Capítulo 1

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Janeiro de 2007.

          Eu desembrulhava minha última caixa de itens pessoais enquanto o noticiário era um ruído de fundo. Estava ocupada demais chorando pela minha própria vida nova para me importar um ridículo campeonato de Fórmula 1 ou desastres naturais.

          Havia apenas uma semana desde que deixei Forks e apostei minhas fichas em Phoenix. Toda aquela história que ouvimos quando crianças: estudar, começar uma boa faculdade, ter um bom emprego pra ter uma boa vida. Seis meses antes da formatura na Forks High School, comecei a traçar o chamado "Plano de Vida Semi-adulta da Bella", que consistia em: sair de casa, superar a falta da picape, enfiar minhas coisas numa mochila e começar a bendita faculdade na ensolarada Phoenix. 

          E ele deu certo, isso me animou muito na época... E me apavorou no dia em que tirei o último pôster dos Backstreet Boys da minha parede verde-menta.

          Charlie me apoiou nessa jornada de "ter uma graduação", já Renée... Bem, ser a única filha de uma mulher que sempre sonhou em ter uma menininha tem seus obstáculos, no aeroporto ela parecia ter sido picada por um enxame de abelhas de tão inchado que seu rosto ficou pelo oceano de lágrimas. Beau por outro lado, posso jurar que ouvi We Are The Champions saindo de seus fones de ouvido um dia antes do voo enquanto ele enrolava meus itens de vidro em plástico bolha – tudo isso pela falsa ilusão de ficar com meu quarto mediano se comparado com sua caixa de fósforo.

          A parte de embalar as tralhas foi divertido, e a de escolher um apartamento minúsculo pra mim, gastar todos os meus dólares frutos de pouco trabalho de dois anos na Newton's em móveis e eletrodomésticos, escolher roupas de cama mais bonitas na loja de departamentos patética de Forks... A parte difícil foi deixar tudo que amo pra trás.
         A picape que meus pais me deram exatamente meia-noite no meu aniversário de dezesseis anos, um rádio lilás de 1998 de três quilos que Beau achou num brechó e pensou ser conveniente me presentear - ouvir cd's era minha terapia. Os lanches no sábado à noite com Angela. Ir à Reserva e queimar a paciência dos Black nos dias de futebol americano. Estar com minha família todo santo dia...

          Me lembro de estar no avião ouvindo Breakaway da Kelly Clarkson no MP3 que Billy presenteou a mim e a Jacob três natais anteriores, e só ali derramei minha primeira de muitas lágrimas de saudade, felicidade e tristeza. O mundo adulto parecia incrível nos filmes e seriados da televisão, mas eu me sentia perdida numa cidade de gente grande e com uma mochila cheia de sonhos.


Junho de 2007.

          Voltei pra casa com os braços tomados de livros úteis e inúteis, desde Shakespeare até hq's do Homem-Aranha.

          Estava matriculada em Letras na saudosa University of Phoenix pouco mais de quatro meses. Era um bom curso aos meus olhos, e atendia minhas expectativas: poder dar aulas, trabalhar em alguma revista, escrever meus próprios livros... Quando era criança, inventava mil histórias e contava todas ela pra Renée, sempre muito mágicas e mirabolantes, a imaginação não tinha mesmo limites. Na verdade, não tem limites até hoje, mas o mundo adulto parece estar constantemente dizendo na sua cara "Ei, você! Desista de tudo agora! Sabe o que é impossível? TUDO!!!", humanos de merda. Não era algo que perdia meu tempo pensando sobre; uma coisa de cada vez. Primeiro a graduação, depois o estágio, um bom emprego e o livro, não precisava nem ser uma grande trilogia ou saga, um único livro publicado me bastava.

          Eu não tinha tanta segurança para largar os estudos por alguns dias e voltar a Forks, ainda não havia pegada o ritmo de tudo. Nem dos estudos, nem o da cidade que parece não descansar, então a saudade continuou um pouco enfiada nos bolsos e sendo saciada com longas ligações pelo telefone e e-mails.
          Mas, apesar da fase de adaptação, sentia um afeto por Phoenix, ela me proporcionava coisas diferentes da minha cidade natal como sol, poucas nuvens, calor, agitação. Era diferente, me agradava, talvez fosse um dos lugares que poderia viver toda minha vida.

Getaway CarWhere stories live. Discover now