Capítulo 1

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   Cansado, era uma característica que já não conseguia fugir mais, havia se tornou uma parte de si a bastante tempo. Até porque, não se lembrava da última vez que teve um sono bem aproveitado, até o menor dos barulhos o despertava, dando-lhe uma injeção de adrenalina em plenas quatro da manhã. Era uma merda.

   Quando pensou em se tornar investigador, achava que seria a oitava maravilha do mundo. Sentaria em sua mesa com um quadro de investigações gigante a sua frente. Ele olharia para o caso quase perdido e do nada, enquanto tomava um copo gigante de café, descobriria uma pista que (por algum motivo estúpido) o assassino deixou propositalmente para começar um verdadeira brincadeira de "gato e rato". Onde no fim, ele sempre ganhava.

   Mas a realidade era cruel. Na verdade, ele teve que olhar de perto carnificinas e parou ter ânsias de vômito quando via que seu sapato desgastado encostava em uma poça de sangue. Chegou a se perguntar, será que estou me tornando menos humano? Tomar 5 latas de energético, ter ataques de pânico a noite, se sentir alheio aos sentimentos dos outros e pouco se fuder para si mesmo não pareciam coisas que humanos humanizados achariam normal. Mas sinceramente, ele não ligava nem um pouco.

   Após uma auto avaliação durante a sua companheira insônia, descobriu ser um pouco mais imoral do que antes. Depois de 5 anos no ramo, a ideia de sacar a arma para outro ser humano e atirar não lhe era repulsiva, como também começar um amor platônico por uma das assassinas mais procuradas atualmente não era uma ideia tão absurda.

   Tudo tinha tinha começado em um bar ferrado que ficava no meio de um bairro não muito frequentado por "pessoas de bem".

   Era um dia monótono, no final do trabalho. Naquele dia tinha decidido que a melhor forma de afastar seu vazio existencial era se afogar em um dos seus maiores (e mais prazerosos) vícios, a bebida. A forma que seu corpo se despertava era incrível, não conseguia parar depois de experimentar a primeira vez, aos 16. Não importava se estava morrendo aos poucos (por livre e espontânea vontade), muito menos com seu problema sério no fígado que o fazia ter seus dias contados por falta de motivação de fazer um tratamento adequado.

   Sentado, se deliciava com um Whisky. Bom, pelo menos até ela aparecer.

   Toda sua silhueta parecia perfeita, como uma bela imagem em meio ao barulho, tudo em si lhe atraía, principalmente aqueles olhos caçadores e ameaçadores. O mesmo sentia que poderia se ajoelhar aos seus pés e beijar seu anel de ouro na primeira encarada que aquela perfeição direcionou a ele.

   Com um sorriso pertencente ao diabo, ela se aproximou e se aproximou, uma cobra pronta para dar o bote. O detetive concluiu que não se importaria de se oferecer para tal ato.

   Uma conversa longa foi iniciada naquela noite, na maior parte do tempo, era o agente que falava, a mulher parecia querer esconder algo de si e isso o intrigava, queria saber até os mínimos detalhes daquela que capturou seu coração em poucos minutos.

   Mal sabia ele que a única coisa que veria horas mais tarde era a mesma saindo de sua casa pela porta dos fundos.

   Esse acontecimento aumentou o seu fogo, que foi apagado a muito tempo atrás. Queria saber, estava fissurado. Porém, não achou nada, ao menos sabia seu nome.

   A tortura permaneceu por algumas semanas, até que a noite, a mesma apareceu da mesma maneira que desapareceu, entretanto, deixou algo para trás. Antes de sair, sussurrou no ouvido do outro:

   _ Miss Jackson

   Era seu codinome, apelido de assassina. Esse mesmo nome causava terror em toda cidade, conhecida por matar sem deixar marcas, sempre em busca de uma nova vítima. Ninguém tinha informações sobre esse tal criminoso, mas ele sabia que era a moça venenosa que tinha o prazer de brincar consigo.

   Ele não podia se importar menos, ele a amava do mesmo jeito.

   Não sabia dizer em que momento seus encontros começaram a ser corriqueiros, porém, admitiria com um sorriso no rosto que eram os dias que salvaram sua vida de uma completa tristeza e vazio.

   Nesse momento, estava sentado em um escritório improvisado em sua pequena e bagunçada casa. Levou o trabalho para casa (de novo), estava ocupado demais prestando atenção no caso que recebeu, buscando provas úteis para resolvê-lo , nada que comprometesse sua Miss Jackson.

   Um barulho foi escutado na sua porta dos fundos, inconscientemente sua mão pousou na pistola que se encontrava no bolso da calça.

   Entretanto, a figura que tanto conhecia o fez, apenas com um olhar, se acalmar e tirar o toque do objeto que estava mais do que pronto para ser usado.

   _ Que perigo, senhor detetive _ A voz calma e cheia de segundas intenções soou por todo local, preenchendo todo silêncio devastador que antes assolava toda casa.

   _ Você é indecente? _ Se referiu a camisola que a outra usava, se aquilo era uma roupa, ele era padre _ Deixasse as roupas em casa logo.

   _ Que péssimo jeito de me receber _ Fez seu famoso drama e abraçou o homem por trás (não conseguindo o contato que queria por culpa da cadeira).

   O silêncio foi tudo que recebeu em troca, já estava acostumada com o jeito frio e distante do outro. Isso que, na sua opinião, fazia o charme daquele maluco que havia encontrado em um bar sujo. Sem querer deixa o assunto morrer, continuou:

   _ Tive vontade de vir aqui quando eu já estava preparando para dormir, estava com preguiça de vestir uma nova roupa. Por um acaso queria que eu viesse toda suja? _ Estava aí uma informação importante, ela estaria suja por causa de uma nova vítima, ou seja, mais trabalho para encher sua cabeça amanhã.

   _ Parece que terei mais trabalho amanhã _ Riu nasalmente de maneira irônica e sem nenhum humor, o que fez Jackson revirar os olhos.

   _ Pense pelo lado bom, não vou ter que me preocupar em ser pega _ Falou enquanto sentava na perna direita da contraparte, observando a comprovação que sua fala anterior fazia sentido, ele nem tentava esconder que estava acobertando tudo.

   _ Eu deveria te entregar logo _ Os dizeres não a afetaram, sabia que tinha a sua vítima preferida nas mãos, e ele também sabia _ Cobrir alguém que eu nem sei onde acordará amanhã de manhã, é uma completa burrice _ A assassina não conseguiu conter um riso debochado, a forma como o outro se contradiz é cômica, fazia juz a sua decisão de não matá-lo quando teve várias e várias chances.

   _ Ciúmes, traitre? _ O detetive não teve como não ficar irritado com o apelido. Significava traidor em francês, a mesma parecia fazer questão de lembrar de todos os seus pecados, um verdadeiro karma ambulante.

   Miss Jackson não parecia se importar com o claro desconforto do outro, muito menos com seu resmungo de raiva. Não havia falado nada de errado, se ele não conseguia conviver com a consciência pesada, não podia fazer nada.

   _ Não te interessa! Você não passa de uma maldita que faz questão de me levar ao inferno junto com você e sua imundice _ A mulher começou a encará-lo, mais especificamente, a sua cara de pau. Eram poucas as vezes que o via levantando a voz, geralmente ela era morta e desinteressada. O pensamento a fez alargar mais o sorriso.

   Passou a sua mão direita pelo rosto do rapaz, fazendo questão de arranhar de leve face dele com suas unhas enormes e afiadas. Só para depois levar a outra mão até a bochecha disponível e dar três tapinhas de humilhação no rosto que já iluminava um ódio profundo em sua direção.

   Depois do ato, ajeitou-se para sentar no colo do outro, com ambas esparramadas uma de cada lado. Acariciou o cabelo todo bagunçado e se inclinou em direção ao ouvido da sua vítima. Com uma voz zelosa e convencida, falou pausadamente:

   _ Você me ama mesmo assim.

Miss JacksonWhere stories live. Discover now