Capítulo 1

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Existem situações na vida que impedem a normalidade.

Último dia do sexto período, pensei no que eu faria depois dali. Os meses sem aula me pareciam cada vez mais solitários, no primeiro semestre era divertido, na verdade, é o que se espera de novidades: primeiro é empolgante, depois, normal, até que precisamos de algo novo para suprir um vazio, era isso que eu vinha sentindo após dois anos morando sozinha. 

- Gal. - o professor chamou pelo meu nome. - Está tudo bem? O tempo está acabando. - acenei que sim, provavelmente tinha percebido que minha atenção estava em qualquer lugar, menos na prova.

Olhei para o armário, e, por alguns instantes, como quem pressente algo, observei pelo reflexo do vidro a forma como meus longos cabelos castanhos estavam amarrados, me fazendo lembrar de onde eu vinha. Ninguém olharia para mim e imaginaria o que sou ou o que vivi até chegar aqui, muitos diriam que seria apenas mais uma garota medíocre dentre todas que já existem. Reparei na forma crítica como o aplicador nos examinava, tentei imaginar quais seriam seus segredos, já que segredos não tinham cara. Ele me analisou curioso, tentando entender o porquê de olhá-lo, tirei os olhos dele imediatamente, um tanto sem graça. Voltei a focar nas peças anatômicas a minha frente: uma perna dissecada com todos os nervos amostra, uma mão com poucos vasos sanguíneos em bom estado e, por fim, um braço com parte dos músculos faltando.

O som do TIC TAC do relógio me fez perceber que faltavam cinco minutos para o término da avaliação. "Concentre-se", pensei. Respirei fundo e me desliguei de tudo. As respostas das últimas questões fluíram em minha mente e passei-as para o papel.

Fui a última a entregar a prova.

Do lado de fora da sala não havia ninguém, não tinha sequer uma alma viva até o fim do corredor, me fazendo imaginar se Nice, minha amiga, estaria me esperando do lado de fora do prédio. Tirei o jaleco e guardei-o na mochila. Fui em direção ao elevador, mas uma placa sinalizava que deveríamos utilizar a saída de emergência ou as longas e intermináveis rampas.

Antes que eu abrisse a porta da escada de incêndio, que dava para as escadas, um barulho incomum veio do fim do saguão, próximo à sala de provas. Era um som que já havia escutado, o que me deixou aflita, não era um bom sinal. Toquei os lóbulos das orelhas procurando pelo par de brincos, que estavam perfeitamente em seu lugar, eram meus amuletos de proteção. Eu poderia apenas ignorar e continuar, mas algo me fez pensar duas vezes.

Voltei à sala. Olhei pela janela de vidro no meio da porta: as peças já tinham sido guardadas e apenas a luz do cômodo conjugado estava acesa. Um vulto passou por baixo da porta lentamente, mas devia ser o professor, o que me tranquilizou. Dei um passo para trás afastando-me da entrada e, então, um ar quente soprou em minha nuca: um típico bafo pesado e ácido de alguma criatura que me fez arrepiar até a espinha. No vidro, além de mim, a imagem de um homem quase um metro maior do que eu com apenas um enorme olho no meio da cara refletia. Engoli em seco, era um ciclope nada amigável.

Segundo a terceira lei de Newton, toda ação tem sua reação, fiz por valer. Em um movimento rápido empurrei-o com os dois braços. Ele grunhiu dando passos largos para trás, enquanto caí de costas a alguns metros de distância mais longe para o lado oposto. Puxei a mochila para frente tentando pegar Carnwennan, um punhal que ganhei de aniversário de meu pai aos dezenove anos. Mas o monstro não entendera isso, deu um longo riso grave e rouco ao acreditar que eu estava caída no chão indefesa e prestes a me borrar de medo.

O ciclope correu em minha direção. Preparei-me. Quando estava perto o suficiente para me golpear de punho fechado, rolei para o lado e me pus de pé. Ele estava rápido e era grande demais para conseguir frear bruscamente, dando tempo suficiente para que eu enfiasse a lâmina em suas costas, rumo ao coração. A criatura se desintegrou em pó e sua alma imortal desceu ao Hades.

O despertar do oesteWhere stories live. Discover now