As nuvens acinzentadas começavam a se acumular sobre o céu de Konoha naquela tarde que morria lenta, quase relutante. Pelas ruas, moradores apressavam-se em recolher roupas dos varais, fechar portas e trancar janelas, enquanto a promessa de chuva sussurrava segredos pelos telhados.
Dentro de um bar quase vazio, Rock Lee observava Tenten pela centésima vez naquela noite. Tinham acabado de voltar de mais uma missão — bem-sucedida, diriam outros — mas para ela não havia o que celebrar. Metal Lee os esperava em casa, mas as horas se estendiam como se quisessem puni-los, e a morena não desgrudava o olhar do copo de saquê.
Era um costume que Lee já conhecia, mas não daquela forma, não tão fundo. Havia algo no jeito como os olhos dela se perdiam na superfície translúcida do álcool que o fazia entender que aquela não era uma noite qualquer. Ele vasculhou a própria memória tentando decifrar o motivo — sabia que Tenten se forçava a ser forte, erguendo muralhas que ninguém ousava escalar. Respirou fundo.
Sem aviso, afastou a garrafa de suas mãos.
— Já chega, Tenten. — Sua voz soou quase como um pedido, um lamento.
Ela soltou um resmungo baixo, tomando a garrafa de volta com a mesma facilidade com que arrancava espadas de suas bainhas. Lee suspirou, exasperado, quando avistou Hinata, Himawari e Hanabi passando pela rua, vestidas de preto, como sombras carregando lembranças. Só então se deu conta da data. O mesmo dia, todos os anos.
Era o aniversário de morte de Neji Hyuga.
— Você nunca se cansa, não é? — Lee perguntou, firme, olhando para a mulher que parecia não escutar palavra alguma. — Estamos casados há treze anos, Tenten. Quando é que vai conseguir deixá-lo partir?
A mão dele impediu que ela bebesse outro gole. Tenten ergueu os olhos, vazios, a alma soterrada em um lugar que Lee jamais alcançaria. Ele conhecia bem aquele abismo.
— Ele se foi — Lee continuou, quase em súplica. — Eu também queria que ele estivesse aqui. Mas não está. Não há nada que possamos fazer. Não podemos continuar vivendo assim... Você não entende?
Silêncio. Um silêncio que rasgava mais do que qualquer kunai.
— Somos uma família agora — ele insistiu, baixando a voz. — Eu, você, Metal Lee. Eu não posso te ver se destruindo assim. Ao menos hoje, Tenten... ao menos hoje, pode não pensar no Neji?
Mas a esperança nos olhos de Lee apenas a sufocava. Havia poucas pessoas que ainda lhe ofereciam algum alívio — e Lee não era uma delas. Ela não conseguia sequer encarar qualquer Hyuga sem sentir o peito se fechar. Todos aqueles olhos perolados... nenhum deles era o par que ela queria ver.
Tenten se ergueu, a voz quase um sopro.
— Nos vemos em casa.
A garrafa meio vazia balançava em sua mão enquanto ela saía, ignorando o chamado desesperado do marido. Não tinha um destino. Só passos. O corpo parecia mover-se por si só, enquanto o saquê queimava a garganta, aquecendo o vazio onde antes existia um coração.
A brisa fria que se ergueu quando a chuva começou trouxe consigo memórias que sangravam por dentro. Entre as nuvens, uma réstia de luz alaranjada a fez parar. Por um instante, Tenten viu o passado projetado sobre as ruas de Konoha — o pôr do sol tingindo o céu de laranja e rosa, o vento bagunçando sua franja, quase desmanchando seus coques, trazendo o cheiro dele.
— É muito bonito — dissera uma vez, sem saber que não falava do céu, mas de Neji Hyuga, com seus olhos perolados refletindo o fim de tarde.
Ele tinha entendido. Sempre entendia. Naquele tempo, Tenten ainda não sabia que nada escapava ao olhar dele. Agora sabia. E sabia também que não havia pôr do sol bonito o bastante para trazê-lo de volta.
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Magia
FanfictionBaseada na música "Magia" de Hiosaki Anos se passaram desde a última grande guerra ninja, mas para Tenten Mitsashi o tempo não teve poder algum. Mesmo casada, mesmo mãe, mesmo forte, ela permanece suspensa em um instante que nunca se apaga - o dia e...
