Meu nome é Thomas e, se você estiver lendo isso, eu já parti.
Vou contar o que aconteceu comigo, o que aconteceu em 1932.
Mas para chegar até lá, tenho que explicar quem eu sou, como vivi.
Talvez você não consiga ler, minhas mãos já estão trêmulas e minha letra não ajuda muito.Mas eu já não tenho mais nada à perder, acho que não mudaria nada se eu lhe contasse sobre minha vida e o que eu passei.
Minha infância foi digna de uma história de contos de fada até meus 10 anos, quando meus pais foram brutalmente assassinados na minha frente.
Meu pai trabalhava para o prefeito de Saint Emillion, o que me deu uma infância cheia de brinquedos e ao mesmo tempo, uma vida cobiçada.Eram muitos os que queriam que meus pais morressem, tanto por rivalidade quanto em busca por dinheiro.E eles conseguiram.Não tinha como passar grande quantia para uma criança de 10 anos, era um absurdo.A solução foi guardar o dinheiro, que logo depois foi roubado por sabe se lá quem.
Aos 10 anos eu já morava nas ruas.Minhas roupas foram ficando sujas, meu cabelo bagunçado e cada dia que passava eu começava a feder mais.Eu estava magro, com unhas grandes, comendo migalhas que as pessoas deixavam cair no chão.
Nenhuma criança queria brincar comigo, talvez pelo mal cheiro, talvez pela minha aparência decadente ou talvez os dois.
Fui perdendo amigos até que eu já não tivesse mais nada.
Aos poucos fui perdendo as lembranças que tinha da minha boa vida.
A única coisa que ainda me mantinha vivo era as conversas que eu tinha com os ratos.Pode parecer loucura mas eles me respondiam.
Lembro-me de uma conversa que tive com um dos meus amigos.
- Você acha que amanhã eu vou morrer?-perguntei cabisbaixo.
- E qual seria o problema? Você já não tem nada a perder.- Meu pequeno amigo me respondeu sem olhar nos meus olhos.
- Eu tenho a vida, não quero perde-lâ.
- Mas um dia você vai, não adianta ansiar por isso ou ter medo.Todos vão e eu sei disso melhor do que ninguém, afinal, sou eu quem espalha a morte.
- Eu não quero matar ninguém.
- Mas por quê? Você deveria, foram essas pessoas que tiraram tudo de você.
- ...- Não falei mais nada e fiquei pensando naquela conversa por um bom tempo.Pensei nela até decidir que nunca mataria ninguém, a culpa de ser quem eu sou é somente minha.Levo essa conversa até hoje, a decisão, já não sei mais.
E depois dos meus 10 anos a vida continuou assim, continuei sem nunca saber o que ia comer, se ia comer, sem nunca me sentir confortável perto de uma pessoa, sem nunca deixar de falar com coisas que geralmente não iriam me responder.E eu segui assim até meus 16 anos, quando eu finalmente arrumei um emprego.Não era o melhor dos empregos, mas pela minha pouca educação, não acharia um que pagasse mais.
Meu turno era à noite, eu trabalhava com uma pá e voltava para meu beco com minhas botas cheias de terra.Sempre ficava me perguntando quem eram aquelas pessoas que havia enterrado, suas histórias, como elas viveram, como elas foram.E para não pensar demais, eu trocava o pouco que ganhava pela bebida mais barata que encontrava e dormia no bar ou na rua, sempre após uma briga ou discussão.
E foi assim por um bom tempo, até que com meus 32 eu comprei uma casa.Era o único lugar em que eu podia descansar sem ter medo de acordar mijado no dia seguinte.A maioria dos bares já não me aceitavam mais, o único que sobrou foi o bar do Joseph, que com o tempo se tornou meu amigo, ou pelo menos era o que eu achava.
Com 45 anos, fui convocado a fazer um enterro vazio, o enterro da pessoa mais bela que já havia visto, a esposa do xerife.Ela era jovem e linda, muitos diziam que ela tinha um relacionamento conturbado com o marido.Talvez seja por isso que ela tenha acabado aqui.
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O que os demônios me diziam
Mystery / ThrillerThomas era um homem adulto que estava sendo assombrado por seres que ele nunca havia visto antes.Seriam esses seres algo demoníaco ou seriam eles apenas os seus próprios pesadelos?
