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História: Vong

Revisão: Tany Isuzu

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          — Me vê mais um capuccino, por favor.

          Era uma segunda-feira movimentada no Café Bonaparte. Quase sem parar, as pessoas mal entravam na cafeteria e já saíam carregando as sacolinhas marrons-avermelhadas com seus expressos, capuccinos, mocaccinos, lattes e mais algumas guloseimas apetitosas que sempre enfeitavam o painel da padaria-cafeteria. As mesas estavam todas lotadas: amigos se reencontravam, famílias passeavam juntas, colegas de trabalho engravatados terminavam relatórios financeiros para a apresentação que aconteceria no mesmo dia. Tudo sob o aroma amargo do café junto ao cheirinho de pães e bolos saindo do forno.

          E na mesa nº11, perto dos banheiros, um homem fazia seu pedido de capuccino. Apesar de seus lábios dizerem um sorridente "por favor", seus olhos diziam algo mais próximo de "pelo amor de Deus". Uma súplica bem condizente com a visão geral do homem: de camisa branca, colete preto e gravata vermelha — e, por debaixo da mesa, de calça social e sapatos bem lustrados —, o visual clássico contrastava com os cabelos mal arrumados, com as olheiras que iam até seu nariz e com os fiapos de uma barba mal feita naquela manhã. O homem realmente era um "por favor, pelo amor de Deus".

          Atrevo-me a dizer, ainda, que a mesma coisa podia ser dita do estado em que sua mesa se encontrava. Um copo grande de café de um lado, papéis jogados do outro. Um livro de anotações estava perdido entre esses dois extremos, assim como uma caneta-tinteiro, um tablet da geração passada, um papel-toalha sujo de alguma massa de salgado e um cartão de visitas com o nome "Alfredo Boasorte". Enquanto esperava pelo pedido, o homem pegou seu caderno e caneta, movimentando sua pequena bagunça.

          — Aqui. — O jovem garçom tentava encontrar algum lugar para colocar o novo copo de café. Acabou decidindo levar o antigo embora e colocar o novo no lugar. — Vai querer a conta já?

          — Vou — respondeu o outro, enquanto escrevia algo em seu caderninho. — Por favor.

          — Aqui, deu R$ 15,80 pelos dois capuccinos e pelo croissant — disse, estendendo a comanda que já estava pronta. — O mesmo de sempre.

          — É. — O homem fechou a caderneta de anotações, marcando alguma página com a caneta. Pegou a carteira e, de lá, retirou um cartão de débito. — Passa lá pra mim.

          — Qualquer dia você vai acordar sem nada na conta porque eu vou ter passado todo o seu saldo na maquininha da padaria. Você que não fica esperto com isso, não. — A frase terminou no outro lado da loja, com o garçom rindo enquanto digitava o valor da conta e, em seguida, inserindo a senha. Retirou as duas vias e voltou para entregar uma delas. — Guarda aí nessa sua montueira de papel.

          — Claro. E se você estourar meu cartão na padaria... — E amassou o papel, jogando-o no lixinho perto do banheiro. Um lançamento bonito. — É lá que vão encontrar seu corpo no outro dia.

          — Que senso de humor bom, hein, Alfredo. Agora xispa, vai, eu preciso limpar essa bagunça aí.

          No mesmo instante, o garçom empurrou seu colega para o lado e começou a recolher os papéis.

          — Não mexe nisso, Neto. — Alfredo tirou a mão do colega de sua mesa e passou, ele mesmo, a organizar tudo em uma pilha única de papéis, moedas e clipes. Com tudo terminado, pegou sua mochila velha e depositou tudo lá dentro, tendo cuidado para deixar seu tablet em outro compartimento. — Já falei pra você.

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