PRIMEIRO DESPERTAR - ACORDAR

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Acorde... acorde...

ELA ABRIU OS olhos assustada, sem entender o que estava acontecendo. Encarou ao redor e, de imediato, viu uma garotinha de cabelos desgrenhados loiros, de olhos azuis cristalinos como um lago.

Além dela, viu-se numa sala ampla, sem nenhum móvel, com várias crianças de idades entre seus seis aos doze anos, de sexos e etnias diferentes, cambaleando como bêbados atordoados. Suas roupas eram todas maltrapilhas e, em alguns pontos daquela sala, algumas janelas sujas permitiam a passagem dos raios impiedosos de um sol escaldante, dando a todo ambiente uma coloração amarelada.

— Ah... oi... – ela murmurou para garotinha, que sorriu feliz ao vê-la despertar – Qual o seu nome?

— Eu não me lembro. Você se lembra? – a estranha menina perguntou.

Ela esboçou um sorriso de deboche. É claro que lembrava do próprio nome. Seu nome era...

Era...

...

Qual era o seu nome?

Quem era ela mesma?

— Eu... eu não sei... – a garota que acabara de despertar murmurou, sentindo uma onda de nervosismo tomar seu corpo por completo. Aos poucos, sua respiração ficou mais acelerada e o ar parecia se negar a entrar em seus pulmões. Seu peito doía e tudo lhe era assustador.

Que lugar era aquele?

Por que estava ali?

Quem era ela?

— Hey, fica calma! – a estranha garotinha, que devia ter por volta de seus sete anos, disse – O Gabriel disse que isso é uma crise de ansiedade, é normal, por causa da amnésia e as outras coisas. Ele me falou pra fazer umas perguntas pra quem a gente conseguisse acordar... era... era... ah! Lembrei! Hihi... qual a cor dos seus olhos?

— A... a cor dos meus olhos? São castanhos...

— Isso! E como é seu cabelo?

— Meu cabelo? Ele é preto. Crespo. Mas o que...

— Isso vai te ajudar! Me ajudou também quando acordei.

— Quando você acordou? Espera, todas essas crianças... todas nós...

— É, ninguém lembra de muita coisa. Ah... qual a cor da sua pele?

— Ué, eu sou preta. Mas por que a gente não...

— Quantos anos você tem?

— Ah... eu... eu tenho... treze... eu tenho treze anos. Isso tudo eu sei, mas...

— Mas o resto, não. Eu sei. Eu tenho oito aninhos! – a garotinha disse, estendendo as mãos e deixando em pé oito dos dez dedos, com um enorme sorriso no rosto, mostrando um espaço vazio de um dente que faltava.

— O que está acontecendo... – a garota de cabelos crespos, olhos castanhos e pele negra se perguntou, levantando-se e caminhando pela sala.

Pôde contar, pelo menos, outras doze crianças na sala, algumas mais e outras menos perdidas quanto ela. Assim como elas, também estava usando uma roupa maltrapilha, composta por uma camisa, um shortinho e sandálias.

A sala era como de um casebre, bastante suja, com poeira visivelmente flutuando no ar, fazendo algumas crianças espirrarem. O chão era de madeira velha e mofada em alguns pontos. As paredes tinham a tinta que talvez fosse branca, desgastada pelo tempo.

— Posso te chamar de Leoa? – a garotinha indagou, andando ao seu lado. Sorrindo sem jeito, assentiu – Oba! Finalmente alguém gostou do nome que eu dei. Ninguém que eu ajudei a acordar gostou do nome que eu falei... Leoa, eu sou a Ovelhinha!

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