Alice e Guilherme, Guilherme e Alice.
Dois produtos do morro do Ataendê no Rio de janeiro, amigos de infância, apaixonados desde então, mas com noções diferentes sobre quais caminhos seguir diante das injustiças da vida, e do que pode custar suas es...
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9 ANOS ANTES
A risada de Alice corre solta enquanto corre de Guilherme, ao bater os olhos na grande circunferência azul, ela tem certeza de que ele nunca vai acha-la nesse esconderijo, ele pode até ser bom de bola, mas no pique-esconde ela é invencível. Ou pelo menos, ela acredita ser, é a típica inocência e invencibilidade das crianças, elas sabem de tudo, elas podem tudo.
Guilherme e Alice são vizinhos desde a barriga e brincam juntos praticamente desde que saíram dela, ele é um ano mais velho e agora tem 10 anos, enquanto ela tem 9. Me deixa desenhar para você, Alice é uma menina de pele preta, com as pernas compridas e o corpo cheio de curvas apesar da pouca idade, às vezes, quando ela desce o morro para fazer qualquer coisa com a sua avó lá pelo asfalto, a quantidade de olhares que recebe é pra lá de indecente, afinal, ela só tem nove anos. Semana passada um vendedor ambulante teve a audácia de, acreditando que a sua avó fosse sua mãe, chamá-la de sogra!
- Ela só tem nove anos! – Gritou dona Vera, indignada com o absurdo da situação e pelo menos o tal camelô teve a decência de parecer envergonhado. Mas sobre a Alice, ela é uma menina esperta demais, inteligente demais, ansiosa demais, cabeluda demais, tem mais cabelo que muito pé de boi! Sua avó costuma dizer que ela nasceu embaixo de um pé de sobras, porque está sempre com sentimentos além do que devia!
Mas a essa altura, você deve estar se perguntando sobre a mãe da Alice, bem, ela não é morta se é essa a sua preocupação, mas dona Vera, em alguns momentos culpados, deseja que fosse. Alice sofreria menos, sua mãe a abandonou há dois anos atrás, quando ela mesma tinha apenas sete. Daquelas mulheres que dizem que não nasceram para isso, Joana diz que tentou, mas há pouco mais de 730 dias, ela desistiu, e Alice, bem, ela não tem essa opção, ela precisa viver.
Com a supervisão de sua avó, é o que ela tem feito, mas não sem perguntar diariamente onde é que sua mãe está e quando é que ela volta, Joana nunca foi das melhores, mas era alguma, e não é que Alice não esteja acostumada a ver filhos sem mãe ou sem pai, na verdade, em sua rua, ela conta nos dedos de uma mão aqueles que tem os dois, mas ela costumava ter pelo menos um, então em sua cabeça não faz sentido, que sem que sua mãe esteja morta, de uma hora para outra, ela simplesmente não a tenha mais, assim ela decidiu que tem, que sua mãe só está em algum lugar por aí, mas que isso não quer dizer que ela precisa perdê-la, o que ela se recusa a aceitar é que essa não é uma escolha que ela possa fazer, sua mãe a abandonou. Como eu disse, Alice é muitas coisas demais...
Depois de conseguir se encaixar atrás do grande esconderijo, ela agacha atrás de uma caixa d'água em um beco e fica espiando por baixo das colunas que a sustentam, sua respiração está ofegante, ela correu tanto morro e entrou por tantos becos até achar esse lugar, mas tem certeza de que vai valer a pena, o Gui vai ficar contando para sempre, ela ri do fato, se divertindo por achar que se ele gosta tanto de matemática, ele que fique com os números.