Capítulo 1 - Entre Olhares e Silêncios
Eu costumava pensar que minha vida era normal.
Acordar cedo, correr para o colégio com a mochila pendurada em um ombro, dividir o lanche com Rafael no recreio, rir das piadas da Yuna nas aulas de História... Era uma rotina confortável, quase previsível.
Mas a verdade é que, no fundo, eu sempre soube que havia algo estranho em mim. Como se uma parte da minha história estivesse trancada em algum lugar, esperando o momento certo para explodir.
Naquela manhã, tudo parecia igual - o céu cinza de sempre, o café com gosto de ontem, e o som do carro velho do meu pai acelerando na rua de casa. Eu puxei o capuz do casaco e saí.
Rafael já me esperava na esquina. Alto, sorridente, com aquele jeito de quem não sabe esconder o que sente. Ele me olhou como sempre olhava - como se o mundo girasse ao meu redor.
- Pronta pra mais um dia no paraíso? - ele perguntou, me oferecendo um pedaço de pão com queijo. Peguei, rindo.
- Só se for pra fugir dele.
Seguimos andando, os passos em sincronia. Com ele, o silêncio era confortável.
Mas tudo mudava quando Yuna entrava na sala. Era como se o ar ficasse mais denso, mais elétrico. Ela tinha cabelo preto azulado, olhos que nunca revelavam tudo, e um jeito de andar que parecia esconder segredos em cada passo.
E naquele dia, algo nela estava diferente. O olhar ainda mais distante. Os dedos tamborilando na carteira. Ela nem respondeu quando eu a cumprimentei.
- Yuna? Tá tudo bem?
Ela me encarou por um segundo que pareceu eterno, depois sorriu - mas era um sorriso que não chegava aos olhos.
- Só uma noite ruim.
Naquela hora, eu não sabia. Mas aquela seria a última manhã em que tudo ainda parecia normal.
Naquela noite, eu encontraria a primeira carta.
E o primeiro segredo seria revelado.
A Carta Sem Nome
Cheguei em casa antes do pôr do sol. Minha mãe não estava. Como sempre. Era raro ela voltar antes da meia-noite. Desde que meu pai sumiu - ou fugiu, ninguém sabe - ela virou outra pessoa. Ausente. Fria. Escondida atrás de compromissos que eu não entendia.
Subi as escadas do nosso pequeno sobrado e entrei no meu quarto. Tudo estava igual. Menos uma coisa.
Um envelope preto sobre a cama.
Sem remetente. Sem meu nome. Sem nada.
Meu coração acelerou. Por um segundo, achei que fosse coisa da Yuna - ela adorava mistérios e jogos - mas algo me dizia que aquilo era diferente. Que era sério.
Me sentei com cuidado, peguei o envelope e, com os dedos tremendo, abri.
Dentro, havia uma única folha. Dobrada com precisão. Letras digitadas.
> Atena, você não está segura.
Eles estão mais próximos do que imagina.
Não confie em ninguém. Nem mesmo em quem você mais ama.
- Um velho amigo do seu pai.
Meu mundo parou.
Meu pai. Justo ele. Depois de anos em silêncio, alguém ousava mencionar seu nome - ainda que de forma indireta. Minhas mãos suavam. Me levantei como se o chão não fosse mais firme, olhei pela janela. Nada. Apenas a rua vazia.
Corri até o quintal. O portão trancado. Nenhum sinal de alguém. Voltei para dentro e tranquei todas as portas, como se isso pudesse proteger o que restava da minha sanidade.
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Em dois corações
Mystery / ThrillerAos 16 anos, Atena se vê dividida entre dois corações: Rafael, seu melhor amigo de infância - leal, protetor e apaixonado - e Yuna, a melhor amiga da escola - misteriosa, intensa e cheia de segredos. Mas o que começa como um triângulo amoroso logo s...
