Segundo Bloco

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Mediador: Boa noite. Estamos de volta com a segunda parte desse negócio que a gente tem que fazer porque passa na TV aberta. No primeiro bloco do nosso debate, os dois candidatos falaram sobre as suas propostas para a educação e transporte público.

Álvaro: Mas eu não...

Mediador: Senhor Alves, por favor! Nessa segunda parte, sairemos dessa questão mais formal e, já que o brasileiro gosta mesmo é de gincana, os candidatos se enfrentarão em provas físicas e de raciocínio.

Ricardo: Perdão, mas eu não topei nada disso.

Mediador: É, mas terá que participar ainda assim.

Álvaro: Mas isso é completamente ridículo.

Mediador: Ridículo é ainda existir jingle político, candidato, isso aqui é apenas mídia. Bom, a nossa produção já providenciou um dos nossos espaços e agora a gente vai mostrar pra você aí de casa que esses dois candidatos são bem mais do que só rostinhos bonitos.

Nesse momento, a produção adentra ao estúdio trazendo vários pequenos objetos que – o mediador informa – farão parte da terceira prova. Abandonando os púlpitos, os candidatos seguem o mediador pelo estúdio, ainda desconfiados, para a nova parte do evento.

Mediador: Essa nova parte se constituirá de três provas, valendo duzentos pontos cada. Ao final, o valor pode dobrar de acordo com o desempenho no desafio. Nós chamamos vários eleitores para participar das provas e, adoraríamos dizer que foi trabalhoso, mas não foi, eles próprios fizeram questão. Na primeira prova que, por questões de espaço, será fora dos nossos estúdios, os candidatos participarão de uma simulação de transporte público.

Álvaro: Como disse?

Ricardo: Acho que ele quis dizer "transporte cidadão".

Mediador: Nós alugamos um ônibus e juntamos um grupo diverso de eleitores para enchê-lo, os senhores entrarão pela porta da frente e ganha quem tiver melhor manejo corporal e habilidade para chegar até o fundo e sair pela outra porta. Peguem esse bilhete único, e boa sorte. Valendo!

Os dois candidatos olham desconfiados para o ônibus, para o mediador, e de volta para o ônibus. Depois de se entreolharem, os dois correm e se esbarram na porta afim de ver quem tem mais sorte. Álvaro consegue entrar e, esbarrando na catraca, consegue se colocar do outro lado. Ali o desafio lhe parece bem maior do que pensara, mas, com algum esforço e encostando em pessoas que o olhavam de maneira torta, chega à porta traseira, enquanto seu adversário se encontra, ainda, deixando a catraca. Do outro lado, o mediador apita e anuncia a vitória de Álvaro – diz-se Alves – Campos.

Levando os dois candidatos para uma sala no estúdio, o mediador explica como se dará o funcionamento da prova seguinte.

Mediador: A próxima prova diz respeito a saúde. Aqui, cada candidato terá disposto para si a maquete de um hospital e bonequinhos que representam os pacientes; o desafio será criar uma estratégia através da qual os pacientes enfrentem o menor número de filas e consigam um atendimento digno.

Ricardo: Não seria mais fácil se todos usassem os próprios planos de saúde?

Mediador: Por favor, candidato, estamos falando do Brasil. Anotem nos papéis ao lado as suas ideias e logo logo vocês poderão explaná-las. Boa sorte!

Os dois candidatos movem os bonecos e, refletindo, escrevem e rabiscam suas ideias nos papéis. Ao final, parecendo genuinamente orgulhoso de sua ideia, o candidato a reeleição anuncia:

Ricardo: Já sei! Esse bonequinho, que eu chamei carinhosamente de João, terá de acordar às quatro da manhã e seguir para o posto de saúde. Assim, chega antes de todos os outros e não terá a quem enfrentar.

Mediador: Isso não é uma estratégia, senhor candidato, é a realidade. Mas, visto que o seu adversário apenas escreveu linhas desconexas no papel, o senhor ganha essa prova.

Sendo guiados para o cenário onde responderam perguntas no bloco anterior, os candidatos veem que os púlpitos foram retirados e o espaço se transformou em algo totalmente diferente.

Mediador: Agora vamos para a última prova, e mais divertida, pelo menos pra mim. Aqui temos uma pista de obstáculos pela qual os dois terão de passar; ao final, chegarão a uma parede de blocos e colocarão em um gancho a medalha que encontrarão no terceiro obstáculo, o primeiro a chegar, ganha a prova e conquista o dobro de pontos que já tem.

Após fazer a propaganda de um produto que ninguém precisa – mas todo mundo quer –, o mediador explica aos candidatos o funcionamento mais detalhado da prova: a pista é dividida em duas partes (uma para cada), sendo cada parte apinhada dos mesmos obstáculos. No primeiro obstáculo, os dois devem responder três perguntas sobre a Lei de Diretrizes e Bases para a Educação; a cada erro perdem cinco pontos e um dos eleitores rivais o atira uma torta na cara. No obstáculo dois, Álvaro e Ricardo encontrarão quatro bebês sentados no chão, usando roupas iguais, dois deles possuem chaves escondidas num pequeno bolso; seu desafio é levantar cada um, beijá-los na cabeça e descobrir com quais as chaves estão. No obstáculo de número três, o desafio é encaixar a chave no cadeado que tranca uma caixa; ao abrir, o candidato encontrará a medalha e um cheque; o desafio é simples - escolher entre colocá-lo na caixa aberta intitulada "segurança pública" ou guardar no bolso e seguir adiante

Garantindo que ambos entenderam os objetivos de realização, o mediador apita anunciando o início da prova e os dois candidatos seguem para conseguir a vitória. No primeiro obstáculo, os dois candidatos erram na primeira pergunta; na segunda e terceira, Álvaro consegue acertar e dispara para o obstáculo seguinte; depois de errar mais uma, Ricardo chuta a resposta que achava mais improvável e consegue também acertar. No obstáculo dois, Ricardo, que já possui mais habilidades encontra a chave logo no primeiro bebê, guarda-a no próprio bolso enquanto Álvaro só encontra a chave semelhante no último bebê. No obstáculo de número três, Ricardo pega a chave e abre a caixa; encontrando o cheque e a medalha, e vendo que o adversário se aproxima, guarda-o no bolso e tenta correr para a última prova, sendo atrasado por um grupo de eleitores fanáticos que não vira se aproximar.

Mediador: Obstáculo surpresa! Aqui vocês terão apenas que ser vocês mesmos, e dar atenção aos anseios do povo.

Quando Álvaro finalmente consegue abrir o cofre e retirar a medalha e o cheque, rasga-o em dois, deixando metade para si e a outra metade na caixa de segurança; seu grupo de eleitores também interrompe a corrida, mas parece menos frenético que o de Ricardo.

Livrando-se dos obstáculos quase que ao mesmo tempo, os dois correm para a parede de blocos. Olhando para trás, tentando ganhar tempo, Álvaro alarma o adversário.

Álvaro: Ei! Aquele não é o homem que você enganou pra pegar a esposa dele?

Ricardo: ONDE??

Aproveitando a distração, Álvaro corre mais rápido e chega primeiro; ao pendurar a medalha na parede, o mediador parabeniza-o e dá por encerrada aquela prova. Averiguando o desempenho dos dois, o mediador intitula Álvaro como o vencedor da gincana-debate, somando a bagatela de 405 pontos (200 pela primeira prova+ 5 por ficar apenas com meio cheque + o dobro por colocar a medalha); já Ricardo contabilizou 195 pontos (200 pela segunda prova - 10 pelas perguntas erradas + 5 por encontrar o bebê primeiro).

Mediador: Com isso nós encerramos o nosso debate que fortaleceu mais uma vez a nossa festa da democracia. Boa noite!

Álvaro Campos x Ricardo ReisStories to obsess over. Discover now