O mundo parecia mais silencioso ali. Até o barulho do motor do carro soava abafado, como se a estrada estivesse nos engolindo aos poucos. As árvores altas e cerradas formavam um túnel de sombras enquanto nos aproximávamos de Prescott, e tudo ao meu redor parecia pedir silêncio. Ou respeito. Não sei.
Encostei a testa no vidro frio da janela, deixando a paisagem desfocar diante dos meus olhos. A neblina começava a se espalhar entre os pinheiros e o céu estava daquele cinza constante que me dava a sensação de que o dia nunca começava de verdade.
Era oficial. Estávamos longe de Dominica.
Fazia quatro horas desde que deixamos a praia, o som das ondas e o cheiro de sal no ar. Quatro horas desde que eu vi pela última vez o velho píer onde eu costumava sentar com a Emma depois das aulas, com os pés balançando sobre a água e o tempo desacelerando só por um instante. Ela foi a última pessoa que abracei antes de entrar no carro. E mesmo sem dizer muito, aquele abraço parecia uma despedida de tudo o que eu era.
— Quase lá — disse meu pai, sem tirar os olhos da estrada.
Assenti, sem força para responder. Ele estava tentando, eu sabia. Só que o tempo que a gente passou juntos nos últimos anos caberia em uma caixa de sapatos. E minha mãe, ao lado dele, fingia mexer no celular, mas estava com aquele olhar de quem também sentia tudo ruir por dentro.
"Mudanças são oportunidades, filha.", foi o que disseram. Um recomeço. Um lugar mais tranquilo, com um custo de vida mais baixo e uma oportunidade de trabalho para o meu pai, graças a um velho amigo dele. Soava bonito no papel. Mas tudo que eu conseguia pensar era: o que vai sobrar de mim aqui? Não saberiam como é deixar tudo pra trás quando você só tinha aquilo. Não era muito, eu sei. Mas era meu.
Quando finalmente chegamos, meu estômago revirou. Percebi que Prescott era tão diferente de Dominica quanto o dia é da noite. As casas eram espaçadas, com grandes quintais e janelas fechadas. As ruas pareciam limpas demais, como se ninguém ousasse desorganizar o silêncio dali.
A nossa nova casa era simples, de dois andares, com pintura bege e janelas brancas. Nada mal, para os padrões que podíamos pagar agora. O bairro era mediano — um daqueles lugares em que todos cortam a grama no mesmo dia e onde vizinhos sabem quando você chegou antes mesmo de estacionar.
Desci do carro e abracei meus braços. O vento me arrepiou inteira. Não era frio de verdade, mas para alguém que vinha de uma cidade litorânea, aquilo já parecia inverno. Enquanto meus pais começavam a descarregar o carro, fiquei parada ali, encarando o portão de madeira da nova casa, como se estivesse tentando negociar com ele.
"Você promete não ser um desastre completo?", pensei em silêncio.
Subi as escadas em direção ao meu quarto, ou melhor, o quarto que seria o meu, ainda meio anestesiada, carregando a mala mais leve. O espaço era maior do que o antigo, com uma janela que dava para uma fileira de pinheiros altos, que se moviam como se cochichassem entre si. O papel de parede era antigo, desbotado em alguns pontos, e o colchão ainda estava embalado em plástico. Sentei na beirada da cama e soltei o ar devagar, como se isso pudesse tirar um pouco do peso que vinha crescendo no meu peito desde a mudança.
Minha mala estava ali, pronta para ser aberta e revelar algumas roupas dobradas, livros empilhados e uma foto minha com a Emma escondida no fundo.
Suspirei.
O silêncio era sufocante.
Desci para a sala e encontrei meus pais ainda descarregando algumas caixas. Minha mãe me olhou com um sorriso cansado.
— Por que você não dá uma volta? Conhece o bairro... vê o que tem por perto — perguntou.
Assenti e vi uma expressão de alívio formar em seu rosto, talvez por achar que alguma onda de entusiasmo tardio havia me atingido de repente. Mas não era. Eu só concordei porque precisava respirar. Sozinha.
Vesti o casaco, enfiei as mãos nos bolsos e saí. A calçada estava úmida do sereno, e o cheiro de terra molhada e madeira era forte o suficiente pra me fazer sentir em outro planeta.
A vizinhança era estranhamente arrumada. As casas, embora diferentes entre si, mantinham uma mesma estética: cercas baixas, flores cuidadosamente plantadas, decorações sazonais. Caminhei devagar, observando cada detalhe. Uma placa de "Bem-vindo outono" tremulava na porta da casa ao lado. A frente de outra exibia um espantalho vestido com camisa xadrez e um sorriso de pano.
Quando cheguei na terceira casa da rua, a porta da frente se abriu com um rangido.
— Ei! — Uma voz animada chamou.
Uma mulher de cabelo preso num coque bagunçado apareceu, segurando uma tigela de vidro coberta com papel-alumínio. Ela vestia um suéter laranja e jeans. Tinha aquele sorriso clássico de boas-vindas que eu só via em filmes.
— Você deve ser filha do Henry! Sou a Sra. Granger, mas pode me chamar de May. Todo mundo chama. — Lancei uma expressão confusa em sua direção, porém ela continuou a descer a varanda animada com um passo leve, como se flutuasse. — Casada com o Thomas, seu pai o conhece dos velhos tempos, lembra?
Assenti, um tanto surpresa. Então era ela, a esposa do tal amigo que ofereceu o novo emprego ao meu pai.
— Fiz muffins de maçã e canela — disse, estendendo a bandeja. — É uma tradição por aqui: boas-vindas com açúcar e conversa fiada. — Ela deu uma piscadela.
— Ah... obrigada. — Agradeci tímida e peguei a tigela, ainda quente, meio sem saber o que fazer com ela, como se segurasse uma bomba-relógio.
— Meus filhos estão no colégio local também. Talvez você conheça minha filha, Ava, por lá. Mesma idade que a sua.
— Legal... vou ficar de olho. — disse, tentando parecer simpática.
May falou mais algumas coisas — sobre o clima, as festas de bairro, e o quanto adorava viver ali — antes de se despedir. Continuei caminhando, agora com a tigela nas mãos, até chegar ao final da rua, onde o bairro se abria numa pequena área com bancos de madeira e um parquinho abandonado.
Sentei num dos bancos e coloquei a tigela ao lado. O frio parecia mais forte ali, e as folhas dançavam ao redor dos meus pés como se tentassem me entreter. Sorri por um instante.
Porém, não demorei muito para voltar. Estava começando a escurecer, e a temperatura caía rápido. Quando voltei para casa, meus pais ainda estavam organizando as caixas, mas pareciam mais animados, como se aquela mudança fosse o recomeço que sempre sonharam.
Talvez, para eles, fosse mesmo.
Mas para mim... ainda era apenas o fim do que eu conhecia. O fim da praia, da minha melhor amiga, dos corredores da escola antiga, do cheiro da casa que deixamos para trás.
— Onde você arranjou isso? — minha mãe perguntou, assim que colocou os olhos em mim.
— A vizinha. May. Ela me deu de presente.
— Ah, que gentil! — Pegou a tigela das minhas mãos e a colocou na bancada da cozinha. — E, então? Deu pra conhecer um pouco?
— É... diferente. — Assenti.
Ela sorriu de leve, como se estivesse tentando acreditar que a mudança era mesmo o melhor.
— Você vai se acostumar. — "Talvez. Mas não hoje.", pensei.
Respirei fundo e subi as escadas. Meu quarto ainda cheirava a tinta fresca e papelão. Me joguei na cama, ainda com sapatos e tudo, e encarei o teto branco.
Era só o começo, e já parecia demais. Talvez fosse só o cansaço da mudança. Talvez fosse só saudade. Mas, lá no fundo, algo sussurrava que não era só isso. Algo que ainda não tinha nome... mas já estava ali.
KAMU SEDANG MEMBACA
Eternity
RomansaLindsay Allen sabe que mudanças raramente trazem algo bom - e Prescott não parece ser exceção. Entre corredores desconhecidos e silêncios que dizem mais do que palavras, ela se vê cercada por segredos que preferia não descobrir. Mas então, há Kayden...
