O meu filho morto, quer que eu me mate

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Não conseguia mais dormir, tomado pelas vastas lembranças daquele dia. Na solidão do meu quarto, o vi pela primeira vez, analisando-me com os seus pequenos olhos tristes. Na primeira noite, apenas observou-me — imaginei que fizesse parte do meu tormento —, mas não era apenas uma recordação ou uma aparição ameaçadora do seu espírito surgindo no cômodo. Na segunda noite, ele apontou para a porta, apenas isso. E na terceira, foi quando ele se comunicou pela primeira vez.


"Você precisa pular." — apartir das suas primeiras visitas, todas as noites passaram a ser a mesma coisa; ele surgia, erguia a sua mão, apontava o seu pequeno dedo para a porta e proferia as mesmas falas. Próximo de amanhecer, era quando finalmente desaparecia. Eu sentia a sua presença ali como se ainda estivesse vivo, como se ainda estivesse respirando, como se estivesse aguardando por mim, para que eu pudesse finalmente ser um bom pai, como eu nunca havia sido antes de tudo isso acontecer. Ainda sem saber o que fazer, assolado pelo medo e pela ansiedade a noite inteira, eu ainda permanecia absolutamente exausto, quando os primeiros raios de sol atravessavam a sala através das cortinas da janela. Eu só precisava ser alguém além de um trapo — era o que minha mente dizia —, mas a culpa continuava mantendo-me estático no mesmo lugar.


Saí do meu quarto quando li a sua fisionomia aguardando-me. Ele estava no corredor e depois na sala, apontando para a porta de saída. Levantei em todas as ocasiões; mas até o momento, não compreendia o que desejava de mim. As coisas mudaram quando finalmente tive coragem de o encarar, coloquei os meus tênis de caminhada e saí de dentro da residência tarde da noite, quando todo mundo já está dormindo.


Caminhei observando a sua figura surgindo a cada dez metros, apontando o seu dedo e guiando-me pela estrada. Ele levou-me para o desfiladeiro, a parte mais alta e o cartão postal da pequena cidade. Aproximando-me mais do lugar, notei que há uma queda gigantesca, formada por paredes rochosas de falésias, onde a água bate violentamente contra a mesma provocando o desgastamento da costa. Olhando assim durante a noite, é algo que se pode — de maneira assustadora — comparar a própria boca do demônio, que sem piedade alguma deseja lhe devorar. O vento é tentador como se fosse mãos invisíveis pressionando a lhe derrubar. Eu apenas chegava onde desejava e notava o seu rosto apreensivo. Todas as noites eu executava essa minha nova rota, até que quando finalmente ele voltou a falar, para sempre me incentivar tal atitude: "Pule, papai, pule. Pule, papai, pule. Pule, papai, pule." Isso me fazia dar alguns passos para trás, dar meia volta e correr para longe do meu destino, era isso o que ele desejava, que eu morresse também.


Isso tornou-se a minha rotina de todas as noites — eu ficaria acordado de qualquer modo mesmo —, mas sempre caminhava com ele ao meu lado, surgindo e conduzindo-me para o mesmo lugar. Minha esposa não soube aceitar quando descobriu o que eu fiz com o nosso filho, ela não olhava mais nos meus olhos e na terceira noite após a fatídica ocasião, resolveu ir morar com a sua mãe. Nós não tínhamos mais a nossa criança, o nosso amor foi despedaçado naquela árvore. Tudo o que havia de bom em nossa relação — o nosso amor incondicional — desapareceu.


Iniciando o meu trajeto pela escuridão, percebi que ninguém mais saía durante à noite, independente do horário, porque estavam temerosos, desde que as suas crianças começaram a sumir. As autoridades locais eram compostas apenas por um homem mais velho e um mais novo. A delegacia, assim como a cidade, eram pequenas e crimes não faziam parte da nossa realidade, por isso não conseguiram parar de imediato com as mortes. Perdemos os turistas, o pânico de trazer os seus filhos e visitar a pequena cidade nas montanhas, longe da poluição e junto com a natureza, se instaurou de modo crescente, estabelecendo assim a fama de um lugar pacato, para uma região perigosa. Nosso lugarejo estava virando uma cidade fantasma. Os poucos habitantes, sobreviviam como sempre, vivendo dos recursos das florestas e das colheitas. Não existiam mais crianças nas ruas; as poucas que sobreviveram, os seus pais as trancavam dentro das suas casas com medo de que algo invisível as roubassem dos seus lares.

DesesperoWhere stories live. Discover now