Até hoje não consigo acreditar em como tudo chegou nesse ponto. Mesmo que todos os dias tenha que encarar essa dura realidade em que fui inserida, a ficha não cai. Isso tudo, toda essa loucura, parece ser só um sonho ruim, do qual vou despertar a qualquer momento, então, olhando pela janela, verei que tudo permanece normal, do mesmo jeito que estava antes de pegar no sono, e assim continuara, até que eu durma de novo.
Normal. Tá aí uma palavra que deixou de fazer parte do meu vocabulário faz tempo.
Na verdade, ela ganhou um novo significado. Esse é o meu normal agora, permanecer trancada em casa, com medo do mundo, das pessoas, das coisas... com medo até das paredes que me cercam, me perguntando se estou segura em casa, ou se estou presa aqui dentro com ele. Talvez já esteja dentro de mim. Esse é sempre meu primeiro pensamento depois de acordar, e o último que me passa pela cabeça antes de dormir.
Observando as rachaduras do teto branco, imagino ele correndo pelas minhas veias, rastejando até meu coração como se fosse um verme, e se espalhando por todo o meu corpo. Por algum motivo, eu o imagino dessa forma. Como um verme asqueroso, repulsivo, nojento. Cravo as unhas na pele, arranho até esfolar. Não paro, apesar da ardência, continuo coçando, com cada vez mais intensidade, esfolando ainda mais. Enterro as unhas na carne, vejo sangue transbordar pelos pequenos furos. Minha vontade é arrancar a pele, e vê-la se descolar do meu corpo como uma fita durex, então, tirar minha carne, pedaço por pedaço, até não sobrar mais nada. Até não restar mais nenhum pedaço de mim para ser contaminado. Me contenho. Antes que possa me machucar ainda mais, corro para o banheiro.
Lavo minhas mãos na pia, até os cotovelos. Esfrego com força, mas não é o suficiente. Tiro as roupas e entro no chuveiro. A água está fervendo, mal consigo me manter embaixo da ducha. Cada gota de água parece uma labareda caindo sobre mim, mas acredito que o calor possa matá-lo.
Após ensaboar cada centímetro do corpo, me esfrego com uma lã de aço, uso tanta força que meus braços doem.
Me lavo da cabeça aos pés.
Não o faço uma única vez. Depois de me enxaguar, repito todo o processo, de novo e de novo. Uma, duas, mil vezes se for necessário. Ensaboando e esfregando, até me sentir completamente limpa e desinfetada. Isso pode durar alguns minutos, horas, ou até levar o dia inteiro.
Depois saio do box e me enxugo. Não uso uma toalha, preferi substituir por toalhas de papel. Depois de seca, derramo álcool gel sobre minha pele e espalho por todo o meu corpo. O local em que abri uma ferida me unhando queima, minha pele está avermelhada e sensível, ainda assim, me sinto muito melhor, diria até que mais leve.
Enquanto cuido do ferimento e o cubro com um curativo, decido que seria melhor se eu desinfetasse todo o banheiro, só por garantia. Estou prestes a me vestir, quando, enquanto estou quase tocando na calça de moletom que, enquanto me despia, atirei no chão, de repente, me vem à mente um pensamento que me faz recolher a mão, como se a muda de roupas fosse me morder. Eu o imaginei entrelaçado às fibras do tecido, invisível aos olhos, esperando o instante em que o pano encostaria no corpo, e com um toque, iria grudar nos dedos, que mais tarde eu levaria ao rosto, ou então, ele entraria diretamente através da minha respiração, enquanto eu passava a cabeça pela gola da camiseta. Ele entraria no meu organismo, tomaria cada célula, e causaria todo aquele estrago.
Não era seguro.
Com as mãos enluvadas e uma máscara cobrindo a boca e o nariz, pego as roupas com cuidado e levo até a máquina de lavar. Além do sabão em pó, coloco também uma certa quantidade de álcool setenta por cento, e programo para que a lavagem dure uma hora, mas logo em seguida, pouco antes de ligar, mudo de ideia e giro o botão, programando a lavagem por duas horas. Era melhor prevenir do que remediar.
Me visto com uma roupa limpa e pego o material necessário para a limpeza. Começo pelo box, esfrego o chão, as paredes, o vidro. Escovo cada linha que separa os azulejos, e como no banho, repito o procedimento mais de uma vez. Gotas de suor brotam na minha testa e escorrem até o ponta do nariz. Vou precisar de outro banho, mas não me importo com isso, tomar dez banhos por dia agora fazia parte daquilo o que considerava "normal".
Pode parecer exagero, mas sei o quão nocivo ele pode ser, até porque a mídia não nos deixa esquecer disso nem por um minuto. Todos os dias, do amanhecer ao anoitecer, algum repórter engravatado está na tela, com uma expressão sisuda e um tom de voz grave, anunciando que o número de vítimas aumentou, nos alertando do perigo que corremos, do quão prejudicial a exposição pode ser, e como devemos nos precaver para não nos contaminarmos. Com isso em mente, esfrego o pequeno cômodo de ponta a ponta, desinfeto as gavetas e armários, limpo a pia em que lavo constantemente as mãos e a maçaneta da porta na qual evito tocar.
Olho para minha escova de dentes e resolvo substituí-la por uma nova, que também higienizo antes de colocar no copinho que acabei de limpar. Jogo a antiga no lixo, que pretendo queimar assim que terminar a limpeza do banheiro. Uso desinfetante, água sanitária, álcool, tudo o que seja capaz de matá-lo, antes que ele faça isso comigo. Já está amanhecendo quando termino.
Depois de esterilizar o que precisava, troco os lençóis da cama antes de me deitar para descansar. Posiciono todos os ventiladores que tenho em casa ao redor dela. Não uso ar condicionado, muito menos deixo as janelas abertas para arejar a casa, todo o cuidado é pouco.
Me deito, os músculos relaxando depois de uma madrugada de esforço físico, mas valia à pena, nenhum sacrifício era maior do que o sofrimento que aquela infecção causava. Os efeitos dela no organismo continuam marcadas nos meus pensamentos. Fecho os olhos com força, como se a escuridão pudesse apagar essas memórias desagradáveis que sempre voltam à tona. Mantenho os olhos fechados até que a neblina do sono me envolva, já estou quase inconsciente, quando sou tomada por um pavor súbito, que faz com que eu arregale meus olhos e pule para fora cama.
Não era seguro. Ele estava ali. Nas costuras, entre as molas, afundado na espuma. Era como se eu estivesse deitada sobre uma ilha colonizada por ele.
Aquela droga de vírus estava em todo lugar.
YOU ARE READING
Vírus
Science FictionEm um mundo tomado por um vírus letal que vem dizimando a humanidade, Leandra se vê sozinha tentando adptar-se a sua nova realidade, batalhando para não ter seu corpo e sua sanidade consumidos pela doença. Atenção: algumas cenas aqui descritas pode...
