Antes de tudo, eles eram só dois estranhos com fome de ser amados.
Carlos, introspectivo e observador, não tinha o costume de se entregar fácil. Vinha de silêncios prolongados e feridas antigas. Preferia ouvir a prometer, preferia entender a cobrar. E ainda assim, por dentro, carregava um coração inquieto, querendo ser visto por alguém que soubesse ler além da superfície.
Dayvson, por outro lado, era excesso. Olhar magnético, presença que dominava o ambiente como uma canção que gruda no ouvido. Era daqueles que chamam atenção sem pedir licença - e se alimentam disso. Queria ser amado, sim, mas nos próprios termos. Com pressa, com intensidade, com um toque de drama. Queria fogo, mesmo sem saber lidar com queimaduras.
Eles se conheceram em uma noite qualquer, onde tudo parecia ter sabor de começo. Dayvson chegou com os olhos brilhando, cheio de "deixa rolar" e frases ensaiadas. Carlos fingiu não se afetar, mas algo nele já começava a ceder.
Os olhares se prenderam. As conversas pareceram fáceis. Os toques, inevitáveis.
Era como se o universo tivesse deixado cair uma pista: "vai ser vocês dois, e vai doer."
No início, foi quase poético.
Carlos achava que tinha encontrado alguém que enxergava suas camadas. Dayvson, por sua vez, parecia encantado com o jeito diferente de amar que Carlos oferecia - mais profundo, mais honesto, menos jogo.
Mas logo vieram os primeiros sinais.
A pressa. O medo de se comprometer. A oscilação entre querer tudo e não querer nada.
Carlos começou a se perguntar por que sempre sentia que precisava fazer mais, ser mais. E Dayvson, sempre tão certo de si, começou a se irritar com o que chamava de "intensidade demais".
"Minha cama pode tá vazia, só não mais do que você." Era a frase que resumia o abismo que começava a crescer entre eles.
O que no início foi paixão, virou cobrança.
O que antes era riso, virou silêncio.
E quando a ligação do outro não vinha, tudo parecia desmoronar.
Carlos, que nunca foi de acreditar em contos de fada, viu-se virando personagem de um deles. Só que nesse, a Pequena Sereia não tinha final feliz. E o príncipe... bom, o príncipe nunca quis dividir o trono.
Eles tentaram ignorar os sinais. Fingiram que o tempo curaria o que nem o começo conseguiu evitar.
Mas no fundo, sabiam: nem todo amor precisa durar pra ser inesquecível. E nem todo amor inesquecível vale o preço da paz.
Antes da queda, havia desejo.
Antes da dor, havia planos.
E antes da história, havia dois mundos tão diferentes tentando caber no mesmo espaço.
Mas talvez o erro tenha sido esse: querer caber onde nunca houve lugar.
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Beijudas
Teen FictionCarlos sempre foi mais silêncio do que cena, mais profundidade do que pose. Quando conheceu Dayvson - o astro do rolê alternativo, dono de olhares que brilham mais do que sentem -, acreditou ter encontrado amor. Mas o que veio foi jogo, ego, vaidade...
