O que a noite esconde?
O céu não devia estar daquele jeito.
Era fim de tarde quando Noa olhou pela janela do quarto e percebeu: o sol não se punha em dourado. Havia algo rubro, encardido, sujando a luz. As nuvens pesavam mais que o normal, e o ar parecia parado demais, como se o tempo segurasse a respiração.
Lá fora, os galhos estavam imóveis, mas havia algo se movendo. Algo que ela não via, só sentia. Uma presença fria, arrastando os segundos como se estivesse apenas esperando... esperando que ela abrisse a porta.
A cidade sussurrava havia dias.
"Alguém comprou a casa da colina."
"Um homem sozinho."
"Chegou sem ser visto. Ninguém sabe de onde veio."
Noa fingia não escutar. Mas os rumores grudavam nela como neblina.
Na escola, o burburinho se tornava febre.
"Ele aparece só à noite."
"Tem olhos que brilham no escuro."
"Alguém disse que viu ele parado no cemitério, com os olhos fechados e os braços abertos, como uma cruz invertida."
Era absurdo. Era teatro.
Era... curioso.
E então, no dia em que o céu ficou vermelho, ela o viu.
Estava voltando para casa por um caminho que só ela usava, um atalho entre árvores esqueléticas que ninguém mais ousava cortar. O silêncio era denso. Os pássaros haviam sumido. E o ar parecia outro — como se ela respirasse um lugar esquecido.
Foi ali, na dobra da trilha, que ele apareceu.
Não havia som de passos. Nenhum ruído que anunciasse sua presença. Apenas estava ali. Como se o mundo tivesse se reorganizado ao redor dele.
Alto, envolto em sombra mesmo sem árvores por perto. Os ombros retos, o olhar enterrado em algo que Noa não compreendia. Seus olhos...
Ela não conseguiria descrevê-los.
Não eram castanhos. Nem pretos.
Eram vazios. Cheios demais. Como se trouxessem tempestades que ela não queria lembrar.
Ela parou.
Ele também.
Um segundo. Dois.
O mundo inteiro se calou.
Noa teve a certeza — mais forte que qualquer lógica — de que já o conhecia. Não como se o tivesse visto antes, mas como se ele tivesse estado presente em todos os seus pesadelos.
E ele a olhava como se soubesse. Como se esperasse algo dela. Algo que ela ainda não sabia que podia dar.
Ela não se mexeu. Mal respirou.
Então ele inclinou levemente a cabeça, como se observasse um experimento que finalmente reagia.
E sumiu.
Não correu. Não virou. Apenas... desapareceu.
Como um pensamento esquecido. Como um nome sussurrado no vento.
Naquela noite, ela não dormiu.
Fechava os olhos e sentia o quarto cheio, como se as sombras tivessem ganhado mãos. O abajur piscava. O espelho embaçava mesmo sem calor.
E, pela primeira vez em anos, Noa sonhou com a colina.
Ela estava lá, de pé sob a lua coberta de sangue.
O eclipse pulsava no céu como um ferimento aberto.
E ele estava diante dela.
Mas desta vez, Azrael tinha asas.
Negras. Enormes. Rachadas como carvão prestes a virar fumaça.
E os olhos... não tinham piedade.
Ela acordou sem ar, as mãos tremendo, e uma palavra ardendo em sua garganta como ferro quente:
"Escolhida."
Mas escolhida por quem?
E para quê?
Noa ainda não sabia.
Só sabia que o mundo havia mudado. Que o céu tinha esquecido seu lugar. Que havia algo à espreita, algo que vinha de antes do tempo, e que agora a olhava como um animal olha a presa.
E que aquele eclipse...
Era só o começo.
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Eclipse Vermelho
Teen Fiction"Ele caiu do céu, mas não veio para salvar ninguém. Veio para levar o que restava de luz dentro dela."
