O mundo se acabava em água lá fora e eu estava deitada tranquilamente em minha cama. O barulho do vento forte e as gotas pesadas batiam contra minha janela e o conjunto de relâmpagos e trovões lá fora faziam o cenário piorar.
Em minha casa só haviam dois seres viventes, eu e meu fiel parceiro felino Snow, meu gato angorá que dormia calmamente ao meu lado. O silêncio no apartamento estava agradável, mas um barulho alto no corredor desperta o felino e alguns segundos depois escuto uma batida incessante na minha porta, aquilo perdurou e eu esperei que parasse, mas só parou quando um barulho do que parecia ser um corpo caindo ecoou pelo corredor silencioso.
Me levanto com cuidado e calço minhas pantufas, ligo as luzes da sala e me direciono até a porta, eu não tinha muito contato com meus vizinhos, até me privava de qualquer conversa ou contato visual, todos ali pareciam conservadores e problemáticos.
Tudo parecia tranquilo até o momento, abro a porta e o corpo que antes estava encostado na minha porta, cai na entrada do meu apartamento. Ele era um homem, ele era aparentemente jovem e pelo cheiro forte de uísque, ele claramente estava bêbado.
Eu não suporto bêbados.
Me abaixo para ver se ele estava vivo e assim que encosto meu dedo no nariz dele sinto uma lufada leve saindo de suas narinas. Ele só estava bêbado, ponto. Me levanto e quando estou tentando jogar seu corpo pra fora ele balbucia alguma coisa que eu não consigo entender, mas que se dane, não o conheço e não me importo.
Fecho a porta e me certifico de passar a chave e a correntinha de proteção, Snow apenas levanta a cabeça pra mim e logo em seguida fecha os olhinhos e volta a dormir. A tempestade não dava trégua e o vento forte faziam sons de uivos e os raios riscavam o céu, eu sabia que choveria, mas não sabia que seria tanto assim.
Alguns minutos se passam e eu escuto um barulho muito alto no corredor e em seguida uma voz masculina gritando. Me levanto correndo e vou em direção da voz, será que o prédio estava sendo roubado? Ou houve um vazamento de gás? Muitas perguntas se passaram por minha cabeça, mas o que eu vi quando abri a porta me deixou mais chocada.
Meu vizinho que antes estava no chão desmaiado, agora está com um corte na testa e alguns cacos do que parecia ser uma garrafa espalhados pela blusa e alguns no chão. Me aproximo com cuidado e vejo se ainda estava vivo, depois tiro os cacos dele e tento reanimá-lo, mas sem sucesso.
Escuto a voz de antes no apartamento dele e junto dessa, uma voz feminina que parecia chorar. Me levanto e volto pra minha porta e espero pra ver o que aconteceria, do apartamento vizinho saem um cara com uma mala rosa e uma mulher que parecia ser mais velha que eu chorando baixo. Ela olha para o corpo do bêbado no chão e balança a cabeça, o que teria acontecido ali?
Saio novamente e fico de frente para o rapaz a minha frente, não quero me envolver, mas ele claramente está machucado talvez até em coma alcoólico.
Volto para minha casa e pego a vassoura e a pázinha, recolher os cacos seriam uma boa, eu não correria o risco de me machucar e consequentemente outras pessoas também. Recolhi com cuidado e depositei os cacos em uma caixinha de papelão, escrevi sobre a caixa e deixei num canto do corredor e voltei minha atenção ao bêbado que agora balbuciava novamente.
- Espero não me estressar com você, não tenho paciência pra bêbados. Onde você mora? - Abro a jaqueta de couro marrom que ele vestia e procuro por bolsos internos com alguma chave ou numeração e com sorte achei a chave. - Apartamento 8? Achei que esse estivesse vazio e para sua sorte somos vizinhos.
Ando até a porta ao lado e abro a porta da casa dele, entro e o interior me deixa confusa, ele só tinha um sofá preto no meio da sala e a cozinha que era semelhante a minha, só diferenciava que a minha era mais iluminada e com mais utensílios. Ele era minimalista pelo jeito.
- Gostou? - Levei um susto com a fala dele e me viro com a mão no peito.
- Está acordado. - Fico alerta com a aproximação dele e ele para à uns passos de mim. - Você caiu na minha porta e queria saber onde você morava, para poder te ajudar a entrar...eu acho.
- Saia da minha casa.
- O quê?
- É surda? Saia da minha casa. - Ele passa direto por mim e segue até a geladeira e de lá tira uma garrafa de vodka e a vira sobre os lábios, ele parecia acostumado a beber assim, pois nem cara feia fez quando terminou de beber.
- É um babaca mesmo. - Coloco o capuz do meu moletom e saio da casa dele, mas paro na porta e olho para trás. - Da próxima vez que cair na minha porta, espero que esteja morto.
Bato a porta com força e entro no meu apartamento e vejo que Snow me olha com preguiça, que vida boa hein meu amigo!
Vou até a cozinha e encho um copo com água gelada, bebo todo o conteúdo do copo e pego uma maçã e sigo para a sala afim de terminar de ler meu livro.
Já se passavam da 01:00am e eu ainda estava ali aninhada no sofá entre minha cobertas e meu fiel companheiro ronronando aos meus pés. Tudo ia bem novamente, mas um grito desesperado do lado de fora assusta Snow e o bichano corre para debaixo do sofá. O que diabos estava acontecendo hoje? Dessa vez só fui até a porta e o pouco que consegui escutar foi duas vozes, entre elas a voz de uma mulher que estava rindo e cantarolando algo macabro. Me atrevo a olhar pelo olho mágico e o que eu vi me tirou o fôlego, a mulher de antes agora parecia desfigurada, um verdadeiro monstro dos meus pesadelos de infância, ela era exatamente igual a mulher que vivia no meu armário. Na época aquilo me afetou tanto que até hoje guardo minhas roupas em cômodas, roupeiros e guarda roupas me deixam em pânico.
A mulher agora batia freneticamente na minha porta, ela continuava a rir e a recitar as palavras desconexas. Tranquei a porta e tomei uma distância segura, peguei meu gato e entrei no meu quarto e me tranquei lá.
Parecia um pesadelo, comecei a entrar em desespero e meu medo já era palpável, tudo piorou quando escutei a minha porta sendo posta a baixo e a porta do meu quarto começar a bater, ela queria entrar aqui e eu estava quase chorando, o que ela queria comigo?
- Abra a porta pecadora! Hora de pagar seus pecados! - Ela gritava e ria como uma louca, era ela mesmo, a moradora do armário, mas não me lembro como me livrei dela na época. - Abra a porta querida! Senti sua falta!
Aquilo foi o suficiente para que eu me certificasse que era ela mesmo, mas ela parou de repente e eu esperei pelo pior. Silêncio absoluto.
A maçaneta começou a girar vagarosamente e quem estava do lado de fora perceber que estava trancada, colocou um pouco mais de força e eu comecei a chorar. Snow estava na defensiva e parecia esperar pela porta abrir só para atacar quem quer que estivesse ali, mas a porta se abre e quem vejo ali é meu vizinho.
Ele tinha uma foice na mão e em seu rosto algumas gotas de sangue preto, agora dava para ver melhor o rosto dele, ele parecia preocupado e respirava pesado, parecia ter lutado. A foice respingava o mesmo sangue que estava no rosto e mão dele, dando uma aparência assustadora a ele.
Queria parar de chorar, mas não conseguia, estava chocada demais para isso:
- Você está bem? Ela te machucou? - Ele me encarava e procurava mesmo de longe por alguns ferimento ou algo fora do normal. - Ei, você está bem? Estou falando com você.
- Não estou nada bem. - Disse entre soluços- Eu pareço bem?
- Grossa como sempre. De nada.
- Como entrou aqui? - Sai da cama e fui até que se virou e foi até a pia da cozinha e começou a lavar a foice.
- Seu pesadelo entrou aqui, era meu dever acabar com ela. - Era muita informação para minha cabeça, porque ele deveria estar aqui e porque era dever dele acabar com a coisa? - Só preciso saber se você está bem, então fale, " eu estou bem".
- Mas eu não estou bem!
- Garota pelo amor! A coisa não vai voltar, só fala que está bem e deu bom! - Ele termina de limpar a lâmina e se vira para mim. - Não consigo entender porque seu pesadelo voltou? Eu já tinha acabado com aquilo há 15 anos, o que você fez? Andou depressiva de novo? Você está bem?
- 15 anos? Depressiva? Do que você está falando? Nem nos conhecemos!
- Que não seja por isso, muito prazer, sou seu anjo da guarda.
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Wave
Random''Blanca atrás de mim me encara, ela estava confusa e isso era visível. Ela se afasta e se senta em uma cadeira próxima a ela, ela chorava de soluçar, ver tudo aquilo a deixou catatônica. Me abaixo e fico de joelhos em sua frente, peço permissão p...
