- BLUESTONE -

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O vento assoprava acima, fazendo as poucas folhas de cor de bronze que continuavam presas aos galhos das árvores tremular

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O vento assoprava acima, fazendo as poucas folhas de cor de bronze que continuavam presas aos galhos das árvores tremular. Algumas folhas se mantiveram firmes, inabaláveis perante o poder daquela vontade invisível. Mas outras não tiveram a mesma sorte. E essas folhas submeteram-se, sendo arrastadas, chutando e gritando, pela implacável ventania. Assim como as sortudas eventualmente seriam. Cedo ou tarde, todas as folhas seriam levadas pelo vento.

Afinal, nada é eterno. Exceto, é claro, o próprio tempo.

As folhas dançaram no ar, uma última demonstração de beleza antes que abraçassem a morte, e caíram sobre o corpo de uma mulher. Seu moletom verde parecia quase desbotado sobre a luz fraca do sol, como se até mesmo ela fosse incapaz de devolver vida àquele cadáver. Manchas negras com o mais leve toque de escarlate estavam espalhadas por seu corpo, erguendo a dúvida de quanto tempo estava ali, jazida sobre as folhas secas da floresta. Suas mãos, negras como carvão, agora eram como dois candelabros esquecidos com velas curtas e derretidas. E seu rosto... seu rosto...

Com um suspiro entediado, Mia voltou sua atenção para os dois assistentes nervosos ao seu lado e, apontando ao cadáver, disse:

– Vocês fariam o favor de tirar as folhas do rosto dela? Muito obrigado.

Os dois assistentes de trajes brancos e máscara assentiram e, com certo nervosismo, se aproximaram do corpo para fazer o que lhes foi pedido. Mia ouviu o amassar das folhas e, olhando de canto de olho, viu um homem de uniforme azul parar ao seu lado. A cientista forense, entretanto, nem precisaria de ouvidos ou olhos para saber exatamente quem estava ali. Bastava o cheiro forte de cigarro, um que só poderia vir do único policial maluco o bastante para fumar durante o serviço.

– O outono pode ser tão bonito, mas tão inconveniente às vezes – disse o delegado Handler, tirando o cigarro fino da boca e soltando uma pequena nuvem de fumaça por entre os lábios. Ele então sorriu. – Não concorda, Mimi?

– É Dra. Morandi, para sua informação.

– É mesmo? – o sorriso do homem se alargou. – Pois isso não foi o que você me pediu para te chamar sábado passado.

– O relatório, por favor.

Balançando a cabeça, o policial de barba malfeita puxou um bloco de notas de dentro do bolso de sua blusa e, folheando por algumas páginas, parou para ler.

– O corpo foi encontrado por um corredor por volta das 5 da—

– Nome, idade e ocupação do corredor?

O delegado suspirou.

– Damian Collins Smith, 37 anos e bombeiro. Isso importa mesmo?

– Talvez. Afinal, a trilha Bluestone já está fechada há mais de 8 meses, não está? Por que ele teria vindo para cá de todos os lugares?

– Para reportar o corpo da própria vítima que fez com certeza não seria.

– Vai saber, existem pessoas loucas para tudo.

BluestoneWhere stories live. Discover now