O peso em meu peito sufoca
Quero socar essa protuberância
Até desaparecer dentro de mim
Quero esconder o volume no meu avesso
Deixar meu vazio engolir meus seios
Porque essa parte do meu corpo
Não parece parte de mim
São como âncoras que se agarram ao meu tronco
Me puxam para baixo sem hesitar, sem medo de me machucar
Quero punir cada traço delicado da minha anatomia
Por me fazer sentir assim
Sei que não é culpa do meu corpo
Ele não me reduz ou me invalida
Eu não nasci no corpo errado
Só preciso fazer alguns ajustes nele ao longo da vida
Porque não fui abençoado com um peitoral reto, que me faria sentir menos deslocado.
Às vezes quero escapar do meu corpo
Alguns dias sinto repulsa de mim
Quando me olho no espelho e sei que eu não me sinto completo estando assim
Colocaram muita partes
Esqueceram outras
Preciso aceitar
Mas isso não alivia a disforia
Que insiste em me abraçar, apertando minha caixa torácica como se quisesse me estraçalhar
Como se precisasse culpar meu corpo
Por não ser como o dos outros garotos.
O sangue escorre por entre minhas pernas
Mais uma semana de agonia
Um lembrete de que talvez eu nunca esteja em completa harmonia
Como se meu corpo de violão jamais pudesse ser afinado
E as cordas enferrujadas, arrebentadas
Produzem um som horroroso que ecoa dentro de mim
Meu útero se contorce em agonia
E a dor sobe até meus batimentos
Eu tento me convencer de que isso não me torna menos homem
Mas o estrogênio envenena meus pensamentos.
E todos me amaldiçoam
Por ser ingrato e querer me livrar do que Deus me deu
Como se me sentir um estranho em meu próprio corpo
Fosse um presente pelo qual eu devesse agradecer
Eu não nasci no corpo errado
Mas estou coberto por linhas tortas
Que não se encaixam em minha melodia
Não vou agradecer aos céus
Não vou celebrar minha disforia.
Me deram teu nome de Santa
Maldito é o ventre dentro de mim
Minha voz não se encaixa entre as mulheres
Amaldiçoo os céus por me moldaram assim
Eu não nasci no corpo errado
Mas essas partes nunca serão parte de mim.
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(Trans)crever
PoetryUma coletânea de textos e poemas feitas por um garoto trans, sobre como é ser um garoto trans e às vezes apenas sobre como é ser um garoto. Às vezes, a disforia é a protagonista ou o ódio ao meu redor, às vezes a ansiedade que assombra meu peito, ma...
