Me estico preguiçosamente no sofá, sentindo as articulações se estalarem de uma forma deliciosa, depois volto a minha posição inicial afim de cochilar mais um pouquinho. É final de tarde e a chuva cai ferozmente acalmando o calor escaldante de verão. Eu simplesmente amo ficar de bobeira curtindo a preguiça, dormindo. Poucos segundos ouço barulho de passos na varanda de frente da casa. Em seguida a chave entra na fechadura e a porta se abre rangendo levemente. Isadora adentra passando as mãos pelos cabelos crespos encharcados e o vestido florido praticamente transparente pinga agua no assoalho gasto. Essa cena já havia acontecido milhares de vezes, ela sempre se esquece de levar o guarda-chuva, apesar de deixa-lo ao lado da porta.
Passa por ele, o encara rapidamente e solta uma risada irônica. Fica alguns segundos no quarto e volta de lá vestindo um short mais solto e blusa de alcinhas. Caminha pela sala indo em direção a cozinha. Desde que chegou parece que não me viu, mas nem me dou ao trabalho de demonstrar que estou aqui, preguiça, muita preguiça. A ouço enchendo o copo com água e seus passos ficam cada vez mais próximos, ela está vindo em minha direção. Se senta ao meu lado. Só levanto a cabeça levemente para olha-la e novamente a abaixo.
−Aí está você Afonso! −Um leve sorriso de satisfação se abre ao dizer isso. Continuo imóvel, apesar de sentir conforto em ouvir sua voz.
− Aposto que está dormindo o dia inteiro né seu preguiçoso?! − Dessa vez ela inclina sua mão direita sobre minha cabeça e começa a acaricia-la.
Em um reflexo me entrego de corpo e alma aquele toque e sinto um barulho de prazer sair automaticamente pela minha garganta.
Como se tivesse dado conta de algo, para as caricias e se levanta, o que me deixa um pouco irritado, eu não queria que ela parrasse. Vai até a cozinha, ouço a geladeira sendo aberta. Um cheiro invade minhas narinas e no mesmo instante sinto o gosto de leite forte em minha boca. Em um pulo ágil vou para o chão e saio desembestado em direção ao cheiro. Lá está ela derramando leite em minha tigela. Estou tendo a visão do paraíso. Passo rapidamente acariciando meu corpo pelas suas pernas finas, a olho de baixo e mergulho minha língua naquele liquido dos deuses, nem vejo Isadora me deixando só, mas não importa, estava no céu naquele momento e além do mais precisava me alimentar porque logo sairia para caçar aquele rato infeliz. Hoje à noite ele não me escaparia, eu descobri onde ele dorme.
Entre minhas lambidas ouço a porta ranger ao ser aberta novamente. Em meu interior tenho uma vaga ideia de quem pode ser, então me apresso a terminar logo o leite. Os passos pesados e arrastados que irritariam qualquer um profundamente estão vindo para a cozinha. "INFERNO". Vai sobrar um pouco da bebida na tigela.
Antes que pudesse pular na mesa e depois a janela afim de sair sorrateiramente para o quintal, sinto a ponta da bota de couro pegar em cheio as costelas me fazendo alçar voo quase que para outro lado do cômodo.
− GATO IMUNDO, some daqui. − Ele vocifera.
Mais que depressa faço o percurso que tinha em mente anteriormente e me jogo no quintal, afinal de contas, eu não tenho sete vidas como dizem pra ficar dando bobeira lá. Espero minhas pupilas se ajustarem a escuridão, pois já é noite, enquanto lambo minha pata direita e a passo no rosto para limpar restos da bebida. Ao fazer minha higiene ouço a discussão do lado de dentro.
− Você não precisava fazer isso Jaime, o pobrezinho nem terminou o leite! − Isadora diz em uma voz resmungada.
− Você sabe muito bem que odeio esse bicho imundo. − Faz uma pausa na voz rouca e ranhenta. − E cadê o jantar? Tô morto de fome!
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CONTO SURREAL
Short StoryBreves historias do cotidiano com uma pitada do sobrenatural.
