O som característico da cafeteira velha trabalhando arduamente num complô já conhecido entre o pó do grão torrado do cafeeiro e a água aquecida fez com que Jeongguk borbulhasse por dentro. Com um pouco de esforço, conseguia sentir próximo às narinas aguçadas o cheiro que tanto o fez ficar noites em claro em meio a trabalhos da faculdade e livros a serem entregues.
Agora, entretanto, em sua mente havia apenas o possível sabor adocicado artificialmente da bebida forte, que tanto fazia seu estilo... E, claro, o prazo curto que ainda restava-lhe para entregar sua última obra à editora.
A xícara fria certamente sussurraria agradecimentos baixos se pudesse — ou talvez Jeongguk apenas estivesse a fazer aquilo de novo: usufruindo da maldita personificação que tanto deixava os amigos bravos — quando entrasse em contato com o líquido quente como acontecera no momento em que virou café na pequena caneca de porcelana. De qualquer forma, ele mesmo o fez quando pegou-a pela alça, carregando o que suportava o café já doce perto do peito e dirigindo-se ao próprio quarto, porque, se havia algo que o Jeon odiava mais do que café fraco, com certeza era trabalhar em lugares fechados, com um estereótipo parecido com aqueles de homens engravatados e escritórios sem janelas.
E, antes tivesse percebido o andar dos próprios pensamentos; sua mãe sempre dissera-lhe que costumava atrair o que pensava, ou o que dizia, e parece que a regra validava-se para casos como aquele: quando ele mencionara, mesmo que mentalmente, seu ódio mortal pelos grãos misturado com água demais porque, assim que pôs o mínimo da bebida na boca, sentiu o gosto do café fraco e quis cuspir diretamente na xícara.
— Merda.
Um livro para terminar, um agente para responder e, agora, um café para refazer.
Ótimo, Jeongguk pensou, tudo sob controle.
A não ser pelo fato de que não estava. Dentro de sua própria mente desesperada e com medo de perder o contrato com a editora, o garoto quis correr, talvez gritar e pedir ajuda. Sentia-se culpado por não dar aos fãs a continuação da série literária que, de início, fora tão fácil de escrever... Mas a verdade era que, depois de romances inesperados e mortes já pré-determinadas, Jeongguk não achava um meio de terminar a maldita trilogia que constantemente lhe tirava o sono.
Queria um café, contudo. Aquilo o ajudaria a pensar. Talvez mais do que querer, ele precisava de um café. Enfurnado há dias no apartamento novo, caixas de papelão e alguns objetos ainda não guardados enfeitavam o corredor estreito e a sala de jantar — o que era uma pena, porque, logo de cara, imaginou o quão bonita a sala grande ficaria com um lustre que deslumbraria-se em pequenas lamparinas, uma mesa grande e quadrada, centralizada.
Suspirou cansado, colocando seu notebook na mochila, juntamente ao carregador, e rumou para fora do novo lar, cansado das paredes sem cor e da falta óbvia de inspiração. Tomaria um ar, procuraria uma cafeteria e tentaria escrever um pouco; era um bom plano.
A alça unida ao ombro forte parecia pesar pouco enquanto os pés movimentavam-se rápido, os olhos curiosos buscando algum indício de padaria, ou cafeteria para que ingerisse algo do seu agrado. Talvez ainda não soubesse, mas nem tudo resumia-se ao café, os grãos amargurados ou qualquer que fosse o gosto do doce que viria de acompanhamento, mas também sobre inspiração: Jeongguk precisava de algo que o fizesse degustar do pouco de aventura, amor e sabor que sua boca gritava por; com isso, quem sabe, a mente bloqueada por problemas desenvolveria-se através da barreira imaginária de incapacidade.
Quando, por um descuido seu, acabou por dobrar a esquina errada, não conseguiu reconhecer o arco decorativo de pedra que enfeitava um parque bonito, mas, mesmo perdido, admirou aquilo e não resistiu à vontade de seguir em frente e descobrir algo novo. Agora os tênis velhos procuravam abrigo naquela calçada bonita e bem varrida da parte ainda mais nobre do que o bairro em si, esquecendo até mesmo do objetivo principal e agora focando em apenas turistar pela área bonita.
YOU ARE READING
Expressar-se
FanfictionJeon Jeongguk, em seus plenos vinte e quatro anos, escritor conhecido pela trilogia Liberdade, acaba perdendo a capacidade de expressão quando uma crise literária lhe atinge. E quando o bloqueio criativo parece adoecer o jovem, ele encontra sua cura...
