"Ugh..." era um grunhido que ela passou a repetir ainda mais que o costume.
Como a capital de um dos maiores países do mundo, com uma astronômica quantidade de pessoas dependendo dela, e a continua linhagem de governos mal sucedidos e corruptos, é extremamente delicada a situação que ela é encarregada de se encontrar todos os dias, desde o início da sua inauguração.
Claro, o seu tamanho minúsculo não ajuda em absolutamente nada. Sendo a menor de todos os estados do território brasileiro, pode acreditar que custa bastante conseguir uma mínima atenção ou respeito por parte do resto dos estados. Ela tenta de tudo. Salto alto, batom vermelho, cabelo Chanel, terno. Ela grita, manda, tenta impor sua autoridade, digna de uma verdadeira capital.
Geralmente funciona, é verdade. Mesmo que eles ainda a caçoam sem cessar, caluniam e fofocam de si pelas suas costas, e o tempo todo fazem questão de bater de frente consigo.
Se um dia ela foi considerada a esperança para um futuro mais desenvolvido para o Brasil, obviamente isso já não passa de uma vã e ilusória lembrança. Agora era não era nada mais além de um chiqueiro cheio de porcos corruptos, e um cabo de guerra político, de quatro em quatro anos.
Logo, ela estaria morta se demonstrasse qualquer tipo de defeitos, ou fraquezas. Mais do que já demonstrou, é claro. Os seus escândalos de corrupção já são defeitos o suficiente. Como qualquer um a respeitaria se ela se deixasse levar pelo luxo de mostrar-se como uma capital minimamente frágil, especialmente em um país terceiro-mundista tão gigante como o Brasil?
É só que... A pandemia é realmente um peso a mais. Um peso que ninguém esperava. E é ela quem precisa ao menos demonstrar uma aparência de segurança, mesmo que esteja literalmente andando por um labirinto de olhos vendados.
Em meio a um dilúvio de papéis para assinar e problemas a resolver, além das praticamente infinitas entrevistas, reuniões, conselhos, e mais inúmeras outras formas de adquirir um pouco mais de dor de cabeça, estresse e insônia, nem ela pode negar que ela está quase idêntica a um zumbi.
Que papéis ela está assinando? Sinceramente, a esse ponto, ela nem sabe mais. A sua mão já está agindo no modo automático, e ela nem faz mais questão de ler. Ela sabe bem o quanto isso pode ser perigoso, mas sua exaustão vem falando muito mais alto.
E então, seu telefone começa a tocar. Com uma movimentação lenta e cansada, ela levanta o braço não ocupado com os papéis e aciona o viva voz.
"... Sim?" ela diz, tentando soar firme e clara, mas falhando, com sua voz rouca e obviamente exausta.
"Tem alguém querendo ver a senhora" diz sua secretária, com sua típica voz monótona. Distrito suprime outro grunhido, ao pensar que poderia ser para mais entrevistas. Ou algum estado vindo aqui só pra trazer mais uma imensa lista de reclamações e suas milagrosas propostas de leis. Ou simplesmente a xingar na cara dura. Se for o último, provavelmente é algum estado nordestino ou o Rio de Janeiro.
"Quem é?" ela diz depois de um suspiro, parando alguns segundos para massagear suas têmporas.
"Goiás."
'Ah'. Distrito pensou em silêncio. Sua expressão facial relaxou levemente.
"Ele pode vir na minha sala" ela diz, encerrando a ligação sem se despedir, e voltando a assinar seus papéis.
Por volta de 10 minutos depois, afinal, o Palácio do Planalto é bem extenso, Distrito ouve um bater na sua porta.
"Pode entrar" diz, ainda com uma voz levemente rouca.
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A Melhor Estação- Statehumans
Short StoryPode não ser considerado o trabalho mais corrido e cobrador do mundo, mas ser a capital de um país terceiro-mundista tão gigante e populoso quanto o Brasil com certeza tem o potencial de estar entre os top 10 dessa lista. Ao menos, Distrito Federal...
