Prólogo - A Herdeira da Sombra

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A tempestade soprava como um lamento antigo, uivando entre as árvores retorcidas da floresta de Varghast. Relâmpagos rasgavam o céu da Transilvânia, desenhando silhuetas cadavéricas nas nuvens, enquanto a chuva fustigava os vitrais já trincados da imensa Mansão Vespermoor.

No alto de uma colina coberta por névoa perpétua, a mansão se erguia como um santuário gótico de um tempo esquecido — suas torres de pedra negra, suas janelas ogivais como olhos de um gigante adormecido, e um portão de ferro forjado coberto de hera seca, que há muito tempo deixara de ser aberto para visitantes.

Na torre leste, entre sombras que sussurravam nomes de ancestrais mortos, Morgana Vespermoor contemplava a escuridão. Seus olhos, cor de ametista noturna, refletiam as chamas oscilantes das velas espalhadas por seu ateliê. Em meio a telas cobertas por figuras distorcidas e pincéis embebidos em tintas quase carmesim, ela sentia o chamado. Um peso em seu sangue. Uma presença nos corredores de sua memória.

Era ali que os véus começavam a se rasgar.

Tinha vinte e três anos e carregava uma linhagem que pesava mais que qualquer nome nobre: filha de Lysandra Vespermoor, a última guardiã do Grimório das Duas Luas, e neta de Seraphine, conhecida nos murmúrios ocultos da Transilvânia como a Sombra de Vespera.

As paredes da mansão sussurravam segredos desde sua infância — sussurros que só se intensificaram desde que completara vinte e um anos, idade em que, segundo sua avó, o sangue Vespermoor "se alinha com o véu". Era também o dia em que começara a sonhar com ele — o homem de olhos cor de tempestade e voz como cordas de um violoncelo em ruínas: Damien Dusk.

Ela não sabia se ele era uma lembrança, um presságio, ou apenas uma invenção de sua alma faminta por algo que transcendesse a solidão da arte e do luto.

Mas naquela noite, quando relâmpagos iluminaram o céu e uma batida ecoou na porta principal da mansão pela primeira vez em anos, Morgana soube que tudo começaria ali. A queda. A descoberta. A revelação.

Desceu os degraus envolta em um robe de veludo negro, os pés descalços tocando o chão de pedra fria, guiada pela sensação estranha de já ter vivido aquele momento — como um eco do futuro. Abriu o portão interno com as mãos trêmulas.

E ele estava lá.

Encharcado de chuva, com os cabelos escuros colados à pele pálida, e os olhos — inconfundíveis — como trovões encapsulados. Damien Dusk. Como em seus sonhos. Como nas pinturas que jamais mostrara a ninguém.

“Você não me conhece ainda, Morgana,” ele disse, com a voz baixa e marcada por algo antigo. “Mas você me chamou. E eu vim.”

Ao fundo, os relâmpagos iluminaram o saguão como uma catedral profana. E quando ele cruzou o limiar da Mansão Vespermoor, algo se quebrou no mundo. Um selo invisível, uma profecia esquecida, uma partitura silenciosa que agora ansiava por ser ouvida.

Naquela noite, arte e escuridão começaram a dançar.
E o véu, lentamente, começou a se rasgar.

Onde o Véu se RasgaStories to obsess over. Discover now