Capítulo 01

27 2 1
                                        

NOVA YORK

24 DE FEVEREIRO DE 20XX

FERRO-VELHO

Uma garota de corpo curvilíneo saia do subsolo para mais um dia de aventuras em Nova York. Era outro dia cinzento e tempestuoso. Contudo, ela não se importava. Em trajes escuros e de capuz, viajava de cidade em cidade conforme explorava o mundo em ruínas, independente do clima. Desde a invasão de entidades de outros planos, vinha seguindo quase a mesma rotina de sempre: durante a noite, que quase sempre era muito perigosa para os viajantes e espiões, não havia muito a se fazer além de entrar em alguma toca para ler e mergulhar em histórias até adormecer. E, ao amanhecer, era hora de sair de seu esconderijo para continuar a exploração pelos arredores, evitando esbarrar-se com mutantes, mortos-vivos e outras aberrações daquele mundo caótico. O ferro-velho podia não ser o melhor abrigo para uma garota de 16 anos, mas... era lá que estivera passando a noite nas últimas 3 semanas. E por qual motivo?

"Como espiã, às vezes é preciso fazer certos sacrifícios.", dizia ela para si mesma.

Havia algumas coisas que Sarina Brightness queria investigar, tais como os boatos sobre um monstro — talvez mutante — que teria saído da rede de esgotos e estaria agindo pelas proximidades; e os relatos de que teriam aberrações conduzindo pessoas para refúgios falsos, onde elas seriam nada mais que comida de monstros. Veja bem, comida para monstros... Sarina via-se um tanto curiosa para saber quem estaria por trás de um esquema tão cruel. Algumas pessoas da subterrânea vila Snowthynne arriscavam palpites de que se trataria de um metamorfo. Metamorfo ou não, Sarina estava decidida a encontrá-lo, mesmo que fosse preciso entrar na rede de esgotos. E, por mais que estivesse relutante em levantar a tampa do bueiro para adentrar a boca do esgoto — pelo qual sempre sentira tanta repulsa — ... se fosse mesmo preciso, ela o faria.

Sarina Brightness estava fazendo os seus primeiros exercícios matinais, movendo silenciosamente o corpo de 1,76 m, quando uma gata preta ronronou. Cruzando os braços sobre o busto de 83 cm, Sarina olhou para ela.

— Eu sei — respondeu Sarina, agachando-se no meio de sucatas, sem se importar com o comprido cabelo tocando o chão de terra. — Sei bem que é muito para uma só pessoa lidar sozinha. Porém, alguém precisa cuidar disso; e parece que não há muitos voluntários.

Como se replicando, a gata ronronou mais uma vez.

— Sim, sim — Sarina meneou a cabeça, enrolando uma mecha de cabelo prateado entre os dedos enluvados —, mas não tem jeito. Se eu desistir aqui, tudo estará acabado.

De repente, suas orelhas formigaram, antes que ela ouvisse passos apressados pela rua. Pessoas fugindo de mortos-vivos, talvez. Ela saltou e empoleirou-se rapidamente sobre um amontoado de carros em ruínas, para então escalar para o topo. A altura que tomou em poucos instantes a permitiu ter uma visão privilegiada da rua vizinha ao lixão. De fato, como seria de se esperar, pessoas fugiam de mortos-vivos. Dois indivíduos, um homem e uma mulher — ambos joviais e de altura mediana — com uma horda de mortos-vivos vindo logo trás deles, perseguindo-os incansavelmente. 

Sarina se permitiu observar com atenção a dupla que fugia em desespero. Ora, apesar de aparentemente estarem em boa forma, viam-se suados e resfolegantes. Não aguentariam correr sequer mais um quarteirão. Ela estreitou os olhos castanhos. Quase podia ouvi-los gritando por socorro. Contendo um suspiro, a espiã sacou depressa a pistola e o chicote mágico do cinto.

Era possível sentir o poder arcano fluindo.

A pistola — embora conjurada pelo seu item mágico — era como qualquer outra arma, um objeto convencional e de utilidade comum. Contudo, aquele chicote — que ela usara para a conjuração da arma de fogo — já salvara a sua vida em diversas situações caóticas. Não contava apenas com as mesmas utilidades de uma varinha mágica, mas... também podia se estender quase infinitamente; e encolher de volta. Muitíssimo mais útil que um chicote comum, era perfeito para usar como um gancho e se mover rapidamente de um ponto a outro; ou para puxar coisas e pessoas para si, a poupando do trabalho de ter que ir até elas.

Brandindo o chicote, ela mirou no poste do outro lado da rua, de frente ao ferro-velho. E estava prestes a disparar e saltar até lá, quando avistou uma figura de preto agachada no prédio adjacente. Com uma agilidade sobrenatural, a figura saltou, empoleirou-se no poste e então pulou de novo, desaparecendo de vista. Tudo aconteceu rápido demais. A visão aguçada de Sarina, contudo, a permitia vislumbrar o borrão disparando — saltitante — de poste em poste, numa velocidade alarmante. 

"Parece que está se aproximando daqueles dois...", pensou Sarina. "O seu objetivo é então apanhar o casal?" 

A garota cerrou os dentes. Embora seus olhos pudessem acompanhar — bom, pelo menos até certo ponto —, Sarina não poderia competir com tamanha velocidade.
Mesmo assim, ela moveu-se, disparando o chicote e saltando. 

Assim que a ponta do chicote enrolou-se ao poste, ela se balançou e pousou graciosamente num telhado logo adiante. Pouco depois, corria e saltava sobre prédios, o solado de suas botas cantarolando, conforme ela mirava em um segundo poste.

Logo flagrava-se se balançando novamente, movendo-se pelo ar frio o mais rapidamente que podia atrás deles. Foi quando ela divisou a figura materializar-se na rua, bem diante do casal espantado. Em um piscar de olhos, a figura os cobriu com a capa negra e então, numa fração de segundo, desapareceu num lampejo de poeira e trevas. E, claro, o casal havia sido levado por aquela misteriosa aparição.

Project Zero-K13 ☆ Chaotic Lords [Repostando]Stories to obsess over. Discover now