Vivo nesta casa há anos, não pago eletricidade pois meus olhos há muito superaram tal necessidade, e minha alimentação se resume a ratos e insetos, embora evite aranhas, pois por mais medonhas que sejam são criaturas absolutamente interessantes, até seu modo sorrateiro de caminhar com suas imponentes e extravagantes oito patas, além do mais, elas não são tão saborosas, embora algumas espécies sejam crocantes, simplesmente não vale a pena.
Se é humilhante comer ratos e aranhas entre outros seres do tipo? Tanto quanto comer um boi, uma vaca, um cachorro, uma galinha, um pombo, são todos degradantes de alguma forma. E não, não bebo sangue humano, não por filantropia alguma, mas é difícil conseguir sem chamar atenção, e para ser honesto, nem é tão melhor que de ratos. Todas as histórias contadas por humanos costumam dizer que o sangue humano é o suprassumo do prazer vampírico, pura bobagem antropocêntrica, existe pouquíssima diferença no sabor de um rato de esgoto e de um deputado liberal.
Enfim, chega da minha dieta, vou te contar minha última mazela na eternidade. Acho que estou vivo há uns 170 anos já, ou melhor, já estou morto há uns 170 anos, décadas e mais décadas da mais perfeita solidão humana com ocasionais interrupções de alguns crentes desavisados que, pro azar deles, tinham suas crenças, ou parte delas, baseadas em mentiras. Há! Nunca tinha visto tamanha cara de surpresa quando narrei a presença do meu genitor na crucificação de Cristo, nem eles tornaram a ver rosto algum visto que se tornaram refeições, é claro, logo após uma longa aula de 24 meses, sobre a existência do inferno e que, se de fato existir, eles estariam destinados a ele, foi um longo curso de 17 mil horas, é incrível como a vampiricidade garante poderes que são capazes de aniquilar a necessidade do sono humano permitindo todos os seus efeitos colaterais terríveis.
Então, depois de algumas décadas tranquilas observando aranhas retornaram novos crentes, católicos dessa vez, investiguei mais de perto seus costumes antes de os apagarem da face da terra, eu sei, eu deveria estar enlouquecido de fome apenas pela ideia de sangue fresco, né? Outra mentira, apenas os "mais velhos" ficam um tanto caducos quando a fome ataca, mas nunca vi um outro enlouquecer e perder o controle.
O vampiro descontrolado é um mito, mas se eu fosse vivo ainda evitaria andar por ai com a jugular exposta. Sobre a casa que moro fora construída por minha família e esquecida em algum momento depois que todos tinham encontrado o abraço da morte, é claro, alguns deles eu mesmo dei fim, enquanto outros encontraram o fim pelas próprias mãos, mas isso pouco interessa no momento, vamos falar do amaldiçoado do meu primo que há de arder no inferno, o desgraçado matou o próprio pai, que cuidava muito bem da cara em que moro e agora o infeliz quer vendê-la!
Bom, já vendeu, agora devo ficar restrito as sombras e passagens secretas que foram construídas para as infames festas do clero que meu pai concedia.
Um contador patético cujo cérebro parece o de uma criança mimada balbuciando asneiras sobre ser conservador e nacionalista, uma piada de mau gosto isso sim, uma mulher loira, muito bem articulada e é possível perceber uma profunda inteligência e comparado ao marido, um homem baixo de cabelo ralo e porte físico risório, ela 'uma absoluta duque e claro, por fim a coisa que mantém esses imbecis juntos, um adolescente tão limitado quanto seu pai e tão repugnante quanto sua mãe é atraente, é fascinante algo assim existir, e mais um detalhe dessa família maravilhosa, a mulher trai esse cara, eu sentiria pena se ele não fosse tão conivente e burro. Mas não deixe que minhas palavras nem por um segundo, vou pôr um fim neles.
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Monte Araucária
VampireÉ chegada a hora de revelar os mitos e verdades sobre vampiros, acompanharemos o Barão de Araucária em sua mazela perpetrada por uma família insípida em sua mansão que ousa perturbar sua infinita solidão.
