A luz morna do sol tocava a minha pele. Não estava quente demais, não estava fraca demais. Sentia o seu aconchego exatamente igual ao de um cobertor em um dia muito frio. Sentia não só a luz mas também a brisa fraca da primavera em Phoenix. Havia o som de alguns carros na rua e de algumas crianças a brincar. Queria continuar naquela sensação. A sensação de estar em casa, acolhida. Tinha algo melhor que se sentir na redoma de seu lar? Abri os olhos para encarar a paisagem ao meu redor. Ultimamente, a melancolia e a exaustão faziam parte de mim, talvez por isso eu quisesse sentir aquele momento intensamente, com a devida atenção que eu nunca dava aos momentos da minha vida.
Estive atenta a isso nesses dias. A como não damos valor na conexão com as coisas como ver uma paisagem bonita, estar em família. Suspirei encarando o cacto na minha mão que eu havia acabado de pegar do "jardim" da minha mãe. Eu gostava de plantas... Poderia dizer que era um hobbie da minha alma idosa.
Suspirei encarando o metal pintado de vermelho da pá de jardinagem que eu segurava. A deixei de qualquer jeito em uma das mesas de madeira do quintal jurando falsamente para mim mesma que depois lavaria aquilo. Encarei mais uma vez as casas de madeira pintadas em sua maioria por tons que lembravam areia. Tinha uma vizinhança tranquila. Sorri amarelo ao lembrar que o que mais sentiria falta seria do calor. Ao mesmo tempo que eu pensava que sentiria falta de Phoenix... Não conseguia me arrepender da minha decisão de sair de casa.
—Pegou o maldito cacto? -Perguntou Mebuki em tom de deboche.
—SIM! -Respondi de forma zombeteira. Nos últimos anos, por diversos fatores eu precisei de acompanhamento psicológico com a doutora Courtney Brown. Com as sessões de terapia surgiu o diagnóstico de depressão, e o "double kill" da questão é que essa enfermidade foi causada pela ansiedade. Diagnóstico confirmado pelo neuropsiquiatra Dylan Jhonson que dava descontos em consultas para estudantes da Phoenix University.
Para as pessoas da minha idade parecia algo tão normal e justificável o surgimento dessas doenças que caracterizavam o "'mal do século" que eu não conseguia conceber o desespero da minha mãe diante do diagnostico. Ela literalmente surtou muito. Subi as escadas de madeira para pegar mais uma vez o malão verde de metal todo riscado e desce-lo de uma vez.
—Você pegou seus documentos? Pegou as calcinhas que eu comprei para você? -Gritava minha mãe da cozinha me fazendo revirar os olhos e logo rir. Algumas coisas que mães falam passam a ser engraçadas com o tempo, principalmente quando são sem noção.
—SIM MÃE! -Berrei de volta. Muitas das coisas que eu desabafava na terapia não podiam ser repassadas para a minha mãe. Algo relacionado a conduta ética. Se quer saber eu agradecia por isto porque a minha condição mental começa com a nossa relação. Encarei os coturnos marrons que usava, os escolhi porque seriam mais práticos com a mudança do clima.
—Temos uma hora e uns trinta minutos até o seu voo. Está tudo pronto? -Questionou meu padrasto.
—Temos que ir daqui há pouco! Check-in! -Ele lembrou. Até que o Iruka era um cara legal. Era um bom padrasto. Seu rosto estava como sempre calmo, enquanto ria de como a minha mãe corria com as próprias malas. Sorri em resposta a ele e fui para varanda sentar em uma das cadeiras de balanço com a mala verde entre as pernas. Na rua brincavam algumas crianças de amarelinha enquanto Charlie Allen, um pai gordinho fazia um churrasco para suas filhas no sábado. O cumprimentei com um aceno, recebi um aceno com a espátula em resposta. Ri.
O segundo motivo que não me deixava sentir remorso da minha escolha era porque eu já estava com vinte e dois anos de idade. Com as mudanças do ensino superior nos Estados Unidos, alguns de nós fomos prejudicados. Principalmente se você não é totalmente estado-unidense. Li mais uma vez a carta de aceite da Universidade de Green Leaf. Suspirei.
Ha algum tempo, se não me engano há cinco anos atrás, entrou em curso no país um novo modelo de ensino universitário. Não poderíamos mais morar nos campus e sim ir até ele apenas para as aulas, pesquisas e estudo. Depois da ultima pandemia acharam que era vantajoso economicamente dar vales aos alunos para alimentação, material, moradia e afins. Era uma ótima ajuda, mas não arcavam com as mensalidades das faculdades. Então muitos fodidos como eu, continuariam com a despesa do pagamento da faculdade. Na América do Norte as melhores faculdades eram pagas. Mesmo com uma bolsa de desconto.
Eu não conseguiria mais continuar pagando a Phoenix University com os reajustes de mensalidades então... Se eu quisesse continuar estudando em uma boa instituição, teria que ir Para Green Leaf Univesity. Era a faculdade da Vila de Konoha, ou Green Leaf se preferir onde meu pai morava. Agora também era pré-requisito que um dos pais do universitário residissem no perímetro da instituição para fornecer auxílios. Ou seja, estavam tentando manter os jovens morando por mais tempo com os pais. As pessoas estavam ficando cada vez mais idosas, tinham mais idosos que jovens então era uma forma de "incentivar" o cuidado familiar a esse grupo. Tem toda uma questão geopolítica e de políticas educacionais internas em questão.
Mebuki e Iruka saíram de casa carregando suas malas, sorriam como um casal adolescente em um primeiro encontro. Ela ajeitou um boné na cabeça de Iruka. Ele era representante de uma empresa de cosméticos e vivia em conferências, viajava o mundo todo. Então eis aqui o meu terceiro motivo... Minha mãe sempre sonhou em ir a todas as viagens mas soube há um tempo que ela se forçava a ficar comigo. Principalmente depois do diagnóstico de depressão então... É. Eu sou uma adulta, poderia até não morar com o meu pai mas ganhamos descontos por estas políticas. Por isso eu não conseguia me arrepender, não diante do sorriso genuíno que ela dava a ele, sorri observando os dois. Ela cuidou bem de mim até aqui e merecia ser feliz, passar esse tempo na vila com o meu pai vai ser uma coisa boa... Eu acho.
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Into The Woods
Ficción GeneralUm arrepio frio e gelado iniciado na nuca. Essa era uma das coisas mais comuns a serem sentidas ao pisar em Leaf Village, Washington. Poderiam dizer que era pelo frio e chuvas intensas. Quem fosse mais supersticioso, diria que era por causa das lend...
