Sim, ele ainda se lembra, mesmo depois de tanto tempo, de tantos anos, das palavras que lhe foram ditas. Elas ecoam, frescas, pela sua cabeça sem uma direção definida.
Ele tinha 10 anos naquela época, um menino qualquer que vivia como qualquer outro menino no Canadá e que não estava preocupado com o que o destino lhe reservava no futuro.
Toda vez que ele se lembrava do dia em que seu avô havia lhe dito aquelas coisas, alguma coisa mudava dentro dele, algo novo, algo estranho e principalmente, algo assustador...
⊶⊰ꗴ⊱⊷
10 anos atrás...
A pista avançava paralelamente ao mar, ladeada de palmeiras, numa grande faixa de asfalto. Ao fundo, as montanhas contornavam caprichosamente o horizonte entre claro e escuro, entre azul, laranja e rosa.
Amanhecia e o mar se vestia de cores variadas. Josh Beauchamp estava sentado em um banco ao lado de seu avô. Observava os aviões que, alçando vôo, subiam, levantando os narizes em linha inclinada e que aos poucos, se tornavam um ponto cada vez mais pequeno, até que desapareciam por completo. Quando mais novo, sempre se perguntou como que coisas daquele tamanho conseguiam voar, mas atualmente, isso já não atiçava sua curiosidade como antes.
De minuto em minuto, ouvia-se um barulho agudo, que vinha de um ponto qualquer, mais longe ou mais perto. Josh fixava os olhos no céu já claro, límpido, bem azul e praticamente sem nuvens. Ele queria ver além, muito além, um ponto branco, um avião se aproximando pronto para pousar na pista. O motivo para isso, é que em minutos, sua avó estaria de volta, depois de alguns dias que ficou ausente, visitando algumas amigas que a muito tempo não via.
Josh observou que seu avô olhava o relógio de pulso a cada 2 minutos, como se o intervalo de 120 segundos durasse dez vezes mais. Ele pôde ver que eram 6:30h e o nervosismo de seu avô, aos poucos, passava para ele. Já estavam esperando a mais de trinta minutos e nada do avião pousar na pista de embarque. Aquela espera não era para ele, pois paciência não era uma de suas qualidades. Mas como que adivinhando a demora, antes de sair de casa, levou um livro para que pudesse ir lendo no caminho da casa de praia ao aeroporto. Josh levou Harry Potter e o Enigma do Príncipe e estava na parte onde Severo Snape matava Alvo Dumbledore na Torre de Astronomia. Ele já o havia lido tantas e tantas vezes que poderia recitar o livro inteiro de cor de trás para frente. Aos poucos ele se cansou da leitura, colocou o livro de lado e ficou olhando para seu avô, que tamborilava os dedos em sua perna.
Depois que sua avó viajou, os dois haviam ficado sozinhos na enorme casa de praia. Um foi companhia para o outro nesses longos dias e Josh podia afirmar que aquele cara de cabelos brancos, que pareciam mais nuvens de algodão, era um anjo, isto era. E que companheiro! Companheiro de praia, de cinema e até de dança. E como gostava. E também não perdia um jogo sequer na televisão, que ficava na sala. Ele delirava, torcia as mãos de nervoso quando a bola entrava na grande área. Aí se lembrava de todos os santos possíveis, fazia promessas e até acendia velas. A avó de Josh não conseguia segurar o riso quando isso acontecia.
E pensando em velas, de onde estava, Josh conseguiu ver no mar, um grande barco que passava perto do porto, que se localizava ao lado do aeroporto. Velas brancas, lançadas ao vento. Um vento leve, que trazia o cheiro salgado do mar e a esperança de um longo dia de sol.
Gaivotas voavam ao redor do barco, rente a água. Ele conseguiu ver uma mergulhar, sumir entre as ondas e aparecer com um peixe entre o bico. Ficou olhando o azul profundo do mar, da mesma tonalidade da cor dos olhos de sua avó, até que seu avô se mexeu ao seu lado e o tirou de seus pensamentos.
Voltando a atenção para ele, Josh viu que seu avô observava um avião, que saiu do solo, rápido, deixando atrás de si, um barulho surdo que ressoou nos ares.
Mais alguns minutos se passaram e agora o sol começou a brilhar, entre umas nuvens claras e tímidas. Outros aviões subiram, um a um, cortando o céu de uma ponta a outra. Nenhum descera.
— Será que o avião atrasou? - O avô de Josh pergunta.
— Talvez sim. Pode ter acontecido algum contratempo, isso acontece vovô. - Josh resolve tentar conversar com ele para tentar o aliviar da tensão que ele se encontrava. - O senhor está com saudades da vovó?
Ele olhou para Josh como se tivessem lhe perguntado a coisa mais imbecil do mundo.
— Se eu estou? É claro que sim. - disse ele, falando aquilo com toda a verdade - Eu não vivo sem ela, e essa viagem só me mostou o quanto eu a amo mais ainda.
Josh olhou para o avô e falou para si mesmo que se apaixonar por alguém era ficar daquele jeito, ele nunca iria gostar de ninguém em sua vida inteira.
O avô de Josh, ao ver a expressão no rosto de seu neto, percebeu na hora o que se passava na cabeça dele.
— Não adianta me olhar desse jeito Joshua.
— De que jeito? - Josh pergunta, e sua voz sai acusatória demais.
— Essa cara de nojo. Eu sei muito bem o que passou pela sua cabeça, afinal eu vivi muito, já vi de tudo e principalmente, conheço o neto que tenho. Um velho como eu, vivido, sei das coisas. E se quiser um conselho de seu velho aqui, não adianta você achar que nunca vai acabar gostando de alguém, porque um dia vai.
Josh sempre desconfiou que seu avô e sua avó eram telepatas pois pareciam saber exatamente o que ele pensava, em qualquer hora.
Nesse momento, o avô de Josh olhou diretamente para os olhos de seu neto, como se aquele olhar tivesse o poder de penetrar em cada célula sua. Ele olhou para aquele olhos que transmitiam muita experiência na vida e suas rugas não ficavam para trás.
— Acredite, eu já pensei como você quando era mais jovem.
— E isso foi quando? Em 1745? - Josh não conseguiu segurar o riso mas vendo a cara que lhe olhava, parou na mesma hora.
— Entenda que na vida ninguém é feliz sozinho. Acredite em mim. - ele disse aquilo com a maior sabedoria que conseguiu transmitir e continuou - Há um tempo para cada um, sabe, e cada momento desse, existe uma pessoa certa para que possamos compartilhar eles.
Josh não sabia mas fez uma cara como se estivesse entendendo tudo.
— E como sabemos quando a pessoa é a certa? - Josh só perguntou aquilo para manter o avô ocupado.
— Você vai saber quando chegar a hora. A pessoa que o destino lhe reservou vai aparecer tão inesperadamente e vai tornar sua vida mais mágica. Você vai perceber que a cada vez que a ver, seu coração vai quase sair pela boca, você não vai saber o que falar, vai tremer mais que vara verde e vai suar tanto que seu suor vai dar para encher outro Lago Ness.
— Mas uma pessoa é capaz de sentir tudo isso em um momento só vovô? - Josh perguntou, espantado.
— E como, e como pode. - ele sorria, e seu olhar era como se nele, você pudesse voltar no tempo. Ele se perguntou se seu avô tinha sentido aquilo quando conheceu sua avó.
Mas não houve tempo para respondê-lo pois naquele momento, um avião colossal, fazendo um estrondo, estava descendo. Ele pousou e contornou a pista lateral e parou. A porta se abriu e os empregados correram com as escadas. Começou a sair gente pela porta lateral e pela porta do fundo. Duas filas compridas se formaram. Havia gente de toda parte. Josh viu um homem moreno, alto, com uma túnica esvoaçante e homens de negócios com pastas nas mãos.
— Onde está a vovó? - perguntou Josh, nervoso.
— Calma, tenha calma. Não podem sair todos ao mesmo tempo. - O neto olhou para o avô e pensou que a poucos minutos, quem estava mais nervoso que tudo não era ele.
Quando ia falar isso, ele a viu, no topo da escada. Sim, era ela, com certeza, com aquele vestido florido. Josh começou a acenar e ela os viu.
Quando ela chegou perto deles, seu avô se jogou nos braços dela, fazendo com que as malas dela caíssem no chão mas ela não ligou. Ele chorava e por fim, ele a beijou. Josh desviou o olhar mas nesse momento lhe veio na cabeça, que se algum dia, conseguiria amar alguém, como seu avô amava sua avó.
⊶⊰ꗴ⊱⊷
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Para Sempre É Um Longo Tempo
Fanfiction"Durante a Segunda Guerra Mundial, homens e jovens americanos iam para o combate, pegavam em armas para combater os alemães e seus aliados e sonhavam em criar uma sociedade melhor, mais justa e correta. Esse tempo passou. Depois outros homens, joven...
