"a dancer dies twice - once when they stop dancing, and this first death is the more painful"
- Martha Graham
Eu sabia, acho que na verdade eu sempre soube que esse momento chegaria, mas nunca foi tão assustador quanto agora, acho que por justamente estar tão próximo. Minha ansiedade não faz um bom trabalho no quesito conforto, e muito menos minhas inseguranças ao me aconselhar. E nunca tive tanto medo de me olhar no espelho, porque como em qualquer clichê, me tornei aquilo não que abominava mas dessa vez o que mais temia, a pessoa que conta o sonho de uma juventude eterna como parte do seu passado, os vinte oito, mesmo ainda não sendo sua idade atual como seu presente e onde o meu tempo nunca vai chegar, ou melhor, sinto que perdi o momento de encontrá-lo*.
E agora ele está distante, me sinto uma telespectadora da minha própria vida. Onde tudo passa e eu apenas assisto por uma janela minúscula, fechada dentro de um lugar quase claustrofóbico, não trancada a porta não precisa mais disso para me impedir de sair, já que durante todos os anos de sua construção teve os mais brutos e fortes dos materiais.
Feita à base de insegurança, perfeccionismo, insatisfação e uma ansiedade angustiante, foi finalizada e moldada por um silencioso descontentamento com a falta de credibilidade ao tentar se se manifestar, como se não tivesse dedicado anos de sua vida àquilo diante de qualquer um, onde todos poderiam ver mas preferiram apagar.
Calado pela amargura de saber que já era tarde demais quando finalmente expôs a ponta da hemorragia. Que por fora era apenas uma mancha esverdeada, mas por dentro corrompendo todos os órgãos e vasos possíveis.
Finalmente vendo que não havia mais motivo para reagir, que não adiantaria mais gritar e se debater.
Pois se tentasse abri-la agora a única coisa que veria do outro lado seria o vazio. Deserto e solitário, no lugar do que poderia ter sido um palco, ou melhor uma sala com um piso de madeira ou linóleo com muitos espelhos, afinal tudo que eu sempre quis foi apenas dançar, algo simples, mas agora tão tarde e distante que se tornou o mais complexo enigma.
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black swan
Non-Fiction"Um dançarino morre duas vezes, uma quando para de dançar, e essa primeira morte é a mais dolorosa" - Martha Graham Uma carta aberta para os que gostariam de me acompanhar na melancolia de abandonar meu sonho.
