A Chapada Diamantina ergue-se imponente e intocada quase no coração geográfico do Brasil, com suas enormes formações rochosas de topo reto, que fazem do lugar um cenário paradisíaco e único no mundo. As estruturas de milhões a bilhões de anos e mais histórias e lendas do que qualquer um seria capaz de contar em uma vida inteira, resistiram ao tempo e à exploração humana. A mata mantém-se intocada na sua maior parte e as vilas e pequenas cidades que crescem lentamente e se espalham pelos vales da região fazem daquela parte do país uma amostra grátis do Paraíso. Pássaros cantavam uma canção constante, fosse de dia ou de noite e o vento soprava suave, quase como uma brisa, reconfortante e apaziguadora. O local é um símbolo de paz e serenidade mas ao mesmo tempo carrega um ar de aventura e desafios com suas montanhas e trilhas íngremes e selvagens. Qualquer um que visite o local consegue perceber o equilíbrio quase perfeito entre natureza e civilização. A região recebe milhões de turistas anualmente, e uma das cidades mais visitadas, Lençóis, é só mais um assentamento nesse pedaço de paraíso na Terra.
O ônibus que levava os turistas até a cidade chegou mais cedo do que o previsto naquela manhã, pela única estrada que conecta Lençóis ao resto do país. O Sol já brilhava forte no céu de Novembro, lançando luz sobre as pedras ocres e a mata verde, iluminando as casas simples e históricas da cidade e trazendo um agradável calor de final de primavera. A Chapada Diamantina foi palco da exploração de diamantes e metais preciosos durante o período colonial brasileiro, o que justificava o nome da região, e ainda assim, para Heitor Almeida, que descia do ônibus recém chegado na cidade, a Chapada mantinha-se como um diamante bruto em meio a um mundo lapidado e artificial. E mesmo assim, a paz que o local emana foi incapaz de acalmar o coração do rapaz.
Heitor havia sido criado no Rio de Janeiro, por seus pais, e sempre escutava as histórias que a mãe contava sobre o local onde havia nascido e crescido, o lugar que amou sua vida inteira. Ele tinha excelentes memórias das poucas vezes que havia visitado os avós na cidade durante a sua infância. Sair do Rio de Janeiro para o interior da Bahia não era tão fácil e nem tão barato, e depois que seus avós morreram, muitos anos antes, ele já não tinha mais tantos motivos para ir até Lençóis. Quando sua mãe recebeu o diagnóstico que mudou para sempre a vida dos dois, a situação tornou tudo ainda mais complicado, e quase duas décadas haviam se passado desde que o rapaz pisou ali pela última vez.
Meire Almeida recebeu o diagnóstico de câncer de mama há quase uma década atrás. Ela demorou uma semana para reunir a coragem necessária para contar para o marido e o único filho sobre a doença, mas não pode segurar por muito tempo, porque com o avanço rápido da doença ela precisaria começar o tratamento de quimioterapia e radioterapia o quanto antes. Heitor, então com seus vinte e dois anos, demonstrou seu apoio irrestrito à mãe. Afinal, aquela era a mulher que o havia criado e ele não imaginava uma forma diferente de reagir a uma notícia tão terrível quanto aquela.
"Não se preocupe, mãe.", disse Heitor, quando Meire terminou de contar para eles o que o médico da família havia lhe dito na semana anterior. "Nós vamos enfrentar essa juntos e você vai conseguir se recuperar. Eu te prometo que vou estar do seu lado o tempo inteiro." Heitor deu um abraço na mãe, que retribuiu com o calor de seus braços em volta dele enquanto tentava segurar as lágrimas que lentamente enchiam suas pálpebras. Ela era uma mulher forte e resiliente, muito mais do que Heitor conseguiu ser algum dia. Talvez fosse pelo fato de ter crescido em um local tão rochoso como a Chapada Diamantina que tivesse feito ela ser aquela rocha de resistência emocional. Mas Heitor era bem diferente, muito mais fraco e passional, e não conseguiu fazer como Meire, deixando as lágrimas rolarem com o anúncio da enfermidade.
Seu pai, Olavo, agiu bem diferente. Ele respondeu de forma fria à notícia, e quase não reagiu quando ela revelou para ele o que o médico havia dito na semana anterior, quando recebeu o resultado dos exames de rotina. No dia seguinte ao anúncio para a família, Heitor e Meire acordaram pela manhã apenas para encontrar o armário, a casa e suas vidas, sem absolutamente nada que pudesse indicar que Olavo um dia havia estado ali com eles. O homem os abandonou no meio da madrugada, enquanto ambos dormiam, sem deixar um bilhete, endereço ou pedido de desculpas pela atitude covarde que decidiu tomar. Aquilo foi quase uma sentença de morte para Meire, de certa forma, que apesar de ter passado mais de oito anos batalhando contra o destino com apenas o filho ao seu lado, nunca se recuperou do abandono do marido. Curiosamente, nem Meire e nem Heitor nunca conversaram sobre isso e viveram suas vidas daquele momento em diante da mesma forma que Olavo havia feito: como se ele nunca tivesse existido na vida dos dois. A luta deles daquele momento em diante era contra o câncer de Meire e não contra a covardia de Olavo. O abandono não passou sem deixar consequências, porém, e a crise financeira que veio com o abandono do pai tornou tudo muito mais difícil.
Quase vinte anos desde a última vez que esteve em Lençóis e mais de oito anos depois do pior período de suas vidas, Heitor percebeu o quão pouco aquele lugar havia mudado. Diferente dele mesmo, que era agora outra pessoa se comparado ao jovem menino que visitou aquela cidade da última vez, acompanhado pelos pais em uma época muito mais simples de sua vida. O lugar estava quase exatamente igual às suas lembranças, apesar da cidade ter crescido um pouco mais com o avanço do turismo na região. A natureza porém mantinha-se intocada e bela como sempre foi.
Era estranho para Heitor a ideia de se hospedar em um hotel na cidade de sua mãe. O lugar tinha relação direta com suas origens, mas ele era quase tão turista ali quanto todos os outros que desceram no mesmo ônibus que ele. Da última vez que ali esteve, havia se hospedado na casa de seus falecidos avós, mas a casa hoje deveria pertencer à outra família. O hotel era uma casa antiga, mas muito bem cuidada, aconchegante e tranquila. Ele parou no balcão da recepção, onde uma menina sorria para ele com ar de boas-vindas, esperando para fazer o check-in do rapaz. Ele pousou a mala no chão e o embrulho de panos sobre o balcão, e enquanto entregava os documentos e esperava pela chave do quarto, ele percebeu que um dos lados do embrulho de panos havia se aberto um pouco, expondo um pedaço da urna de cinzas. Ele cobriu novamente a urna e tentou impedir que as lembranças o levassem para um passado não muito distante.
O quarto em que se hospedou estava muito limpo e o cheiro de material de limpeza invadiu as narinas do rapaz assim que entrou. Era agradável saber que o quarto estava bem limpo, mas o cheiro o fazia lembrar do consultório do oncologista que tantas vezes visitou com sua mãe. Ainda assim, era melhor do que o cheiro de éter do leito final da mulher no hospital público do Rio de Janeiro, sempre cheio e agitado. Heitor colocou sua mala em um canto do quarto e a urna embrulhada sobre a cama. Depois despiu-se e seguiu para o chuveiro, tentando se limpar do suor causado pelo calor e da sensação de sujo que a longa viagem proporcionou a ele. Enquanto deixava a água refrescante cair sobre a cabeça e escorrer pelas costas, Heitor se entregou ás memórias que insistiam em voltar para sua mente.
Um ano antes de retornar a Lençóis, Heitor estava na agência de publicidade em que trabalhou pelos últimos cinco anos. Como fotógrafo da agência, sua função era produzir as imagens dos modelos que iriam ser usados nas campanhas publicitárias. O salário não era dos melhores, mas a flexibilidade de horário permitia que o rapaz cuidasse da mãe em seu tempo livre. Quando o seu telefone tocou e ele viu o nome de quem ligava, ele precisou interromper a sessão de fotos. Heitor saiu do estúdio para atender o telefone ansioso com o que iria escutar.
"Senhor Heitor Almeida?", questionou a voz do outro lado da linha. Heitor confirmou e a voz continuou. "Tenho o Doutor Fabricio Quintanilha na linha para o senhor, é uma boa hora?"
O Dr. Fabricio Quintanilha era o oncologista que estava ministrando o tratamento de sua mãe desde quando ela descobriu a doença, sete anos e meio antes desse dia. O câncer de mama estava sendo acompanhado desde então, e nos últimos dois anos uma boa recuperação havia sido alcançada. A ligação repentina do médico era estranha e quando Heitor confirmou que poderia falar e a secretária transferiu a chamada, o rapaz sentiu a tensão revirar o estômago, quase como se soubesse as palavras que escutaria em seguida.
"Sinto muito por interromper seu trabalho, senhor Heitor", disse o médico. "Os últimos exames mostraram algo que precisa ser discutido com uma certa urgência. Podemos marcar uma visita sua e de sua mãe em meu consultório amanhã?"
Heitor desligou a chamada alguns segundos após confirmar a visita para o dia seguinte. Tenso e preocupado, a sua mudança repentina de humor não passou despercebido nem mesmo para o modelo que estava fotografando antes de receber a ligação.
"Está tudo bem, Heitor?", perguntou o modelo quando o fotógrafo voltou para o estúdio, visivelmente abalado.
Heitor confirmou em silêncio e seguiu com a sessão de fotos.
Está tudo bem. Pensou Heitor, mas não conseguiu proferir as palavras em voz alta. Tem que estar.
No dia seguinte, Meire e Heitor entraram no consultório do Dr. Fabrício no horário combinado, mãe e filho em completo silêncio.
"A notícia que tenho para lhes dar não é das melhores. Os exames de imagem que fizemos na semana passada identificaram alguns nódulos novos que podem indicar uma metástase. Será necessário fazermos uma biópsia e alguns outros exames para confirmarmos o diagnóstico, mas pelo que vejo aqui, parece que a Sra. Meire desenvolveu um novo tumor."
Heitor pareceu perder o chão, sua cabeça pareceu sair de foco temporariamente e sua visão se turvou rapidamente com a notícia que acabara de receber. Tudo de novo, pensou. As memórias dos últimos anos voltaram com força total.
"Mesmo com a mastectomia que fizemos?", perguntou Meire, com a voz fraca e embargada pelo choro. "O outro seio também precisará ser removido, doutor?"
O médico a olhou profundamente, um semblante de piedade em suas feições.
"A metástase não é no seio, Meire, mas no cérebro. E pelo que vejo nas imagens, ela está tão profunda que uma cirurgia para remoção apresenta riscos elevados demais para que seja executada."
"O que isso quer dizer, doutor?", perguntou Heitor.
"Quer dizer que o melhor que podemos fazer pela sua mãe nesse momento é iniciar um tratamento paliativo."
O mundo parecia rodar ao redor do rapaz. Meire ficou em silêncio durante toda a viagem de volta para casa, e nenhum dos dois ousou falar nenhuma palavra sobre o assunto, enquanto o táxi cruzava as ruas do Rio de Janeiro. Heitor sentiu as lágrimas se acumularem no canto dos olhos, sentindo todo o peso das palavras do médico. Uma tonelada parecia estar nas costas dele naquele momento, e a única coisa que ele conseguiu fazer, foi deitar sua cabeça no colo da mãe e chorar, enquanto ela passava os dedos pelos cabelos escuros do filho.
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Paraíso Prometido
RomanceNo coração da Bahia existe um lugar que é considerado por muitos um pedaço do Paraíso, com sua natureza selvagem e paisagens deslumbrantes. Mas a viagem de Heitor para esse lugar incrível carrega um significado muito mais sombrio. Carregado apenas c...
