Capítulo 1 - Nunca soube sentir

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[Narrado por Viktor]

Eu não nasci em berço.
Nasci no chão frio de um abrigo militar, no meio da merda, do suor e da pólvora.
Nunca conheci pai. Nem mãe. Nem carinho.

Fui criado por vozes ásperas, mãos pesadas, e uma doutrina que dizia que sentir era fraqueza.
Na Clavis, não somos soldados. Somos ferramentas.

E eu fui a melhor delas.

Com quatorze anos, matei meu primeiro homem.
Com dezesseis, já liderava esquadrões de limpeza.
Com dezoito, não tinha mais nome. Só código.
V-09.
Mas todos me chamavam de cão.

Dois metros de altura. Ombros largos. Costas marcadas por treino e açoite.
Pele dura, músculos talhados em combate, sangue frio nas veias.
Um corpo feito para a guerra.
E um coração que, até pouco tempo atrás, nunca serviu pra nada.

Nunca desejei mulher alguma.
Nem amor. Nem companhia.
Sexo? Pra mim, era ruído. Algo que os outros buscavam pra esquecer a dor.
Mas eu nunca tive o que esquecer.
Porque eu nunca senti nada.

Paz, raiva, tesão, medo...
Nada.

Até ela.

---

Dois anos atrás.
Eu estava no topo de um prédio, numa cidade sendo engolida pelas chamas.
Mais uma missão. Mais um dia.

O fuzil colado ao ombro. A luneta fixada. O dedo no gatilho.
O sol rasgava o céu como uma ferida aberta. A fumaça subia das casas.

E foi no meio da poeira que ela surgiu.

Correndo. Carregando uma criança nos braços.
Cambaleando entre escombros, com os joelhos rasgados e o cabelo solto ao vento.

Ela era como um erro de cálculo no campo de guerra.
Linda demais pra aquele inferno.
Os olhos dela eram de um azul tão profundo que me fizeram esquecer que havia um alvo à frente.

Meu dedo parou no meio do movimento.
A mira travou no rosto dela.
E o mundo inteiro pareceu silenciar.

Cabelo preto, pele manchada de sangue - não o dela - e a expressão de alguém que já viu a morte... e ainda assim desafia ela.

Ela se ajoelhou. Rasgou a própria roupa pra estancar o sangue da criança.
As mãos tremiam. A boca estava ferida.
Mas ela não parava.

Eu deveria tê-la eliminado.
Era o protocolo. Ninguém fora da lista devia sair dali respirando.

Mas eu não consegui.
Eu simplesmente não consegui.

Ela olhou na direção da torre onde eu estava.
Como se me sentisse.
E naquele segundo, alguma coisa dentro de mim quebrou. Ou despertou. Ou as duas coisas.

E quando ela sumiu...
Levou o último pedaço funcional de mim com ela.

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Nunca soube o nome.
Nunca ouvi a voz.
Nunca toquei.

Mas passei dois anos vendo aquele rosto toda vez que fechava os olhos.
Ela me assombrava.

Eu voltava das missões coberto de sangue, e a imagem dela ainda estava lá. Intacta.
Limpando uma ferida. Sussurrando algo para uma criança.
O olhar dela me seguindo.

Me chamando.

Eu jurei que um dia encontraria ela.
Nem que fosse morta.
Nem que fosse por um segundo.

E então veio a nova missão.

Hospital subterrâneo. Zona de guerra.
Celas de contenção. Humanos sendo rasgados vivos por cirurgias ilegais.

A ordem era clara: aniquilação total.

Fomos designados pra limpar o bloco D. Eu entrei primeiro.

O cheiro de sangue e desespero era sufocante. As luzes piscavam. As portas se abriam com estalos secos.

Mas foi ao empurrar a última delas que meu mundo virou de cabeça pra baixo.

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Ela estava lá.

Sedada.
Frágil.
Com tubos saindo dos braços, machucados por todo o corpo.

Mas era ela.
O mesmo rosto. O mesmo azul nos olhos - mesmo fechados.
A mesma presença que me tortura há dois anos.

Meu coração parou. Literalmente.
Senti o peito queimar por dentro como se tivesse tomado um tiro.

Me aproximei em silêncio.
Ajoelhei ao lado da cama.

Estiquei a mão devagar. Quase sem coragem.
Toquei os dedos dela.

Frio. Pequeno. Quase morto.

Ela estava viva.

Ainda viva.

- Não... - murmurei. - Você não pode estar aqui. Não de novo.

Eu não sabia o nome dela.
Mas agora... ela não sairia da minha vida.

Nunca mais.

Eu não a salvei dois anos atrás.
Mas agora?
Agora eu mataria o mundo inteiro por ela.

Ajoelhei ao lado dela e sussurrei, com os olhos fixos no rosto que me fez falhar como arma e nascer como monstro:

- Eu fui feito pra matar.
Mas você?
Você foi feita pra me dominar.

Agora dorme, anjo.

Porque quando acordar...

...você vai entender que o inferno inteiro existe - só pra quem ousar te tocar.

ANJO SEDADOVerhalen om door geobsedeerd te raken. Ontdek het nu