dois poços profundos e escuros de uma dor inexprimível. Ele não chorava mais. As lágrimas pareciam ter secado na fonte, deixando para trás apenas um deserto árido de tristeza. Ele passava horas no quarto de Jaemin, cheirando suas roupinhas, observando as fotos no mural, encolhido no tapete como se quisesse desaparecer dentro daqueles vestígios de felicidade.

Jungkook entrou no quarto, seus passos quase inaudíveis no carpete fofo.

— Jimin-ah - sua voz saiu rouca, pouco usada nos últimos tempos.

Jimin não se moveu. Seus dedos pálidos acariciavam a orelha desgastada do ursinho.

— Precisamos comer alguma coisa - Jungkook disse, a frase soando oca e ridícula diante da magnitude daquela perda. Comer? Respirar era um esforço gigantesco.

— Ele chamava esse urso de Bammie - Jimin sussurrou, sua voz tão fraca que Jungkook precisou se aproximar para ouvir. — Porque ele achava que era de 'bam', noite. E dormia com ele todas as noites.

Jungkook engoliu em seco. A dor era física, um nó de aço farpado em sua garganta, apertando seu peito.

— Eu sei - ele respondeu, sua voz quebrada.

Ele se ajoelhou ao lado de Jimin, mas não o tocou. O toque, que antes era sua linguagem primária, agora era complexo. Às vezes, Jimin se encolhia. Outras, Jungkook sentia que se tocasse em alguém, sua própria pele iria rachar.

— Ele cantarolava na hora de dormir - Jimin continuou, falando para o urso, não para Jungkook. — Não cantava direito, mas tentava. Era a música do papai. Ele te amava tanto, Jungkook-ah. Você era o herói dele.

E eu o decepcionei, pensou Jungkook, o pensamento intrusivo e cruel surgindo como sempre. Eu não o protegi. Eu não estava lá.

Era ele quem sempre buscava Jaemin na escolinha. Naquele dia, porém, uma reunião de última hora o impediu. Jimin foi buscar. Jimin estava no carro. Jimin sobreviveu com cortes e hematomas. Jimin testemunhou tudo.

A culpa era um monstro de duas cabeças que os devorava vivos, cada um à sua maneira.

— Ele te amava mais, Jimin-ah. Você era sol do Jae - Jungkook corrigiu, sua voz embargada.

Finalmente, Jimin ergueu os olhos. Eles estavam vermelhos, mas secos. Havia um mundo de agonia naqueles olhos.

— Ele não deveria ter ido. Não era a sua hora. Ele mal viveu, Kook. Mal viveu. - A voz de Jimin trincou no final, e ele enterrou o rosto no ursinho, seu corpo todo tremendo em um silêncio ensurdecedor.

Jungkook não aguentou mais. Ele se moveu, envolvendo Jimin em seus braços. Jimin ficou rígido por um segundo, depois dissolveu-se contra ele, seu corpo magro sacudido por tremores que não eram mais choro, mas sim convulsões de pura angústia. Eles ficaram ali, no chão do quarto de seu filho, dois corações partidos tentando, e falhando, em bater como um só novamente.

— Como a gente continua? - Jimin perguntou, sua voz abafada pelo ombro de Jungkook. — Como a gente simplesmente... respira, levanta, vive? Como?

Jungkook não tinha resposta. Ele só segurava Jimin mais forte, como se fosse a única âncora em um mar revolto de desespero. Ele olhou pela janela do quarto. O céu estava cinza, compatível com o mundo deles.

E então, muito baixo, quase inaudível, Jungkook começou a cantar. Não era uma música de performance. Era uma canção que seu próprio pai costumava cantar para sua mãe. A melodia triste e eterna, que agora fazia um sentido cruel e absoluto.

"Eu sei que vou te amar
Por toda a minha vida eu vou te amar
Em cada despedida eu vou te amar
Desesperadamente..."

Sua voz falhava, quebrava, mas ele continuou. Cantou para Jimin. Cantou para Jaemin. Cantou para a dor que os consumia. Cada palavra era um prego em seu próprio coração, mas era a única verdade que lhe restava.

 Ele amaria Jimin.

 Ele amaria Jemin.

 Por toda a sua vida.

 Até depois da vida.

 Até no desespero.

"Eu sei que vou chorar
A cada ausência tua eu vou chorar
Mas cada volta tua há de apagar
O que esta ausência tua me causou..."

Jimin parou de tremer. Ele ouviu, cada palavra um bálsamo e um veneno. A "volta" que a música prometia nunca aconteceria. A ausência do filho era permanente, eterna, irrevogável. Nada apagaria aquela dor.

Quando Jungkook terminou, o silêncio que se instalou foi ainda mais profundo, carregado daquele amor desesperado e daquela perda irreparável.

Jimin se afastou lentamente. Seus olhos encontraram os de Jungkook, e pela primeira vez em semanas, Jungkook viu algo além do vazio: uma dor tão... tão crua, que era quase insuportável de se olhar.

— Ele não vai voltar, Jungkook - Jimin disse, sua voz plana, como se finalmente aceitasse a sentença. — Nossa estrela se apagou.

Jungkook não conseguiu responder. Ele apenas pegou a mão fria de Jimin e a levou aos lábios, beijando cada junta, cada dedo, num ritual mudo de devoção e desolação.

Eles eram dois fantasmas em uma casa que já foi um lar, unidos por um amor que era tão forte quanto a dor, e por uma promessa de amar mesmo na escuridão total. A pergunta de Jimin ainda pairava no ar, não respondida, não respondível:

Como a gente continua?

A única certeza era a da música: eles se amariam.

 Desesperadamente.

 Até o fim.

Eternamente vou te amar | Jjk + PjmStories to obsess over. Discover now