A Amarga sobremesa

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A Amarga sobremesa

      Não foi intencional, tão pouco planejado, quando me dei conta, já tinha as mãos lavadas de sangue, nunca quis isso, nunca me imaginei em tal situação.

      Estava eu, só, na cozinha que fica na área externa da minha casa, minha esposa dormia há algumas horas enquanto eu lavava alguns panos-de-chão que estavam sujos, pois pretendia usá-los novamente pela manhã.

      Algumas horas antes, fomos anfitriões de uma festa em comemoração aos dez anos que eu passara atuando na mesma empresa, na época, já em cargo executivo, o que nos proporcionava uma vida confortável, ao ponto de ser dispensável a nós qualquer trabalho doméstico já que seria possível e inteligente de nossa parte pagar para que um terceiro o fizesse, pois nos pouparia a moeda mais preciosa da humanidade que é o tempo, mas, como não negava e nunca negaria minhas raízes, sempre me dispus a fazer todas as tarefas domésticas, de cozinhar a lavar os panos-de-chão sujos o que não permitia que eu me esquecesse quem eu verdadeiramente era. Não sei se mais o sou.

      Naquele distraído momento, minha condição era patética de tão inofensiva, estava eu trajando por cima de minhas roupas um avental branco, de plástico, com flores estampadas, enquanto calçava luvas amarelas de borracha nas mãos e as tinha por sua vez, ensaboadas pois as usava em conjunto a uma escova para esfregar um dos vários panos que naquele momento lavava, foi quando escutei um barulho.

      Num primeiro instante, não entendi direito de onde ele vinha, pois me pareceu irrelevante preocupar-me com ele, morávamos naquela calma vizinhança desde que nos casamos a oito anos e nunca ocorrera qualquer relato dos vizinhos a não ser de pequenos animais que vez ou outra invadiam e xeretavam suas lixeiras afim de encontrar algum resto de alimento que lhes servissem para saciar a fome.

      Depois, num segundo momento, ao ganhar minha atenção pela constância que soava e a graduação ascendente de volume que intensificava-se com a aproximação, percebi que o mesmo, que fluía vividamente, soava à minha frente, à esquerda, por cima, entre o telhado que cobria a área onde estava e o corredor que a acompanhava-a pela extensão de toda a sua lateral. Ainda assim, com minha curiosidade ganha, não me atentei muito ao estranho e atípico barulho, pois me ocorreu que fosse um gato buscando abrigo ou caçando algum outro animal.

      Esperava que fosse um animal pequeno, estava pronto para bater o pé ferozmente contra o chão e afugentá-lo.

      Ao invés de um inofensivo animal doméstico que curioso, perambulava pelos telhados das casas vizinhas, o que caiu ali, em pé, à minha frente, foi um homem, branco, da minha estatura, felizmente para mim, mais magro do que eu, trajando vestes escuras e com a cara tão suspeita e maliciosa quanto a sua provável intenção ao cair ali, no meu quintal, naquela hora da noite.

      O mesmo, ficou tão surpreso ao me ver quanto eu fique ao vê-lo e no primeiro instante ficamos ambos petrificados.

      O ladrão, por se deparar com alguém não só acordado, como ali, exatamente a sua frente logo após sua aterrissagem. E eu, por estar à espera de não mais que um felino de quatro patas e quatro quilos e ao invés disso, recepcionei um animal bípede de pelo menos sessenta quilos.

      Após nosso simultâneo choque, que durou possivelmente uns quatro segundos, longos quatro segundos, diga-se de passagem, se é que isto é possível, mas não mais do que isso. Entreolhamo-nos, e sem tempo para bolar um sólido plano para lhe dar com a situação que a vida ali nos propôs, partimos ambos desastrosamente a execução do que quer que fosse.

      Corremos, cada um para um lado, caçando pela área algo que nos servisse de arma, naquela batalha que certamente começaria. Para o azar dele, tinha conhecimento da área e minha busca foi mais eficiente do que a dele, corri para a churrasqueira e empunhei, meio desajeitado, um espeto de churrasco que fora o primeiro ao meu alcance, enquanto o que foi para a infelicidade dele a arma escolhida, talvez por falta de opção por ter corrido para o lado menos vantajoso, foi uma pequena pá de lixo.

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