Parte Um - O corpo

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O dia começara a se esvair, o sol se pondo lá fora indicara que já estava quase na hora do plantão começar, as 18:50 Luye vestia seus sapatos emborrachados sentado num banco de plástico do vestiário, o vai e vem de pessoas que estavam indo embora e a de pessoas que entrariam trabalhar no plantão noturno se chocava uma nas outras entre conversas e despedidas.
Luye se levantou e seguiu sozinho para o corredor de entrada, sentia-se invisível e completamente deslocado, não tinha amigos e as pessoas pareciam fazer questão de evitar qualquer troca de olhar que fosse. Era olhado como alguém que só era visto nos momentos ruins, somente quando alguém morria é que era lembrado pelos funcionários, mas já estava acostumado a situação.
Parou em frente ao elevador, adentrou e como diariamente, apertou o botão do subsolo, ficava seis andares abaixo do térreo, eram cinco minutos de silêncio até as portas se abrirem e uma voz robotizada informar que chegara a seu destino "Subsolo - Morgue". Quando as portas se abriram, deu de cara com as conhecidas tiras de plástico grossas que dividiam a porta do elevador com a porta de aço que abrira para seu doce espaço, para alguém que não conseguia ter amigos, ser introspectivo e anti-social, era o trabalho perfeito.
Abriu a porta de ferro, o ar gelado envolveu seu corpo, vestiu então seu macacão que ficava pendurado atrás da porta seguido de seu avental de plástico que estava totalmente amarelado pelo frequente uso, bateu seu dedo no registro de ponto exatamente as 19 horas, vestiu suas luvas de procedimento e foi até outra porta onde havia um suporte com um check-list, pegou e viu que nenhuma das 12 geladeiras haviam corpos, relaxou os ombros, "deve ser uma noite tranquila então", pensou em seguida, feliz por saber que teria tempo de organizar seu espaço.
Abriu os armários, e começou a separar seu material, de rotina, era sempre os mesmos, facas, bisturis, concha para retirada de sangue e uma pequena máquina para serrar crânios, raramente o procedimento mudava, era um padrão sempre, começando da cabeça para o abdômen, sem grandes mudanças.
Por volta das 20 horas seu telefone tocou, atendeu com a voz metódica de sempre, um enfermeiro lhe avisara que um paciente acabara de vir a óbito, Luye foi até o elevador e aguardou.
Os corpos desciam por um elevador acoplado aos fundos do Necrotério, era um pouco diferente, nele só vinham o corpo ensacado em seu velho e conhecido saco preto, uma maca de metal ajudava na locomoção, as paredes do elevador eram emborrachadas e ninguém entrava ali a não ser o morto, uma área completamente contaminada de bactérias que era lavada uma vez ao mês. Luye colocou a maca de metal rente a mesa de procedimento e puxou o saco sem dificuldades, o barulho alto de plástico tomou conta do local silencioso e gelado, voltou a maca ao elevador e apertou o botão do primeiro andar que estava acesso, indicando de onde o corpo viera. Caminhou até sua mesa de trabalho, puxou o zíper e abriu o saco preto, o corpo era de uma mulher nova, sua ficha indicava que tinha 36 anos, viera do andar cirúrgico, não chegaram a realizar cirurgia, já que ela morreu um pouco antes de entrar na sala, em sua descrição ela foi encontrada desmaiada em sua casa, os exames de imagem mostravam uma grande perda de sangue em seu crânio. Luye pegou uma mangueira e com a água fria, molhou todo o corpo que enrigecera e a pele pálida começou a aparecer, a água fria ajudava na hora da necrópsia, a manter os tecidos firmes. Pegou o bisturi e fez um corte horizontal na parte posterior da cabeça, de orelha à orelha, puxou a pele para frente até que cobrisse seus olhos, lavou levemente somente para tirar excesso de sangue e pegou sua máquina de cerrar crânios, ligou e um barulho estridente tomou conta da sala que fazia ecos por todos os lados, o osso do crânio se soltou e um líquido esverdeado caiu no chão, Luye olhou para suas botas sujas, estranho, um cérebro não se decompõe tão rapidamente dessa maneira, mas ele não existia na cabeça do corpo, era apenas uma gosma verde e com um odor repugnante, havia uma lousa branca atrás de Luye, onde com uma caneta ele anotou o que aconteceu, pegou o resto que sobrara do líquido de dentro do crânio e colocou num frasco para posteriormente mandar ao laboratório, foi até a parte do tórax e fez dois cortes, vindos da direção dos ombros e se encontrando na base do pescoço, onde com um corte reto e contínuo chegou até próximo a virilha, abriu a pele com cuidado, diferente do cérebro, todo o sangue da parte torácica e abdominal do cadáver estava preto, coagulado, como se houvesse dias que estava morta. Pegou uma faca e cortou-lhe as costelas e tirou sua caixa torácica, os pulmões estavam completamente duros e enegrecidos, era incomum, pois mesmo o pulmão de uma pessoa idosa que fumou a vida toda, jamais ficaria naquela tonalidade, tirou com dificuldade os pulmões e colocou em cima de uma bancada para medição, retirou um fragmento para a patologia, tudo estava estranho, estava tão imerso naquele corpo curioso que deu um pulo quando seu relógio despertou num som alto, indicando a hora da pausa, colocou um pano sobre o corpo, despiu seu avental e seu macacão e foi até a Copa que ficava numa ante-sala próxima ao elevador e tomou seu café.

Um Sonho Escrito - O NecrotérioCerita yang bikin terobses. Temukan sekarang