"Como eu queria que tudo voltasse a ser como era antes. Agora sei que é impossível!".
Lá estava Sara, mais uma vez pensando no passado. Nada mudaria e nem seus amigos estariam com ela novamente. E a quem deveria culpar?
Sua covardia havia sido seu erro e, fatalmente, acabou por selar o destino de todos aqueles que amava.
Tinha acordado há uns quinze minutos e permaneceu deitada.
Queria aproveitar o raro momento de descanso. No entanto, estava com alguns pensamentos que a atormentavam e por isso decidiu se levantar.
A cama de madeira coberta com trapos velhos não era tão confortável como sua cama macia na época em que tinha dezesseis anos, mas não fazia diferença. Não tinha muito tempo para fechar os olhos.
Há muitos anos teve uma discussão com a sua mãe por não poder ir acampar com seus amigos. Naquele tempo ela queria poder dormir ao ar livre, observar as estrelas, e ficar longe pelo menos por um tempo de ordens e regras.
Agora, no entanto, podia dormir ao ar livre todos os dias, só que não havia mais estrelas, liberdade ou mesmo sua mãe.
Quando se lembrava sentia as lágrimas queimarem os olhos. As segurou, não ajudariam em nada naquele momento.
Espreguiçou-se demoradamente e depois olhou para o céu escuro e cinzento. Há muito tempo que o sol não surgia para os humanos.
Agora o astro rei vivia escondido atrás de uma névoa densa, pesada, como se fosse uma camada grossa de poluição que não deixava os raios de luz passarem.
Sabia que era de manhã por algumas pequenas mudanças na coloração das nuvens. Eram quase imperceptíveis as diferenças entre dia e noite, no entanto, para sobreviver ela tinha aprendido a diferenciar.
Era por volta desse horário – embora não existisse mais tempo na forma antiga como conheciam – que as criaturas despertavam famintas por sangue e medo. Sua vida, e a de todos os sobreviventes, corria risco a todo instante.
Olhou para o local onde havia adormecido.
Era um antigo casarão, destruído durante um dos terremotos que acabaram com o mundo urbano. Não tinha teto, mas no meio dos destroços poderia guardar as poucas coisas que tinham restado de sua viagem e que necessitaria para uma batalha surpresa no meio da noite. Além do mais, aqueles destroços um dia haviam pertencido a alguma família e isso trazia uma leve sensação do aconchego que há muito havia perdido.
Roupas? As pessoas tentavam conservar o pouco que havia sobrado, transformando os trapos e mantos em utensílios utilizáveis para se aquecerem do frio e das tempestades de vento.
Parecia que a humanidade havia regredido a algum século antes da revolução industrial. Ou até mesmo antes de Cristo, nunca se sabe.
Caminhou até uma poça de água logo à frente e lavou o rosto.
Tinha que estar atenta, as criaturas surgiam dos lugares mais inesperados e ela estava na lista das mais procuradas ultimamente. Não era uma boa ideia se distrair.
Ajeitou o cinto. Nele carregava o punhal que ganhou de um rapaz de quem salvou a vida e, nas costas, carregava sempre a Espada de Prata, que a havia salvado inúmeras vezes. O encontro com essa Espada havia sido o início de sua desgraça, mas também a esperança de salvação.
Prendeu os longos cabelos pretos em um rabo de cavalo firme – como fazia sempre – para facilitar durante as batalhas.
Parou para pensar um pouco e, então, deu um sorriso triste, estava parecida com a sua mãe. Ela também pendia o cabelo daquela forma e depois vinha pedir que fizesse uma trança nas ondas que ficavam soltas atrás.
Sua mãe tinha os cabelos longos, macios e negros, e os olhos azuis. Ela se lembrava de como adorava os olhos da mãe.
Isso não havia herdado dela. Seus olhos eram negros como os do pai.
Lembrou-se de seu pai também. O bom homem havia sucumbido bem antes de sua mãe ao tentar proteger as duas de um ataque violento. Talvez, se tivesse sido corajosa como ele desde o começo, não precisaria analisar todas as perdas que teve.
Sara finalmente percebeu que não conseguiria evitar as lembranças estavam especialmente fortes naquele dia.
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Nas Trevas e na Luz - Degustação
General FictionO que você faria se descobrisse ser capaz de decidir o futuro de toda humanidade? Teria coragem de enfrentar as consequências de suas decisões ou tentaria fugir de seu destino? Sara entrou nesse dilema quando tirou de seu repouso uma bela e misterio...
