A estrada era longa, reta e escura — como um presságio. Os faróis do carro cortavam a neblina, revelando apenas o suficiente para não perder o caminho. Ao meu lado, Richard mantinha-se calado, como sempre. Seus olhos, opacos e fundos, observavam a escuridão como se esperasse que algo surgisse dela.
— Estamos perto — anunciei.
Richard apenas assentiu. Ele nunca falava muito. Desde que foi entregue a mim pela Ordem, a obediência era seu único dom intacto. O resto — confiança, fé, amor — já havia sido arrancado dele nas Ruínas.
A mansão apareceu como uma aparição no alto da colina: grande demais para ser real, silenciosa demais para estar vazia. O portão se abriu com um ruído metálico. Estávamos em casa.
— É maior do que imaginei... — murmurou ele, admirado, enquanto o carro subia a estrada de pedras.
— E ainda assim, menor do que o que merecemos — retruquei, saindo do veículo.
A chave girou pesada na fechadura. O interior cheirava a madeira antiga e segredos velhos. A mansão parecia viva, como se respirasse lentamente, esperando por nós.
Richard levou minhas malas para o andar de cima sem que eu precisasse pedir. Suas mãos tremiam ligeiramente. Ele odiava o silêncio. Trazia lembranças.
— Escolhi o quarto com vista para o abismo — gritei, sabendo que ele ouviria de qualquer lugar da casa.
— Como desejar, Senhora Angel — respondeu sua voz distante.
A janela do meu quarto dava para o penhasco. O mar lá embaixo batia nas pedras com força cíclica. O som era quase reconfortante, como se a natureza me lembrasse que o mundo ainda estava vivo. E que, se eu quisesse, poderia empurrar alguém ali de cima.
Depois de um banho morno e roupas escuras que moldavam meu corpo como uma segunda pele, desci até a garagem. Richard me esperava com a porta do carro aberta.
— Preciso... sentir — expliquei, sem olhar para ele.
— A cidade é pequena. As boates são discretas. Ninguém vai te reconhecer.
— Ninguém nunca me reconhece. É isso que me torna perigosa.
Ele não respondeu. Como sempre, sabia o momento de calar.
***
O letreiro azul-piscina da boate piscava: "Eden Club". Ironia do destino. Logo eu, entrando no Éden.
A música eletrônica vibrava no chão e nos ossos. O cheiro de suor, álcool e luxúria era quase sagrado para mim. Sentei no balcão. O barman me olhou curioso, como se tentasse me decifrar.
— Gim com gelo — pedi, sem sorrir.
O copo veio rápido. Olhei ao redor. Rostos bonitos demais, felizes demais, ignorantes demais. Mas havia algo... um nome martelava no fundo da minha mente: Valentina. Como se tivesse sido sussurrado por alguém atrás de mim. Virei o rosto. Ninguém ali. Mas o nome ficou.
Um homem se aproximou. Era mais velho, com roupas caras demais para aquele lugar. Típico.
— Sozinha? — perguntou, já embriagado.
— Só de corpo — respondi.
Ele riu.
— Posso te acompanhar?
— Pode tentar.
Trinta minutos depois, ele já havia se convencido de que me levaria para casa. E eu deixei.
Mas o destino dele não era casa nenhuma. Era julgamento.
***
Richard estava de pé na entrada quando chegamos. O homem riu ao vê-lo.
— Você tem um mordomo? É rica mesmo, hein.
— Ele só serve a quem merece — murmurei.
Assim que o homem entrou no saguão, Richard agiu com precisão militar. O bastão de metal acertou o joelho primeiro. O grito foi abafado pela tapeçaria grossa. Depois, um segundo golpe na lateral da cabeça.
Ele caiu.
Richard olhou para mim, aguardando.
— Está vivo?
— Sim, Senhora. Pulsando.
— Leve para o porão. Quero os olhos dele abertos antes do amanhecer.
— Como desejar.
Desci até a biblioteca. Abri um dos livros antigos da prateleira oculta. Havia uma lista. Nomes riscados. Outros ainda legíveis. Um deles agora pulsava, recém-escrito em tinta vermelha:
Antonio Silver Meregueiro
Olhei pela janela. A noite ainda era nossa. E Valentina... bem, talvez seu nome também estivesse no livro.
Talvez só não tivesse aparecido ainda.
Se você continuar lendo... lembre-se: ninguém é inocente. Nem mesmo você.
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city of flowers
Horror"Por favor, por favor, por favor..." se repetia essas mesmas palavras em seus pensamentos a cada segundo. Mas relaxa, não era ela que estava suplicando, ela gostava de ver e ouvir as ultimas palavras de suas vitimas, é assustador para alguns mas pr...
