A notícia ainda é a mesma, passando de boca em boca, de calçada em calçada, entre os mais velhos e jovens moradores, não se fala sobre outra coisa: o prefeito da cidade estava tendo mais um caso com uma garota bem mais jovem. Dessa vez, por azar, mais uma boba iludida vai ficar com uma criança sem pai e sem nenhum tipo de auxílio financeiro. Ele tem a pequena cidade de Horizon aos seus pés.
Continuo colocando as laranjas na sacola enquanto ouço os sussurros de mulheres arregalando os seus grandes olhos e dando risadas debochadas, enchendo a boca para falar o nome daquela garota. Com certeza vai demorar muito para sair do "assunto do povo", ainda mais quando a vítima irá carregar a marca da sua vergonha crescendo dentro da sua barriga, e depois que nascer, sua sorte irá desaparecer quando uma outra for escolhida para lhe substituir.
Arrasto o carrinho com duas rodas, ajeito a última sacola longe das barracas de frutas e me distancio o suficiente para poder fumar. Na segunda tragada, alguém toca nas minhas costas e vejo Louise pronta para compartilhar a fofoca do momento, me dizendo todos os detalhes sem qualquer formalidade: o nome, a rua, a escola que a garota estuda e tudo mais. É um absurdo a facilidade que as palavras escapam da sua boca.
Tento mostrar interesse, apenas confirmando com minha cabeça subindo e descendo, até ela finalmente se cansar e saltar para a próxima senhora. Elas continuam conversando sobre o escândalo. Retiro-me dali e logo chego em casa para preparar o café da manhã para ir trabalhar. Lá fora, o dia estava quente como uma fornalha.
No salão de beleza, atendo uma das clientes mais populares, a senhora viúva Grace. Ela nunca arranjou um companheiro, mas sempre, quatro vezes na semana, parece que está se arrumando para um encontro, carrega o mesmo aroma de perfume, sempre está devidamente maquiada e bem vestida. Começamos a conversar enquanto arrumava o seu cabelo, ela gosta que eu cuide das suas unhas e sempre pede algum produto que hidrate bem as suas madeixas.
Estávamos falando sobre a novela das sete, quando entrou uma outra cliente, rastejando-se até o lugar esperado. Percebemos algo, havia alguma coisa errada, porque ela sempre usava óculos escuros em uma ocasião particular. Sentou-se no seu lugar sem dizer uma palavra. Horário marcado. Havia feito o pedido há dois dias, e nós, funcionárias do salão, sabemos o que fazer, e os fuxicos começaram baixinho, quase que inaudíveis. Porém, todas estávamos falando sobre a mesma coisa, e ela sabia que o assunto tratava-se das agressões do seu marido.
Chego em casa cansada quando já escureceu. Não cansada do serviço, mas da exaustão mental. É sempre a mesma coisa, ainda posso sentir a oleosidade e o cheiro desagradável que os produtos tornaram-se. Preparo algo rápido para sentar em frente ao computador, talvez eu assista algum filme ou série até pegar no sono, talvez vire a noite sozinha, com a cara na tela, como costuma acontecer ultimamente.
Meus pensamentos voam e me pego imaginado uma situação comum do cotidiano, um exemplo é quando estou aguardando na fila para comprar pães. Mal são seis horas da manhã, e o bêbado chato da casa ao lado do estabelecimento aparece para importunar as mulheres e encher o saco dos demais. Fico pensando como as pessoas deixam as coisas passarem por aqui. Medo? Talvez... Este é o mal de cidades pequenas na zona rural, as pessoas se sentem menores diante das outras ou, simplesmente, é esse o mal que ocorre neste lugar: quando alguém tem um certo tipo de poder em cima dos outros, abusa de todas as maneiras possíveis.
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Sobrenatural
Mystery / ThrillerAs coisas mais arrepiantes que você pode imaginar, ou sonhar, estão mais próximas do que pensa...
