Está mais quente do que nos outros dias.
Enquanto picoto um tomate provavelmente passado que encontrei no fundo da geladeira, me concentro em meus pensamentos tortos para não me irritar mais ainda. Além da temperatura infernal que abraça essa cidade infeliz, estar em casa é meio sufocante às vezes.
— Chegou uma caixa pra você.
A voz de Lily soa irritada, como sempre. Minha tia, mulher equilibrada e muito séria, joga um papel em cima do balcão onde estou fazendo a salada. É um recibo, mas não lembro de ter pedido nada. Não tiro os olhos do serviço em momento algum. Arqueio as sobrancelhas.
— Pra mim?
— Você nem mora mais aqui. Tem sua própria casa agora, por que não manda suas tralhas pra lá? — ela diz, saindo da cozinha.
Eu não costumo visitar muito os meus avós. Eles moram em outra parte da cidade, onde as ruas ficam vazias às sete da noite quando todos estão assistindo ao jornal. Nos falamos por telefone. Duas ou três vezes ligo para saber como estão as coisas. Vovó sempre diz o mesmo. Bem, obrigada. E ela pergunta quando vou visitá-los de novo. Eu não sei, vó. Ando meio ocupada com o trabalho. Quando na verdade, eu só quero evitar perguntas difíceis de se responder e os gritos da minha tia com aquelas duas crianças barulhentas. Uma menina, idêntica à ela, e um menino, que puxou todos os trejeitos do pai. Foram anos aguentando tudo aquilo. Eles, os pais. O pai. Um cara que não pára em casa porque seu trabalho é viajar junto de outros caras. Ele se diz rico, mas nunca vemos um centavo disso. Quando aparece, só sabe se gabar de ser um ótimo pai mesmo sem ter feito nada.
E o trabalho todo, como sempre, fica com a mãe. Por isso ela começou a ficar mais estressada e se isolou da vida social para poder dar conta dos dois fedelhos que fazem meu avô repetir umas mil vezes que eles não podem correr na sala, se não vão acabar se machucando. Nenhum dos dois o ouve. Pobre vovô. Só quer ler seus livros de história, sem barulho de gritos ou ruído algum. O entendo completamente. Às vezes só queremos estar em um silêncio absoluto, sem que nada tire nossa paz.
Ainda assim, em meio ao caos, a pequena casa onde fui criada com muito amor e carinho na maior parte do tempo ainda é meu refúgio. Mesmo que eu tenha ido morar no outro lado da cidade para evitar mais problemas de raiva. Eu e Dolly, a rottweiler dócil que caça lagartos e faz buracos no meu quintal quando tomo coragem de regar as plantas que ganhei de minha avó.
Termino de fazer a salada e arrumo tudo o que baguncei. Lavo pratos, talheres e seco as louças antes de guardá-las no armário empoeirado. É o tempo que meu avô aparece na cozinha, arrumando os óculos no rosto. Ele parece não ter dormido à noite.
— E a salada? — pergunta, apertando meus ombros.
Dou um sorriso pequeno.
— Acabei de terminar. Podemos almoçar?
— Claro. Só vou checar se as batatas estão prontas. Pode servir os pratos?
— Já fiz isso.
Ele balança a cabeça, mexendo nas panelas.
— Ótimo. Então podemos. Chame a vovó.
Deixo a cozinha em instantes. Encontro vovó nos fundos da casa, conversando com minha tia. Elas duas olham os gêmeos correndo e se empurrando em alguma brincadeira. A gata de olhos de cristal está deitada na frente das duas, tirando um cochilo. Não está tão quente no lado de fora, apesar de o sol quase nos cozinhar vivos.
— O almoço está pronto. — digo. — Onde está a caixa que chegou pra mim?
— Deixei na sala. — tia Lily diz, desinteressada e sem tirar os olhos das crianças.
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NOCTURNAL
Mystery / ThrillerUma detetive forense, de volta ao trabalho após sobreviver a uma operação desastrosa, se vê envolvida em um mistério que desafia sua sanidade após receber um presente macabro. O pacote anônimo é apenas o início de um mistério que a leva a mergulhar...
