"Não poucas vezes esbarramos com nosso destino pelos caminhos que escolhemos para fugir dele."
Jean De La Fontaine
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Em meio às confusas ruas da cidade, minhas pernas cambaleantes lutavam para seguir rumo até a estação, onde iria me encontrar com meu destino. Era o que merecia, depois de tanto tempo em meio ao sofrimento desencabido que eu respirava.
Quando a luz do dia chegasse e repousasse sobre todas as pequenas coisas mundanas, eu já estaria desmembrado sobre os trilhos do trem. Não sentia como se fosse uma opção, mas sim um dever, seria melhor para todos assim, eu fora de vista deste maldito lugar.
Depois de todas as minhas conquistas, pensei que finalmente poderia me sentir vivo, mas tudo o que senti foi a falsidade e a arrogância do mundo. Todos a que mim se aproximavam traziam consigo suas superficialidades e mentiras, já estava exausto de tudo, de todos, principalmente de mim. Que diferença faz quando tudo ao redor muda, quando se é dentro onde está a dor?
Exaustiva. A palavra perfeita pra definir minha vida. Já estava cansado de colocar esperanças em coisas sem futuro, sem significado. Afinal, sabia que estava completamente sozinho, como foi a maior parte do tempo.
Refletindo sobre minha dor, olhei para o céu, onde as nuvens lutavam para esconder a lua. Provavelmente choveria no dia seguinte, o cenário perfeito para uma morte qualquer.
Fazia muito frio o tempo todo naquele lugar, quase mais deprimente que eu.
Quando finalmente dei por mim, já havia chegado à estação, o breu da madrugada interrompido pelas luzes foscas da iluminação mal feita do estabelecimento antigo. Senti a típica ansiedade por antecipação, tendo em mente que não voltaria para casa nunca mais. Estava ali o meu futuro, meu infinito.
A estação de trem não era nem detalhes longe como aquelas de filmes, era pequena e decadente. Uma pequena casa, com a guarita onde se comprava as passagens, mais um banheiro e uma sala fechada, provavelmente onde ficavam os utensílios de limpeza e manutenção do estabelecimento - provavelmente limpo pela última vez há um ano. Pois é, como disse, decadente. As paredes eram de um amarelo que já se perdia em meio a tantas partes descascadas, mostrando a pintura anterior, de um verde musgo. Do lado de fora a metros dos trilhos, ficavam dois bancos de madeira, desconfortáveis e feios, casando com o resto do lugar deprimente. Um telhado cobria toda a área - esse era o mínimo, vamos concordar.
Além do rastro de trilhos havia um bosque, que seguia o caminho do trem por alguns quilômetros adiante, perdendo espaço para casebres medíocres. Sim, tudo formava uma cena desanimadora. E o prêmio de cidade mais triste do ano vai para...Enderville!
Respirei fundo olhando para o relógio que marcava 4 horas e 13 minutos, o momento mais escuro do dia. O primeiro trem da manhã passava pouco antes das 5 horas.
Comumente, somente desciam pessoas do trem, mas ninguém embarcava, como eu já havia notado bem, pois não gostaria de ter companhia alguma que fosse ver ou até tentar me impedir de realizar o que planejava para mim.
Infelizmente, escutei passos atrás de mim e pensei "Não pode ser!" e quando me virei de relance, senti como se algo dentro de mim desmoronasse, ao ver o rosto a quem o andar pertencia. Lídia. Mas tinha que vê - la justo hoje? Parecia uma brincadeira da vida, mais um baque no coração me lembrando de outro fracasso. Havia a deixado partir, se distanciar de meus braços. Me dei conta de que já passava do momento de pôr fim a tudo, de me libertar do peso que era sobreviver.
Ela pousou o olhar em mim, vendo que estava paralisado a encarando de surpresa.
- Benjamin, é você? - a doce voz e o singelo sorriso, não pude deixar de sentir o calor interno por ver ela tão próxima a mim, quase como antes, quando ainda não havia a expulsado de minha vida.
- Ahn, oi. - respondi de forma hostil, torcendo mentalmente para que ela cruzasse logo a rua e partisse para qualquer lugar que fosse, mas que ficasse longe da estação. Porém, ao notá-la discretamente, percebi que carregava uma mala consigo. Que azar, já sabia que não seria hoje meu encontro com o fim.
- Nossa, faz tanto tempo desde a última vez que te vi, não posso mentir, o tempo lhe conservou! - disse, ainda sorrindo de forma quase que ingênua. Senti pena por ter sido tão rude de imediato. Tentei mudar o tom e relaxar meus ombros, ao tentar seguir com a conversa vazia ao mesmo tempo que pensava o que faria dali adiante. Havia uma ponte a certos três quilômetros de onde estávamos. Talvez fosse alta o bastante para quando eu me jogasse não durasse muito tempo para morrer.
- Benjamin?
- Hã?
- Te perguntei para onde está indo, você não ouviu. Tudo bem? - Me olhava com preocupação, nem imaginando meu plano.
- Ah, desculpe, estou cansado, só isso. - Sorri torto - Vou visitar minha mãe. E você?
- Oh, também estou cansada, é tão cedo, não é? Fiquei um pouco preocupada de vir sozinha para cá, ainda é tão escuro, mas que bom que você está aqui! Assim não preciso ter tanto medo. - Quando disse isso, senti um aperto no meu coração, mais um, como já senti antes.
De fato, nunca havia superado ela. Por que tinha de ser tão doce? - Sua mãe se mudou? Esquisito, Ela sempre dizia como amava morar no norte, "Não é tão frio como Enderville, aquele horror de lugar!" - falou simpática, risonha, como sempre.
- Se mudou? Não, por que diz isso?
- O primeiro trem vai para o Leste, sua mãe não mora lá, ela não morava em Crystal Rock? Fica para o norte. - Droga, nem mentir direito eu consigo. E agora?
- Ah! Ela mora lá ainda, mas vou passar na casa do meu irmão antes para pegar umas coisas, aí vou para lá!
Tentei ao máximo soar descontraído, mas vendo o olhar de Lídia para mim, percebi que não estava dando certo. Numa tentativa de desviar o assunto, perguntei:
- E você? Para onde está indo?
- Sua mala?
- O que foi?
- Vai buscar sua mala? Na casa de seu irmão?
- Ah, sim, a mala, isso mesmo. Estou de mudança e minhas coisas ficaram lá. Por isso preciso dar uma passada antes para pegar a minha mala e visitar minha mãe.
Por que ela insistia no assunto? Eu odiava o fato de não conseguir ficar incomodado com a atenção exagerada que ela dava para a nossa conversa.
- Hum, ok. - o sorriso fechou. De repente o semblante já não era mais vívido, parecia vazio, quase como o meu reflexo. Eu havia dito algo errado?
- Estou indo visitar meus amigos, passarei o feriado inteiro com eles, fica perto da praia. - voltou a sorrir, mas dava para perceber que era forçado.
- Que legal, sempre gostei da praia. - Não queria mais falar com ela, parecia tirar o foco do motivo real para eu estar ali, aquela hora.
Primeira vez que obtive um silêncio dela, que também parecia pensar em algo. Gostaria de saber o quê, sempre fui péssimo em lê - la, talvez por isso que ela foi embora.
Olhei para meu relógio, já marcando 4 horas e 21 minutos. Como iria sair dali? Já estava decidido, queria ir para a ponte, mesmo que não morresse na hora, quem estaria lá para me socorrer?
Ainda estava escuro demais, nem me veriam, mas tinha de ir logo então, pois o sol não esperava por nada, muito menos um suicídio.
Com um jeito melancólico, ela quebrou o silêncio finalmente, e disse:
- Lembra quando nós íamos para a costa no meio da noite só para beber e ficar vendo as estrelas? Lembro de uma vez que eu te disse que tinha visto um disco voador e você não acreditou!
- Ah, sim! Até hoje acho que era um avião. Sabe que não acredito nessas coisas, e se.. Ai! - Ela me tinha socado o braço? Olhei para ela, que ria.
- Eu sei o que vi, Ben, não era um avião! Não me faça parecer doida, quem não enxerga bem aqui é você. Por falar nisso, seu grau já deve ter aumentado, não é, senhor Miopia?
Ela ria de leve, tentando me provocar conforme me fava mais um soco fraco, dessa vez no peito.
-Aumentou muito pouco, Ok? E sabe que acho mesmo que você é doida, pelo menos para vir sozinha para a estação no meio da noite, justo você, pequena e frágil! - fiz trejeitos, devolvendo a provocação.
- Eu sabia que haveria pelo menos um homem corajoso para me proteger, pena que só tinha você. - fez bico apontando para mim. - O corajoso não chegou ainda.
- A-há! Está me dizendo que não tenho coragem? Pois saiba que sou um homem muito diferente do que você deixou para trás. Muito melhor que antes, diga - se de passagem.
- Hahaha, isso eu duvido, mas eu não te deixei, você sabe disso, sabe como as coisas aconteceram.
Mesmo que estivéssemos com tom de brincadeira, de repente as coisas já haviam voltado ao estado natural, silêncio puro acompanhado da brisa de inverno. Não quis respondê - la, pois entendia seu lado.
Infelizmente a culpa era minha, eu que me fechei para todos, me enchi de segredos e fiz ela ir embora. Sei que não foi o certo.
Agora estávamos lado a lado, sem mais palavras. Chequei meu relógio, 4 horas e 35 minutos. Essa era a hora, não podia mais adiar. Tinha de deixar tudo, mas Lídia ficaria sozinha, e se aparecesse algum estranho? Não, não apareceria ninguém, tinha de esquecer tudo e focar no que vim fazer ali. Mas o que diria a ela? Será que era esse o momento de finalmente me livrar de toda a dor que levava no peito e dizer a ela meus reais sentimentos? Não a veria mas depois disso.
-Vou dar uma caminhada para ver se esquento o corpo, tudo bem?
- Ah, vou com você! - sorriu - também estou com frio, dá tempo de irmos e voltarmos antes do trem chegar.
- Não...eu quero ir... - me afastei olhando para o chão, não conseguia encará - la - preciso ir sozinho.
- Não, por favor, Benjamin. - Parecia que havia mais que preocupação na voz dela, quase como se fosse um desespero. Como se ela soubesse para onde eu estava indo, para o quê estava indo. Mas, como? - Você não pode ir sem mim. Estou mesmo com frio, me leve com você.
- Não, sério... vou caminhar um pouco, se eu perder o trem, não se preocupe, pego o próximo. Não perca seu programa com seus amigos por mim. Fique aqui, logo estará na hora de partir, ninguém perigoso vai aparecer, não precisa ter medo. Fique, por favor...
- NÃO, BENJAMIN! - gritou, segurando meu sobretudo com ambas as mãos, se abaixando para me fazer ver seu rosto. - Você não vai a lugar algum. Vai ficar comigo, aqui.
Ri, mesmo sem motivo, conforme soltava suas mãos de mim e dava as costas, seguindo meu caminho:
-Por que está agindo assim? O que deu em você? Já disse, só vou caminhar um pouco. - Não houve resposta.
Caminhei alguns metros, sem olhar para trás. Dessa vez, não, sem volta agora, estava lá para fazer o que tinha de ser feito, ma por que tinha de encontrá - la justo nessa noite? Só para me distrair.
- Sei o que está fazendo, Ben. - ouvi sua voz ao longe, mas forcei meus passos, não iria parar mais.
Ela vinha atrás de mim agora, lentamente me acompanhando.
- Eu sempre tive medo...sempre.
Quando estávamos juntos você sumia de repente, não tinha mais como ligar para você e nem te encontrar. Se escondia e voltava dias depois dizendo que estava tudo certo, mas eu sabia que nunca esteve nada bem. Escondia seus remédios de mim, seus pensamentos, tudo. Sabe que me cansei disso e fui embora. - Estava agora ao meu lado, acompanhando meus passos ligeiros. Já podia sentir minhas lágrimas caindo, junto com uma garoa infeliz. - Sei que errei - entrelaçou sua mão com a minha, com o susto empaquei -, mas não quero errar de novo. - com a outra mão, tocou meu rosto, já molhado pelas lágrimas que eu tinha desistido de conter e nesse momento, tudo desabou.
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A Passagem
Short StoryUma passagem de vida para a morte e uma passagem de trem. Uma depende da outra.
